
HistóriaTeólogos arminianos2 de 71
Carlos Augusto Vailatti: o hebraísta da USP que pôs Armínio em português
Na noite de 19 de novembro de 2016, um sábado, o auditório da Igreja Cristã da Trindade, perto da estação São Judas do metrô, em São Paulo, recebeu um encontro apologético sobre um único capítulo da Bíblia. O tema era Romanos 9: “Amei Jacó e odiei Esaú”, o endurecimento de Faraó, os “vasos de ira”. O palestrante era o professor Carlos Augusto Vailatti, que naquele ano tinha concluído o doutorado na Universidade de São Paulo e acabava de publicar, com tradução e notas suas, Uma análise de Romanos 9, de Jacó Armínio. A editora o apresentou como obra inédita de Armínio em português: mais de quatro séculos depois, a carta do pastor de Amsterdã sobre o capítulo mais disputado entre calvinistas e arminianos chegava ao leitor brasileiro pelas mãos de um hebraísta.
Vida
Formação: do seminário à USP
Carlos Augusto Vailatti nasceu em 1973, em São Caetano do Sul, no ABC paulista. Estudou teologia de 1996 a 1999 no Instituto Betel de Ensino Superior (IBES), a Faculdade Betel, em São Paulo, e concluiu o bacharelado com um trabalho sobre a importância do jejum na Bíblia. Também é graduado em teologia pelas Faculdades EST, de São Leopoldo (RS).
O mestrado veio no Seminário Teológico Servo de Cristo (STSC), em São Paulo, entre 2007 e 2009, com especialização em teologia bíblica e título obtido em 2010. A dissertação, orientada por Estevan Frederico Kirschner, chama-se Legião é o meu nome e faz uma análise exegética, hermenêutica e histórica de Marcos 5:1-20, o episódio do endemoninhado gadareno. O tema seguiu no primeiro livro, Manual de demonologia (Fonte Editorial, 2011), um volume de quase quinhentas páginas que percorre a figura de Satanás na Bíblia e na literatura judaica antiga e depois examina o relato de Marcos.
Em 2010, Vailatti entrou no Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Em novembro de 2012, a banca do exame de qualificação aprovou a passagem direta do mestrado para o doutorado. Com bolsa da CAPES e orientação de Suzana Chwarts, estudou hebraico bíblico e moderno, línguas semíticas e o livre-arbítrio na história do pensamento judaico.
A tese, defendida em 2016, tem o título Um olhar sobre o simbolismo mágico-religioso no livro de Êxodo. Ela lê os capítulos 4 a 14 de Êxodo, da vara que vira serpente à travessia do mar, no texto hebraico, e conclui que os sinais de Moisés e Arão seguem uma fórmula: são feitos por ordem de Deus, para que os israelitas creiam e os egípcios saibam que o Senhor é Deus. A tese virou o livro As dez pragas e a abertura do mar (Reflexão, 2017).
Professor e pastor
Vailatti começou a lecionar no IBES em 2002, com aulas de hermenêutica, teologia sistemática e doutrinas fundamentais do pentecostalismo. Desde 2011 ensina no Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro (STEBB), cujos formandos o escolheram como patrono da turma de 2012; desde 2017, hebraico e Antigo Testamento no STSC; e desde 2019, hebraico, grego e teologia contemporânea na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP). De 2020 a 2023 integrou o comitê da Biblica, antiga Sociedade Bíblica Internacional, que revisou a Nova Versão Internacional (NVI) em português a partir das línguas originais.
Depois do doutorado vieram dois comentários: Jonas: introdução, tradução e comentário (Reflexão, 2018) e Habacuque: introdução, tradução e comentário (Reflexão, 2020), ambos com tradução própria do texto massorético, notas técnicas e comentário versículo por versículo. Habacuque trata da pergunta que atravessa o livro do profeta, a relação de Deus com o sofrimento que parece injustificado, e discute a teodiceia, a defesa da justiça de Deus diante do mal.
Vailatti é pastor da Igreja Evangélica Jaboque, uma igreja independente no Jardim Independência, zona leste de São Paulo. Ficou conhecido também por responder perguntas bíblicas no programa Vejam Só!, da RIT TV, entre 2011 e 2016. Dois desses programas trataram da controvérsia sobre a salvação: “Os salvos são eleitos soberanamente, ou baseados na presciência?”, sobre 1 Pedro 1:1-2, em 2015, e “Jesus morreu por todos, ou apenas pelos eleitos?”, em 2016.
O encontro com Armínio
Por volta de 2008 ou 2009, ao preparar uma série de aulas de soteriologia, a doutrina da salvação, Vailatti leu pela primeira vez as Institutas de Calvino e as obras de Armínio na tradução inglesa. Concluiu que o pensamento de Armínio sobre a salvação estava muito mais perto das Escrituras do que o de Calvino. “Foi nesse momento que me percebi, de fato, arminiano”, contou em 2017 ao blog Esquina da Teologia Pentecostal.
A partir de 2015, a produção arminiana tomou corpo. Naquele ano saiu Expiação ilimitada (Reflexão), e o primeiro número do jornal O Wesleyano do Século XXI, de Maceió, trouxe o seu artigo “John Wesley: calvinista confuso ou arminiano convicto?”. Em 2016 vieram a tradução de Uma análise de Romanos 9 e os prefácios de Em favor do arminianismo wesleyano, de Vinicius Couto, e da edição brasileira de O único Deus sábio, de William Lane Craig. Em 2017 escreveu o capítulo “Sola fide: o conceito de justificação somente pela fé em Armínio e Wesley” no livro Igreja reformada sempre sendo reformada, organizado por Couto, e revisou a edição brasileira de Armínio e as suas declarações de sentimentos, de W. Stephen Gunter. Em 2019 prefaciou o Comentário de Romanos de Craig S. Keener, e em 2021 Expiação ilimitada ganhou nova edição na coleção Arminianismo da Reflexão. Em 2025, a Thomas Nelson Brasil publicou O cristão pode perder a salvação? Respostas calvinista e arminiana, em que Yago Martins responde pelo lado calvinista e Vailatti pelo arminiano.
Pensamento
Um arminiano clássico
Vailatti é arminiano clássico: declara-se arminiano, traduziu Armínio, escreveu sobre a justificação em Armínio e em John Wesley e defende em livro os pontos que separam a tradição remonstrante do calvinismo: expiação universal, eleição condicional, graça resistível e perseverança condicional. Na Análise de Romanos 9, o que mais o impressionou foi o tom de Armínio. A obra é uma longa carta, de 1593, ao pastor Gellius Snecanus, cheia de silogismos e de erudição, e termina com um poema em que Armínio se diz disposto a rever o que pensa se lhe mostrarem o erro. “Esse traço de Armínio é admirável!”, comentou o tradutor.
A fé, para ele, é dom de Deus. A diferença com o calvinismo está no modo como esse dom é dado: Vailatti rejeita a ideia de que Deus dá a fé “apenas a alguns indivíduos de forma incondicional” (entrevista de 2017). Num trecho de sermão sobre Elias que publicou com o título “Graça preveniente: Deus toma a iniciativa de vir ao nosso encontro”, ele resume o ponto de partida arminiano: a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, é Deus vindo primeiro. Com isso ele fica dentro da linha de Armínio e da Declaração de Sentimentos: a salvação começa em Deus, e a fé recebe o que a graça oferece.
Presciência e eleição
O ponto em que Vailatti mais trabalhou foi a presciência, o conhecimento que Deus tem do futuro. Com Romanos 8:29 e 1 Pedro 1:2, afirma que Deus conhece todos os eventos futuros e, para mostrar que isso não torna as escolhas humanas fatais, distingue duas ordens. Na ordem do tempo, a presciência vem antes dos acontecimentos; na ordem lógica, os acontecimentos vêm antes da presciência, porque Deus os conhece porque vão acontecer, e eles não acontecem porque Deus os conheceu. Ele cita Armínio: “uma coisa não acontece por ter sido conhecida previamente ou predita”. Por isso rejeita a acusação de que o arminianismo leva ao teísmo aberto, a doutrina de que Deus não conhece as decisões livres futuras. O arminianismo wesleyano clássico nunca a ensinou, lembra ele.
O mesmo interesse aparece num trabalho apresentado na USP em 2011 sobre Eclesiastes 3:1-15, o poema do “tempo para tudo”. Depois de expor como o Talmude, Rashi e Maimônides leram o texto, Vailatti conclui que “tanto o determinismo radical quanto o livre-arbítrio radical devem ser rejeitados”: o primeiro anula a liberdade humana, e o segundo fere os atributos de Deus. A soberania de Deus e a responsabilidade humana aparecem juntas na Bíblia Hebraica, e a tensão entre elas “não implica necessariamente contradição”.
O artigo dele sobre a eleição responde a uma objeção calvinista. Franklin Ferreira e Alan Myatt, na Teologia sistemática (2007), e Marcos Granconato, em Fundamentos da teologia do Novo Testamento (2014), usaram Mateus 11:20-24 contra a eleição condicional: se Jesus sabia que Tiro, Sidom e Sodoma teriam se arrependido diante dos seus milagres, por que Deus não lhes ofereceu salvação? Em “Mateus 11:20-24: um caso de conhecimento médio ou simplesmente uma figura de linguagem?” (2016), Vailatti aceita que Deus tenha conhecimento médio, isto é, conhecimento do que as pessoas fariam em outras circunstâncias, mas nega que o texto trate disso. Primeiro, o evangelho chegou, sim, a Tiro e Sidom: a mulher cananeia (Mateus 15:21-28), as multidões que vinham de lá (Marcos 3:8) e os discípulos que Paulo encontrou em Tiro (Atos 21:3-4). Depois, Mateus contrapõe de propósito o “gentio crente” ao “judeu incrédulo”, e Jesus fala com ironia e hipérbole, figuras de linguagem que exageram para chocar quem ouve. O argumento final vem do contexto imediato: logo depois, Jesus convida “todos os que estais cansados e oprimidos” (Mateus 11:28). Um Jesus que tivesse previsto a fé de três cidades e decidido não salvá-las, escreve Vailatti, “se parece muito pouco” com o Jesus que oferece descanso a todos.
Por quem Cristo morreu
Em Expiação ilimitada e nas respostas que publicou em 2016 às objeções de Granconato, Vailatti define o termo com cuidado. Expiação ilimitada quer dizer que Cristo, na cruz, fez provisão de salvação para toda a humanidade, e que essa provisão só é aplicada nos que creem. O alcance da cruz corresponde ao alcance do pecado: como “todos pecaram” (Romanos 3:23), Jesus provou a morte por todos (Hebreus 2:9) e é a propiciação “pelos pecados do mundo inteiro” (1 João 2:2). Que Deus saiba que só alguns crerão não o impede de ser generoso com todos. A consequência pastoral é direta: ninguém vai para o inferno por falta de provisão, mas por incredulidade, como Faraó, que recusou as oportunidades de arrependimento dadas ao longo das dez pragas.
Perseverança, dons e os que nunca ouviram
Sobre a perseverança, Vailatti defende a posição arminiana de que perseverar na fé é condição da salvação final e de que o crente que abandona a fé pode cair da graça, tese que sustenta em O cristão pode perder a salvação? (2025). É a mesma perseverança condicional da declaração de fé deste site, que trata a apostasia como abandono da fé, e a mesma linha de Robert Shank e de I. Howard Marshall.
Em pneumatologia, ele se define como “continuísta convicto”: todos os dons espirituais continuam. Chama-se carismático, e não pentecostal clássico, porque não crê que o falar em línguas seja a evidência necessária do batismo no Espírito Santo. Considera o cessacionismo sem base bíblica e critica, no outro extremo, a “demonomania” brasileira, a atenção exagerada e sem crítica aos demônios.
Há dois pontos em que ele avança além do que a declaração de fé do Diego formula. O primeiro é o destino de quem nunca ouviu o evangelho. Para Vailatti, com base em Romanos 1 e 2, quem nunca ouviu de Cristo é julgado pela revelação que recebeu, na criação e na consciência, e os que forem salvos “só o serão em razão da morte expiatória de Cristo” (entrevista de 2017). A declaração do site afirma que são salvos os que estão unidos a Cristo pela fé e não trata desse caso. O segundo é o mal natural: ele distingue o mal moral, que Deus permite, das calamidades, que Deus pode enviar como juízo. Nas duas questões, a base continua arminiana: Cristo morreu por todos, e Deus conhece o futuro sem determinar o pecado.
Obras principais
- Manual de demonologia (Fonte Editorial, 2011).
- Expiação ilimitada (Reflexão, 2015; nova edição na coleção Arminianismo, 2021).
- Jacó Armínio, Uma análise de Romanos 9, tradução e notas (Reflexão, 2016).
- As dez pragas e a abertura do mar (Reflexão, 2017).
- “Sola fide: o conceito de justificação somente pela fé em Armínio e Wesley”, em Vinicius Couto (org.), Igreja reformada sempre sendo reformada (Reflexão, 2017).
- Jonas: introdução, tradução e comentário (Reflexão, 2018).
- Habacuque: introdução, tradução e comentário (Reflexão, 2020).
- O cristão pode perder a salvação? Respostas calvinista e arminiana, com Yago Martins (Thomas Nelson Brasil, 2025).
Livros em português
- Expiação ilimitada (Reflexão, 2021). Ver na Amazon
- Jacó Armínio, Uma análise de Romanos 9, tradução e notas de Carlos Augusto Vailatti (Reflexão, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O cristão pode perder a salvação? Respostas calvinista e arminiana, com Yago Martins (Thomas Nelson Brasil, 2025). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Manual de demonologia (Fonte Editorial, 2011). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- As dez pragas e a abertura do mar (Reflexão, 2017). Ver na Amazon
- Jonas: introdução, tradução e comentário (Reflexão, 2018). Ver na Amazon
- Habacuque: introdução, tradução e comentário (Reflexão, 2020). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Everton Edvaldo, “Entrevista exclusiva com o pastor Carlos Augusto Vailatti”, Esquina da Teologia Pentecostal, 20 jul. 2017.
- “Carlos Augusto Vailatti”, resumo do currículo Lattes (formação, docência, publicações e participações na RIT TV), Escavador.
- Carlos Augusto Vailatti, Um olhar sobre o simbolismo mágico-religioso no livro de Êxodo, tese de doutorado, FFLCH-USP, 2016.
- Carlos Augusto Vailatti, “Mateus 11:20-24: um caso de conhecimento médio ou simplesmente uma figura de linguagem?” e “Respostas às objeções levantadas pelo Pr. Marcos Granconato à expiação ilimitada” (2016), no acervo arminianismopontocom do Internet Archive.
- Carlos Augusto Vailatti, “Qohélet 3.1-15 e a tensão entre o determinismo e o livre-arbítrio”, trabalho apresentado na USP, 2011.
- “Carlos Augusto Vailatti”, página do professor no Seminário Teológico Servo de Cristo.
- “Encontro apologético: uma análise de Romanos 9”, Projeto Crer, novembro de 2016.
- Editora Reflexão, fichas de Uma análise de Romanos 9, Expiação ilimitada, As dez pragas e a abertura do mar e Jonas.
- Thomas Nelson Brasil, O cristão pode perder a salvação? Respostas calvinista e arminiana, 2025.
- Patrícia Scott, “Palavra da verdade”, entrevista com Carlos Augusto Vailatti, revista Graça/Show da Fé, nº 268, nov. 2021.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens