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George Eldon Ladd: o pastor batista que ensinou os evangélicos a ler o Reino de Deus
Em 1986, o historiador Mark Noll fez uma pesquisa entre estudiosos evangélicos para saber quais obras mais os haviam influenciado. Segundo a Wikipédia em inglês, a Teologia do Novo Testamento, de George Eldon Ladd, ficou em segundo lugar, atrás apenas das Institutas de Calvino. Um pastor batista que passou boa parte da vida lutando por um lugar na academia terminou autor de um dos livros mais lidos entre os evangélicos de língua inglesa, e é essa história que vamos contar.
Vida
Ladd nasceu em 31 de julho de 1911, em Alberta, no Canadá, e foi criado na Nova Inglaterra, no nordeste dos Estados Unidos. Estudou no Gordon College e na Gordon Divinity School, em Massachusetts. Foi ordenado em 1933 na Convenção Batista do Norte, que hoje se chama Igrejas Batistas Americanas, e pastoreou igrejas em New Hampshire e em Vermont enquanto estudava.
Fez o doutorado na Universidade de Harvard, com uma tese sobre a escatologia da Didaquê, um escrito cristão muito antigo (escatologia é o estudo das últimas coisas, da volta de Cristo e do fim da história). As biografias que consultei situam a conclusão em 1949. Antes e depois disso, deu aulas no Gordon, de 1942 a 1950, e chefiou o departamento de Novo Testamento de 1946 a 1949.
Em 1950 mudou-se para a Califórnia e passou a ensinar no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, onde ficou até o fim da vida. O estudioso Donald Hagner o descreve como uma das figuras-chave na definição do rumo do seminário. Ladd morreu em Pasadena, em 5 de outubro de 1982, aos 71 anos. O historiador John D’Elia conta essa trajetória no livro A Place at the Table (Um lugar à mesa), cujo tema central é o desejo de Ladd de que a erudição evangélica fosse levada a sério nas universidades.
Pensamento
Classe: simpatizante, com uma ressalva. Não encontrei nenhuma declaração em que Ladd se chame de arminiano, e ele nunca escreveu uma teologia sistemática sobre a salvação. Os dois apoios para a classificação são estes. A Wikipédia em inglês afirma que ele não era reformado e que rejeitava a visão calvinista da doutrina da salvação. E, na Teologia do Novo Testamento, ele trata os avisos bíblicos sobre perseverar como advertências reais. Sobre Paulo, escreve que é difícil evitar a conclusão de que ele via a possibilidade de falhar em alcançar o alvo da vida cristã. Sobre a carta aos Hebreus, diz que o autor não está interessado nas perguntas do teólogo sistemático, como a de saber se aquelas pessoas eram salvas de verdade. Ladd, portanto, se aproxima da perseverança condicional (a ideia de que a fé que salva precisa continuar), mas não a defende como sistema. Por isso a classificação é cautelosa, e o leitor deve ler os textos dele com isso em mente.
Sobre a eleição, nos trechos que li, ele fala da igreja como a comunidade dos eleitos, criada por Deus com base no propósito gracioso dele, e não por mérito humano. Não encontrei ali uma defesa da eleição incondicional de indivíduos, e prefiro não atribuir a ele mais do que isso.
A contribuição que ficou foi outra: a teologia do Reino de Deus. Ladd ensinou que o Reino já chegou com Jesus, que vence Satanás e liberta as pessoas, e que ainda vai se manifestar de forma plena na volta dele. Esse “já e ainda não” é chamado de escatologia inaugurada (inaugurada porque começou, mas ainda não terminou). Ladd foi também um dos maiores defensores modernos do pré-milenismo histórico, a visão de que Cristo volta antes do milênio de Apocalipse 20, e criticou o dispensacionalismo, que separa de modo rígido Israel e a igreja.
Em relação à declaração de fé do Diego, há uma ponte e uma diferença. A ponte é a atenção aos textos que exortam o crente a permanecer em Cristo, como a perseverança condicional que a declaração afirma. A diferença está no milênio: o Diego é amilenista, e entende os mil anos como o tempo presente, enquanto Ladd era pré-milenista. Mesmo assim, a ideia de que Cristo já reina e de que o Reino ainda espera a consumação está bem próxima do que o amilenismo também afirma.
Para os temas em torno dele, vale ler Reino de Deus e Igreja: como os dois se relacionam, A Doutrina das Últimas Coisas, Parábolas do Reino em Mateus 13 e Arminianismo: A Segurança da Salvação. Entre as biografias da série, vale ver a de I. Howard Marshall e a de Ben Witherington III, também estudiosos do Novo Testamento, e a de William Lane Craig, outro simpatizante.
Obras principais
- Crucial Questions About the Kingdom of God (1952).
- The Blessed Hope (1956).
- The Gospel of the Kingdom (1959).
- Jesus and the Kingdom (1964), republicado como The Presence of the Future (1973).
- Rudolf Bultmann (1964).
- The New Testament and Criticism (1967).
- A Commentary on the Revelation of John (1972).
- A Theology of the New Testament (1974).
- I Believe in the Resurrection of Jesus (1975).
- The Last Things (1978).
- Edição revisada de A Theology of the New Testament, organizada por Donald A. Hagner (1993).
Livros em português
- Teologia do Novo Testamento (Hagnos, edição revisada por Donald A. Hagner). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O Evangelho do Reino (Shedd Publicações, 2008). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Apocalipse: introdução e comentário (Vida Nova, 1980, Série Cultura Bíblica). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- George Eldon Ladd, Wikipédia em inglês.
- Papers of George Eldon Ladd, Online Archive of California (acervo do Fuller).
- Apocalipse: introdução e comentário, Edições Vida Nova.
- Teologia do Novo Testamento, Google Livros (edição da Hagnos).
- John A. D’Elia, A Place at the Table: George Eldon Ladd and the Rehabilitation of Evangelical Scholarship in America (Oxford University Press).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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