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Phineas F. Bresee: o pastor metodista que fundou a Igreja do Nazareno

Diego Gonçalves13 min de leitura2.522 palavras

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Neste texto

Era inverno em Chariton, no sul de Iowa, e fazia perto de trinta graus negativos. Com o vento e a neve, pouca gente foi ao culto. O pastor metodista pregou como pôde, convidou os presentes para o altar e não veio ninguém. Então ele mesmo se jogou sobre o altar e começou a orar por si. Fazia dois anos que vivia atormentado por dúvidas sobre Deus, a expiação e o novo nascimento, e já não se via capaz de continuar pregando. Muitos anos depois, ditando as memórias a um amigo, ele contou que naquela noite Deus “pareceu abrir o céu” sobre ele. O pastor se chamava Phineas Franklin Bresee. Três décadas mais tarde, em Los Angeles, ele organizaria a Igreja do Nazareno.

Retrato de Phineas F. Bresee
Phineas F. Bresee, fotografia de autor desconhecido, por volta de 1900. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Uma loja de interior e um sermão só

Bresee nasceu em 31 de dezembro de 1838, numa casa de troncos perto de Franklin, no condado de Delaware, Nova York, segundo dos três filhos de Phineas Philips Bresee e Susan Brown, ambos metodistas. Cresceu na lavoura e na serraria do pai e estudou pouco: a escola rural e alguns meses de academia em Oneonta e em Franklin, onde aprendeu as primeiras regras de latim. Ainda adolescente, virou balconista de uma venda que o pai comprou em West Davenport.

Em fevereiro de 1856 o pastor do circuito passou pela loja e falou com ele sobre a alma. Bresee foi ao altar naquela noite e, no domingo, numa reunião de classe, os pequenos grupos de partilha do metodismo, sentiu a paz de Deus. Antes de a família se mudar para o Oeste, pregou o primeiro sermão, sobre Salmos 124:7. Pôs nele tudo o que sabia, da criação ao juízo final, e terminou em vinte minutos. “Cheguei a Iowa com um sermão”, contava.

Os circuitos de Iowa

Em 1857 a família foi para a pradaria de Iowa. O superintendente do distrito ouviu o rapaz pregar e o fez licenciar, e Bresee começou como pregador auxiliar no circuito de Marengo; depois passou por Pella, a cidade dos imigrantes holandeses. Foi ordenado diácono pelo bispo Matthew Simpson em 1859 e presbítero pelo bispo Levi Scott em 1861. No fim de 1860 casou-se com Maria E. Hibbard, de uma família metodista de Davenport.

Os primeiros anos foram de aperto. Em Grinnell, com a Guerra Civil e o dinheiro desvalorizado, o casal viveu um ano com um saco de farinha. Mandado depois para um circuito sem igreja nem casa pastoral, em Galesburg, decidiu que ali “a coisa havia de andar”, fez reuniões de outubro até a primavera e recebeu 140 pessoas na igreja. Em 1864 assumiu o distrito de Winterset, sete condados percorridos de charrete. Numa dessas viagens, em 1865, morreu a filha Lily, com quinze meses.

A noite de Chariton

Foi como superintendente que a dúvida tomou conta dele. Bresee pensou que o problema fosse intelectual e tentou responder sozinho às grandes perguntas sobre Deus, o pecado e a expiação. Contava que montou e remontou o edifício da fé umas mil vezes e que, mal terminava de dizer a si mesmo que tudo era verdade, vinha a pergunta: “e se não for?”.

No outono de 1866 foi nomeado para Chariton, uma igreja com dinheiro e bastante mundanismo, onde dizia manter um quarto da congregação zangado o tempo todo, mas não sempre o mesmo quarto. Foi ali, no inverno, a cena do altar. Bresee interpretou a experiência como o batismo com o Espírito Santo, “embora eu não soubesse o que precisava nem o que pedia”. Ela levou embora a inclinação à ira, ao orgulho e ao mundanismo, e levou também a dúvida. Ele concluiu que a dúvida tinha raiz moral, e não intelectual: era parte da natureza carnal. Sobre aquela temporada, resumiu com humor que ninguém foi santificado em Chariton além dele, “e eu não sabia nada sobre isso”.

Negócios, ruína e mudança para o Oeste

Seguiram-se Wesley Chapel, em Des Moines, Council Bluffs, Red Oak, Clarinda e Creston, e em 1872 Bresee foi delegado à Conferência Geral metodista. Nesse tempo aplicou o que tinha em minas mexicanas, com o amigo Joseph Knotts, ex-pastor. Uma explosão abriu um rio subterrâneo na mina Prieta, em Parral, e o investimento se perdeu numa hora. Arruinado, Bresee decidiu nunca mais tentar enriquecer e pediu transferência para longe.

Em agosto de 1883, com mil dólares emprestados por Knotts, levou para Los Angeles a esposa, seis filhos, os pais e um sobrinho. Foi nomeado pastor da Primeira Igreja Metodista Episcopal, na Fort Street, a mais forte de uma cidade de vinte mil habitantes.

Los Angeles e Pasadena

Ali encontrou, pela primeira vez, um grupo de membros que professava a inteira santificação. Depois de uma série de reuniões dos evangelistas de santidade MacDonald e Watson, começou a buscar com urgência a experiência que pregava. Numa noite, orando junto à porta aberta da casa pastoral, teve a impressão de uma bola de luz que descia do céu e lhe queimava os lábios; contou que daí em diante entrou no seu ministério “um novo elemento de vida espiritual e de poder”. Em Pasadena, a partir de 1886, pregava na esquina para os operários das obras e marchava com eles para a igreja, que precisou de um tabernáculo de dois mil lugares.

Em 1890 assumiu a igreja Asbury e logo o distrito de Los Angeles, que transformou numa campanha de santidade. Em 1892 o bispo John H. Vincent, que desconfiava do movimento, presidiu a conferência e, nas palavras de Bresee, parecia ter como missão principal trocar o superintendente; Bresee deixou o distrito. Nesses anos ele integrava a junta da Universidade do Sul da Califórnia, onde fez amizade com o médico Joseph P. Widney, que presidiu a universidade.

A Missão Peniel e a Igreja do Nazareno

Bresee queria um centro no coração da cidade onde se pregasse aos pobres. Em 1894 aceitou dirigir a Missão Peniel, obra interdenominacional de Theodore e Manie Ferguson. A conferência não o deixou continuar como ministro metodista sem nomeação, e ele pediu o desligamento depois de 37 anos. Passou a noite em lágrimas; de manhã leu Isaías 66:5, sobre os irmãos que expulsam e o Senhor que aparece para alegria dos expulsos. A parceria com a Peniel acabou no ano seguinte.

Em 6 de outubro de 1895, Bresee pregou num salão alugado na South Main Street sobre Jeremias 6:16, a passagem dos caminhos antigos. Widney sugeriu o nome, e em 20 de outubro foi organizada a Igreja do Nazareno, com 135 membros fundadores. Os artigos de fé descreviam a missão “nos bairros esquecidos das cidades”, com visitas de casa em casa e cuidado dos pobres e dos que morriam. A igreja ergueu um tabernáculo de tábuas, com jeito de celeiro, e Bresee o preferia a qualquer templo de mármore: “queremos lugares tão simples que cada tábua diga bem-vindo ao mais pobre” (The Nazarene, 3 de julho de 1899).

Em agosto de 1900 a charrete de Bresee foi atingida por um bonde elétrico. Uma passageira morreu, e ele ficou dias inconsciente e saiu da convalescença com o cabelo branco. Mesmo assim dirigiu o jornal da igreja de 1898 a 1912 (The Nazarene, depois Nazarene Messenger) e, em 1902, assumiu a presidência do Pacific Bible College, criado por um grupo ligado à igreja, e recusou que a escola levasse o nome dele. A escola foi para Pasadena em 1910 e hoje é a Point Loma Nazarene University, em San Diego.

Em outubro de 1907, em Chicago, a Igreja do Nazareno se uniu à Associação das Igrejas Pentecostais da América, do Leste, com Bresee e Hiram F. Reynolds como superintendentes gerais. Em 13 de outubro de 1908, em Pilot Point, no Texas, entrou a Igreja de Santidade de Cristo, do Sul, por votação unânime. A palavra “pentecostal” saiu do nome em 1919, quando já designava outro movimento. Bresee foi superintendente geral até a morte, em Los Angeles, em 13 de novembro de 1915. Dias antes, reuniu os filhos e orou por cada um pelo nome.

Pensamento

Bresee é wesleyano. Foi ministro metodista episcopal por 37 anos, e na sua biblioteca estavam Wesley, John Fletcher e Richard Watson. Os artigos de fé de 1895, aprovados sob a sua direção, afirmam que o ser humano nasce com natureza caída, “inclinada ao mal, e isso continuamente”, que a expiação de Cristo é universal e que todo aquele que ouve a palavra, se arrepende e crê é salvo da condenação e do domínio do pecado. É o arminianismo de John Wesley, com a ênfase do movimento de santidade.

A graça faz o cristão

O pensamento de Bresee está nos sermões. Num sermão sobre o Pentecostes, em Sermons from Matthew’s Gospel, ele diz que os homens “são feitos cristãos somente pela obra do Espírito Santo” e que nenhum esforço ou devoção da pessoa a torna cristã. Arrependimento, fé e consagração servem para pôr a pessoa “nas mãos de Deus”, para que o Espírito faça a obra. Em outro sermão ele descreve a ordem dessa obra: o Espírito desperta o pecador, lança sobre ele a luz da verdade, amolece o coração, ajuda a vontade a se render a Deus e então dá a vida nova. E cita Romanos 5:18, o “dom gratuito” que veio “sobre todos os homens”.

Esse é o desenho da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todos e liberta a vontade para crer, sem forçá-la. Bresee não usa o termo técnico, mas a sequência é a de Wesley: a iniciativa é toda do Espírito, a oferta é para todos, e a fé recebe o que Cristo fez. Para o pano de fundo, leia a introdução à soteriologia arminiana e Arminianismo: expiação para todos.

A segunda obra da graça

O tema da vida de Bresee foi a inteira santificação, que os artigos de 1895 chamam de obra posterior à justificação, recebida “pela fé no Senhor Jesus Cristo”: na conversão Deus perdoa e dá vida nova; na inteira santificação purifica o coração do pecado de origem, a natureza carnal. Bresee explicava isso com a eira de Mateus 3:12. Na conversão, a palha da carnalidade se solta do grão, mas continua no monte; depois de uma consagração completa, o vento do céu leva a casca embora, e o trigo fica limpo. Ele chamava essa purificação de batismo com o Espírito Santo, a linguagem que Phoebe Palmer e os pregadores de santidade tinham espalhado.

A experiência de Chariton virou ensino pastoral. Num sermão sobre os puros de coração, Bresee diz aos jovens convertidos que encontrar em si ira, orgulho ou dúvida não é sinal de que caíram da graça, mas da carnalidade que ainda resta. A incredulidade, escreve ele, “não é uma questão de intelecto, mas uma impureza do coração”, e o remédio é a obra de Deus que purifica o coração, e não um argumento a mais.

Uma igreja para os pobres

A segunda marca de Bresee é a ideia de igreja. Ele insistia que a santidade devia ter sempre a preferência, na doutrina, no governo e no culto, e queria uma igreja para os pobres, com templos simples e o dinheiro aplicado em alimentar, vestir e evangelizar. Com o tempo, concluiu que a melhor forma de servir aos pobres da cidade era formar igrejas fortes, de famílias inteiras, mais do que missões de socorro. No governo, combinou superintendentes com direitos das congregações locais, modelo que a denominação unida adotou.

Ele também se opunha ao fanatismo. No relatório de 1904, disse que quem procura um movimento novo para promover ideias próprias desce “na primeira estação” ao encontrar ali só o velho evangelho. Diante do avivamento da rua Azusa, em 1906, entendia que o povo de santidade já tinha sido batizado com o Espírito e comparou a influência do movimento a “uma pedrinha jogada no mar”.

Diferenças e legado

A nossa declaração de fé caminha com Bresee na depravação total, na expiação universal, na graça que precede a resposta humana e na inteira santificação como obra da graça, posterior à regeneração, recebida pela fé, que purifica o coração. A diferença está no vocabulário: a declaração não chama essa obra de “batismo com o Espírito Santo”, e Bresee às vezes falava como se o cristão só ficasse completo depois dela.

Bresee ordenou H. Orton Wiley presbítero em 1906 e o chamou, em 1910, para a escola de Pasadena. Aaron Merritt Hills escreveu um esboço da vida dele, e Carl Bangs, irmão de Mildred Wynkoop e filho de fundadores da igreja nazarena de Seattle que conheceram Bresee, publicou a biografia dele em 1995. C. E. Cornell, pastor de Bresee nos últimos anos, chamou-o de “o John Wesley do movimento de santidade moderno”.

Obras principais

  • Sermons (Los Angeles, 1903).
  • The Nazarene, depois Nazarene Messenger, jornal semanal que ele dirigiu de 1898 a 1912.
  • Sermons on Isaiah (1926, póstumo), vinte sermões.
  • Emmanuel (1927, póstumo), dois sermões.
  • Soul Food for Today (1929, póstumo), leituras diárias organizadas por C. J. Kinne.
  • Sermons from Matthew’s Gospel (Nazarene Publishing House, póstumo).
  • Sayings of Our Founder (1948), compilação de Ward B. Chandler.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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