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Jennie Fowler Willing: A pregadora metodista que via na fraqueza o lugar do poder de Deus

Diego Gonçalves13 min de leitura2.564 palavras

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Neste texto

Numa fábrica de relógios do século XIX, as pedras preciosas que servem de eixo às engrenagens eram cortadas por uma serra de lata. O metal era mole e barato, mas a borda vinha carregada de pó de diamante. Jennie Fowler Willing abriu com essa imagem o livro Diamond Dust (1880): o diamante não trabalha sozinho, precisa de um agente mais fraco, e talvez a lata segure o pó com mais força justamente por ser fraca. Ela sabia do que falava. A menina que caiu num poço aos dois anos e meio, mal frequentou a escola e tinha pavor de multidões tornou-se professora universitária, pregadora licenciada, organizadora de sociedades missionárias e a mulher que presidiu a convenção de onde nasceu a União Cristã Feminina de Temperança.

Retrato de Jennie Fowler Willing
Retrato de Jennie Fowler Willing, fotógrafo não identificado, anterior a 1916, publicado na Standard Encyclopedia of the Alcohol Problem (1930). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância no Canadá e no Illinois

Mary Eliza Jennie Fowler nasceu em 22 de janeiro de 1834, em Burford, no Alto Canadá, a atual província de Ontário. Era filha de Horatio Fowler e Harriet Ryan Fowler. O pai, um dos “patriotas” que tentaram tornar o Canadá independente, perdeu tudo na aventura e levou a família para os Estados Unidos; no começo da década de 1840 os Fowler se fixaram em Newark, no Illinois. Um dos irmãos mais novos de Jennie era Charles Henry Fowler, futuro bispo da Igreja Metodista Episcopal.

Aos dois anos e meio ela caiu num poço da propriedade da família e bateu a cabeça na parede. A lesão nos nervos deixou uma saúde frágil para a vida inteira e, a partir dos nove anos, a afastou da escola. A mãe, leitora assídua, a estimulava a aprender sozinha, e aos quinze anos Jennie já dava aulas na escola do lugar e, aos dezesseis, escrevia para jornais.

Ela cresceu numa casa sem oração. Uma irmã catorze anos mais velha voltou convertida de uma reunião de avivamento e orou com a caçula, então com cinco anos; já adulta, Jennie achava que tinha se convertido naquele dia. A irmã morreu quando ela tinha oito anos, e a menina continuou orando escondida. Aos onze entrou para a igreja e deixou a dança e o baralho; aos quinze, os romances.

O avivamento de 1853 e o casamento

Aos dezenove anos, durante um avivamento na igreja congregacional de que era membro, toda a família se converteu. Jennie tinha medo do verão: todos lhe diziam que, terminados os cultos especiais, era natural esfriar, e ela temia que os irmãos recém-convertidos voltassem à vida antiga. Ajoelhou-se “como uma criancinha cansada” e pediu a Cristo que a firmasse na graça, de modo que fosse tão fiel no verão quanto no inverno. Descreveu a mudança como a passagem da meia-noite para o meio-dia. Quando uma amiga sugeriu que aquilo podia ser a santificação, ela ficou horrorizada com a palavra.

Foi no coro dessa igreja que William Cosgrove Willing a viu pela primeira vez. Nascido em 1829 em Mayville, no estado de Nova York, ele dava aulas e estudava direito. Na primavera de 1853, perto de começar a advogar, sentiu com clareza o chamado para pregar. A biografia que Jennie escreveu dele registra o peso da decisão: se pregasse, teria de pregar a doutrina arminiana, porque não podia ser calvinista, e isso o separaria de todos os parentes, nenhum deles metodista. A mãe, presbiteriana, respondeu: “Não importa, Will, contanto que você seja fiel a Deus”.

No outono de 1853 William foi admitido na Conferência de Genesee, no oeste de Nova York, e nomeado para Centerville. Voltou ao Illinois, casou-se com Jennie, então com dezenove anos, e os dois começaram a vida de pastores itinerantes com um salário de duzentos dólares por ano. Não tiveram filhos.

Dez anos no deserto

Menos de um ano depois do casamento, Jennie conviveu com um grupo que professava a perfeição cristã e vivia de criticar os outros. O ressentimento contra eles, escreveu, entristeceu o Espírito Santo, e ela perdeu o descanso de alma que recebera aos dezenove anos. Cansado da briga sobre a santidade cristã que dividia a Conferência de Genesee e daria origem à Igreja Metodista Livre, William foi transferido em 1860 para a Conferência de Rock River, no Illinois, onde seria pastor e presbítero presidente de distrito até 1889.

Para Jennie seguiram-se dez anos de jejuns, noites de oração e lágrimas, sem paz. O erro, concluiu depois, era exigir de novo as mesmas emoções da juventude antes de crer que a oração tinha sido ouvida. Nesse período fez também uma segunda entrega, que costumava contar: numa tarde, o Espírito lhe mostrou, escondida como a cunha de ouro na tenda de Acã (Josué 7:21), a determinação de estudar e fazer de si mesma alguém importante. Ela renunciou a isso com tanta dor que lhe pareceu ter uma faca no coração. Aos 28 anos pediu a Deus que a ajudasse a estudar para servir melhor à igreja e adotou um método simples: quinze minutos de estudo por dia, porque os olhos não aguentavam mais, com a regra de repor qualquer dia perdido. Assim aprendeu alemão sozinha. Seu lema era plus ultra, “mais além”.

As sociedades missionárias e o púlpito

No distrito de Rockford, William levou para almoçar em casa o casal Parker, missionários metodistas na Índia. A senhora Parker falou da Sociedade Missionária Feminina Estrangeira, que as metodistas de Boston estavam formando em 1869. Jennie se ofereceu para organizar grupos no distrito e, dias depois, soube que tinha sido escolhida uma das três secretárias correspondentes da nova sociedade, encarregada de todo o território entre o Ohio e o Pacífico. Tímida, perguntava ao marido, mês após mês, se devia viajar de novo, e ele respondia: “Sim, por amor de Cristo”. Foi secretária correspondente do Ramo Noroeste por quinze anos.

Em 1873 ela se tornou professora de língua e literatura inglesa na Universidade Wesleyana de Illinois, onde William ensinava direito. No mesmo período, quando ele era presbítero presidente do distrito de Joliet, a conferência trimestral local a recomendou para a licença de pregadora local. O marido a examinou com os outros candidatos, e ela respondeu que se cria chamada por Deus para pregar. Mais tarde, no distrito de Chicago, ele lhe entregou uma igreja de missão, que cresceu mais do que as outras. Em 1880 a Igreja Metodista Episcopal cassou as licenças de pregação concedidas a mulheres.

A temperança

Em 1874 Jennie liderou em Bloomington uma campanha por leis mais duras de licença para a venda de bebida e presidiu a União Feminina de Temperança do Estado de Illinois. Em agosto, em Chautauqua, ela e Emily Huntington Miller foram encarregadas de convocar uma convenção nacional. A convenção se reuniu em Cleveland, de 18 a 20 de novembro de 1874, e foi Jennie quem a abriu e presidiu. Dela nasceu a União Cristã Feminina de Temperança, que depois teria como presidente Frances Willard. Jennie editou o primeiro jornal da União, Our Union, e foi sua vice-presidente.

De 1886 a 1890 foi secretária do Departamento de Obra Espanhola da Sociedade Missionária Feminina Doméstica e supervisionou o trabalho da sociedade no Novo México e no Arizona. Pela McDonald & Gill, editora do jornal de santidade Christian Witness, publicou From Fifteen to Twenty-five (1885), para rapazes, e The Potential Woman (1886), para moças, com o elogio de Daniel Steele: nenhum livro escrito para rapazes tinha tanto bom senso “por polegada quadrada”, com exceção do livro de Provérbios.

Nova York

Em 1889 o casal se mudou para Nova York, onde William foi pastor em Manhattan e, já doente, em Griffin’s Corners, nas montanhas Catskill. Jennie dirigiu uma missão entre italianos e um escritório de apoio a imigrantes, com casas para moças em Nova York, Boston e Filadélfia. William morreu em 11 de dezembro de 1894, em Margaretville, e foi sepultado no cemitério de Green-Wood. Em 1895 ela publicou a biografia dele, A Prince of the Realm, e fundou a New York Evangelistic Training School, no meio das moradias de milhares de operárias.

A escola formava homens e mulheres para a evangelização urbana com estudo da Bíblia e trabalho prático: cada aluno fazia uma hora diária de visitação no bairro, ensinava na escola dominical e pregava. As palestras noturnas de Jennie foram reunidas no livro How to Win Souls, com introdução do bispo Willard F. Mallalieu. Depois vieram On American Soil (1906), The Lure of Korea e God’s Great Women; ao todo, dezessete livros e cerca de duzentos artigos.

Jennie Fowler Willing morreu em Nova York em 6 de outubro de 1916, aos 82 anos. Ainda presidia a União de Temperança da cidade e organizava o trabalho no estado. Deixou metade dos bens para a escola de evangelistas e metade para a União.

Pensamento

Jennie Willing pertence à tradição wesleyana, no ramo do movimento de santidade dentro do metodismo episcopal. Saída de uma igreja congregacional, de herança calvinista, ela aprendeu, como escreveu, “a fraseologia wesleyana” para descrever a sua experiência, contada em Forty Witnesses (1888), coletânea organizada por S. Olin Garrison.

A graça vem antes

Para ela, o primeiro passo de quem quer servir a Deus é entender a própria fraqueza, que chamou de “a chave da posição”, com base nas palavras de Jesus: “sem mim nada podeis fazer” (João 15:5). Quando trata da consagração, ela atribui ao Espírito Santo até o desejo de se entregar: é o Espírito, escreveu, a quem devemos “até o desejo de estar inteiramente sob o seu controle” (Diamond Dust, 1880).

O mesmo vale para a conversão. Em From Fifteen to Twenty-five (1885) ela convida o rapaz que ainda não conhece Cristo a pedir ao Espírito que lhe mostre como ir a ele, e lembra que Jesus não disse “o que vier com fervor, amor e fé suficientes”, nem “o que se humilhar para cumprir este ou aquele dever”, mas “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). É obra de Cristo, conclui, fazer de nós o que ele quer. Essa é a ordem do arminianismo clássico: a graça vem antes, chama e capacita, e a pessoa responde pela fé, sem mérito.

A inteira santificação pela fé

A experiência central da teologia dela é a inteira santificação, que a tradição wesleyana entende como uma obra da graça posterior à conversão, recebida pela fé, na qual Deus purifica o coração e o enche de amor perfeito. Jennie já era filha de Deus antes dela; buscava o coração limpo que John Wesley e John Fletcher chamavam de perfeição cristã.

Ela descreveu passo a passo a saída dos dez anos de deserto. Primeiro, as emoções foram “excluídas do tribunal” como testemunhas pouco confiáveis do estado da alma. Depois veio o limite da consagração: Deus nos ama demais para exigir o impossível, e por isso “o limite do nosso conhecimento deve ser o limite da responsabilidade”. A oração que fez foi: “Ó Senhor, eu te dou tudo o que sei dar, tão bem quanto sei”. Restavam consagração completa e confiança completa, apoiadas em 1 João 5:14-15: se pedimos segundo a vontade de Deus, ele nos ouve, e temos o que pedimos. Como era vontade de Deus purificá-la, ela creu que ele a purificava, sem esperar sentir nada. A regra que citou para isso foi a de Efésios 2:8: “pela graça sois salvos, por meio da fé”. É a mesma linha de Phoebe Palmer: crer na promessa em vez de esperar sentimentos.

A história dela também mostra a ideia wesleyana de que a graça recebida pode ser perdida e recuperada. Depois de recuperá-la, sempre que caía ou duvidava, ela voltava ao mesmo “processo” de consagração e fé. Em artigos para o Guide to Holiness ela descreveu o “revestimento de poder” como o Espírito Santo que enche a alma do seu próprio amor, e ligou a santidade ao serviço. A santificação, para ela, terminava em missão.

Mulheres no serviço de Deus

Daí vinha a defesa do ministério feminino. Em Diamond Dust ela lê Gálatas 3:28 como o resumo da convicção de Paulo e escreve que, quando a igreja cortar “o verniz e o preconceito” até o centro desse versículo, poderemos esperar o milênio. Para ela toda mulher, solteira ou casada, era missionária, a começar pelo lar. William pensava o mesmo: via a sujeição das mulheres como uma concessão temporária à dureza do coração, como a escravidão, e o Pentecostes como o começo da sua libertação (Atos 2:17-18).

Num ponto de linguagem o site fala de outro modo. Em A Prince of the Realm, na conversa que levou William à experiência da santidade, aparece a frase “quando você faz a sua parte, Deus faz a dele”, que a declaração de fé do site evita, porque sugere que a consagração humana pesa na balança. Mas a própria Jennie põe o desejo de consagração na conta do Espírito, e a declaração descreve a inteira santificação como ela a viveu: obra da graça, posterior à regeneração, recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito sem eliminar as fraquezas.

Obras principais

  • Diamond Dust (1880)
  • From Fifteen to Twenty-five: A Book for Young Men (1885)
  • The Potential Woman: A Book for Young Ladies (1886)
  • A Dozen Be’s for Boys (1888)
  • Testemunho em Forty Witnesses, org. S. Olin Garrison (1888)
  • A Prince of the Realm: Lessons from the Life of Rev. W. C. Willing (1895)
  • On American Soil (1906)
  • The Lure of Korea (Sociedade Missionária Feminina Estrangeira, por volta de 1910)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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