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Richard Allen: o ex-escravo que fundou a Igreja Metodista Episcopal Africana
Num domingo de manhã, na igreja metodista de St. George, em Filadélfia, os membros negros subiram para a galeria nova, que tinham ajudado a pagar, e se ajoelharam quando o pregador disse “oremos”. Um dos administradores agarrou Absalom Jones e tentou erguê-lo à força: “Levante-se, você não pode ajoelhar aqui”. Jones pediu que esperasse o fim da oração. Quando a oração acabou, todos os negros saíram juntos, e Richard Allen escreveu, anos depois, que a igreja “não foi mais incomodada” por eles. Daquela saída nasceu, três décadas mais tarde, a primeira denominação protestante dirigida por negros nos Estados Unidos, a Igreja Metodista Episcopal Africana. Allen foi o seu primeiro bispo.
Vida
Escravo em Delaware
Allen nasceu em 14 de fevereiro de 1760, escravo de Benjamin Chew, advogado de Filadélfia e procurador-geral da Pensilvânia. Ainda criança foi vendido com a família para Stokeley Sturgis, fazendeiro perto de Dover, em Delaware, a quem descreveu como “o que o mundo chamava de um bom senhor”. Mesmo assim, apertado por dívidas, Sturgis vendeu a mãe de Allen e três dos filhos. “A escravidão é uma pílula amarga”, escreveu Allen, “apesar de termos um bom senhor”.
Por volta dos 17 anos ele se converteu entre os metodistas de Delaware. Viu-se “pobre, miserável e perdido”, alcançou “misericórdia pelo sangue de Cristo” e depois passou dias de dúvida, achando que não havia perdão para ele, até uma noite de oração: “de repente a minha masmorra tremeu, as minhas correntes caíram e, glória a Deus, eu clamei. […] Basta para mim: o Salvador morreu”. Daí em diante teve certeza de que Deus, “por amor de Cristo”, tinha perdoado os seus pecados, e saiu de casa em casa contando aos antigos companheiros o que tinha encontrado. Por anos frequentou a classe metodista de John Gray.
Os vizinhos diziam que a religião ia arruinar os escravos de Sturgis. Allen e o irmão passaram a trabalhar com mais cuidado, para que ninguém dissesse que a fé os tinha feito piores, e Sturgis acabou abrindo a casa aos pregadores metodistas. Num desses cultos, Freeborn Garrettson, que já tinha libertado os próprios escravos, pregou sobre Daniel 5:27, “pesado foste na balança e foste achado em falta”, e pôs os senhores de escravos entre os reprovados. Sturgis se reconheceu ali e propôs aos dois irmãos que comprassem a liberdade por sessenta libras em ouro e prata.
O pregador que andava a pé
O acordo veio por volta de 1780, e em 1783 Allen já era livre, com o sobrenome que escolheu para si. Para pagar a dívida, cortou lenha até as mãos ficarem feridas, trabalhou numa olaria e, durante a guerra da independência, conduziu carroças de sal, com pontos de pregação marcados ao longo da estrada. Às vezes, contou, acordava “pregando e orando”.
Em setembro de 1783 deixou Delaware. Pregou em Nova Jersey, onde teve como pai na fé Benjamin Abbott, a quem chamou de “grande e bom apóstolo”, e seguiu a pé para a Pensilvânia até os pés se encherem de bolhas. Em Radnor, perto de Filadélfia, pregou semanas a uma congregação quase toda branca, e alguns diziam nunca ter ouvido pregação igual.
Em dezembro de 1784 esteve em Baltimore na Conferência de Natal, que organizou a Igreja Metodista Episcopal. Ele e Harry Hosier foram os dois pregadores negros presentes, sem direito a voto. Em 1785 Francis Asbury o convidou para viajar com ele, com uma condição: nas Carolinas e nos outros estados escravistas, Allen não se misturaria com os escravos e dormiria muitas vezes na carruagem, recebendo só comida e roupa. Allen recusou e perguntou quem o sustentaria se ficasse doente. O bispo branco seria cuidado onde caísse; ele duvidava que o mesmo valesse para si.
Filadélfia, St. George e Bethel
Em fevereiro de 1786 os metodistas de Filadélfia o chamaram para pregar às cinco da manhã na igreja de St. George. Pensou em ficar duas semanas e ficou o resto da vida. Pregava nos campos públicos e nos subúrbios da cidade, às vezes cinco vezes por dia, e reuniu naquele ano uma sociedade de 42 membros negros. Em 1787 ele e Absalom Jones fundaram a Sociedade Africana Livre, que socorria doentes, viúvas e órfãos.
Depois do episódio da galeria, os negros alugaram uma sala e começaram a recolher dinheiro para uma igreja própria. O presbítero John McClaskey ameaçou excluí-los da sociedade metodista, e eles responderam: “se vocês nos negam o seu nome, não podem selar as Escrituras para nós nem nos negar um nome no céu. Cremos que o céu é livre para todos os que adoram em espírito e em verdade”. O médico Benjamin Rush e o comerciante Robert Ralston apoiaram a campanha.
A maioria do grupo votou por ligar a nova igreja à Igreja Episcopal, e ela se tornou a Igreja Episcopal Africana de St. Thomas, com Jones como pastor. Convidado em 1793 a ser o ministro dela, Allen recusou: “eu não podia ser outra coisa senão metodista, porque nasci e fui despertado entre eles”. Os metodistas, explicou, foram “o primeiro povo que trouxe boas novas aos negros”, e “o evangelho claro e simples serve melhor a qualquer povo, porque os iletrados podem entendê-lo”.
No mesmo ano a febre amarela atingiu Filadélfia. Allen e Jones atenderam ao pedido publicado nos jornais, “confiando naquele que pode preservar no meio de uma fornalha ardente”. Organizaram enfermeiros e cerca de quinhentos homens para enterrar os mortos e cuidaram de doentes que ninguém mais visitava. Quando o editor Mathew Carey acusou os enfermeiros negros de explorar a cidade, os dois publicaram em 1794 um relato com as contas do trabalho, que tinha terminado em prejuízo, e com o atestado do prefeito Matthew Clarkson elogiando a sua “diligência, atenção e decência”.
Allen comprou a armação de uma antiga ferraria, levou-a para um terreno seu na rua Sexta e a reformou. Em 1794 Asbury pregou na abertura, e o pregador John Dickins orou para que a casa fosse um “Betel” (Gênesis 28). O nome ficou: Bethel. Em 1799 Asbury ordenou Allen diácono, o primeiro negro ordenado na Igreja Metodista Episcopal. A congregação chegou a 1.272 membros em 1813.
A luta pela igreja
O prédio custou outros vinte anos de luta. Um presbítero redigiu o estatuto de Bethel e, sem que a congregação percebesse, pôs a propriedade nas mãos da conferência branca. Em 1807 Bethel aprovou o “Suplemento Africano”, que devolvia aos membros o controle do prédio e da disciplina. Os presbíteros de St. George passaram a cobrar caro pelas poucas pregações que faziam ali e ameaçaram expulsar qualquer pregador local que a servisse. Robert Roberts tentou tomar o púlpito e encontrou outro pregador já instalado. Seu sucessor, Robert Birch, levou o caso ao Supremo Tribunal da Pensilvânia, que em 1816 decidiu a favor da congregação.
Em abril de 1816 Allen reuniu em Filadélfia delegados de Baltimore, Wilmington, Attleborough e Salem, congregações negras que sofriam o mesmo. Decidiram formar “um só corpo, sob o nome de Igreja Metodista Episcopal Africana”. Em 9 de abril elegeram bispo Daniel Coker, de Baltimore, que recusou no dia seguinte; Allen foi escolhido e consagrado em 11 de abril de 1816, onze dias depois da morte de Asbury. Em 1817 saiu a primeira Disciplina da nova igreja, assinada por Allen, Coker e James Champion.
Bispo, pastor e abolicionista
Allen foi pastor de Bethel e bispo até o fim da vida. Prometeram-lhe 500 dólares por ano; em toda a vida recebeu 80, e emprestou milhares à igreja. Sustentava-se como sapateiro e comerciante de calçados. Casou-se em 1790 com Flora, que morreu em 1801, e depois com Sarah Bass, com quem teve seis filhos.
A casa dele abrigava fugitivos da escravidão. Em 1799 assinou a petição de Jones ao Congresso contra o tráfico e a escravidão, e em 29 de dezembro pregou em Bethel um elogio fúnebre de George Washington que destacava a libertação dos escravos no testamento do presidente. Em 1806 um caçador de escravos tentou levá-lo como fugitivo, e Allen o processou. A Disciplina de 1817 proibia receber como membro quem tivesse escravos.
Quando a Sociedade Americana de Colonização propôs, em 1817, mandar os negros livres para a África, cerca de três mil negros de Filadélfia a rejeitaram, e Allen passou a combatê-la. Em 1827 escreveu ao Freedom’s Journal, o primeiro jornal negro do país, que a terra regada com as lágrimas e o sangue deles “é agora a nossa pátria”.
Como bispo, ele também reconheceu o chamado de Jarena Lee. Anos antes tinha dito a ela que a disciplina metodista não previa mulheres pregadoras. Num culto em Bethel, quando o pregador perdeu o fio do sermão sobre Jonas 2:9, Jarena se levantou e exortou sobre o mesmo texto; Allen se levantou em seguida e disse crer que ela era chamada para aquela obra tanto quanto qualquer pregador presente. A história dela está em Jarena Lee: a pregadora que viu todos os pecados varridos.
Em setembro de 1830 Allen presidiu em Bethel a primeira convenção nacional de negros livres. Morreu em 26 de março de 1831, em sua casa em Filadélfia, e está sepultado no subsolo de Mother Bethel, ao lado de Sarah.
Pensamento
Richard Allen é um wesleyano. Converteu-se, foi formado e pregou na Igreja Metodista Episcopal, e quando saiu dela levou a doutrina consigo: a ruptura de 1816 foi sobre governo e dignidade, e não sobre a fé. A Disciplina de 1817 reproduz os Artigos de Religião que John Wesley preparou para os metodistas americanos e uma seção inteira das atas das conferências de Wesley sobre justificação e santificação. A tradição arminiana passou inteira para a nova igreja.
A graça vem antes. O artigo VIII da Disciplina afirma que o homem caído “não pode converter-se nem preparar-se, por sua própria força natural e obras, para a fé”, e que não temos poder para o bem “sem a graça de Deus por Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade”. É a graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer passo humano, liberta a vontade e torna a fé possível. O relato de Allen fala assim: ele foi “despertado”, foi “levado a ver” a própria miséria, clamou e foi ouvido “por amor de Cristo”.
Graça para todos. “O céu é livre para todos os que adoram em espírito e em verdade”: a frase dita a McClaskey resume a convicção metodista de que a salvação é oferecida a todos. No apelo “Ao povo de cor”, Allen promete aos escravos a liberdade “que Deus preparou para os de todas as cores que o amam”.
Justificação e certeza. A Disciplina define a justificação com as palavras de Wesley: ser justificado é “ser perdoado e recebido no favor de Deus”, e a condição é a fé. Na mesma seção está a doutrina da certeza: o Espírito testemunha ao perdoado, e por isso “ninguém pode ser justificado e não sabê-lo” (Romanos 8:15-16). A conversão de Allen, das dúvidas à certeza do perdão, segue esse caminho.
Perseverança condicional. O justificado está num estado em que, “se continuarmos nele, seremos finalmente salvos”, e o artigo XII acrescenta que podemos “afastar-nos da graça recebida” e, pela graça de Deus, levantar-nos de novo. O crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e as advertências contra a apostasia são reais, ponto que separava batistas e metodistas.
Santidade de coração e santidade social. A Disciplina manda exortar os crentes a “seguir para a perfeição”, a inteira santificação de Wesley: obra da graça, recebida pela fé, que enche o coração de amor. Em Allen esse amor tinha endereço. No apelo “Aos que mantêm escravos”, ele lembra que Faraó foi destruído pelo “protetor e vingador dos escravos” e que “o próprio Deus foi o primeiro defensor da causa dos escravos”. Mas também pede perdão mútuo, em nome de Jesus, que mandou amar os inimigos, e conclui: “se amais o Deus de amor, limpai as vossas mãos de escravos” (Life, 1833).
Há diferenças com a declaração de fé deste site: a Disciplina manteve o batismo de crianças e o governo episcopal, e o site entende que o batismo segue a conversão e que cada igreja local se governa pelas Escrituras. No essencial da salvação a concordância é completa: incapacidade humana, graça que vem antes e alcança todos, justificação pela fé, perseverança condicional e santidade como dom.
Obras principais
- A Narrative of the Proceedings of the Black People, During the Late Awful Calamity in Philadelphia, in the Year 1793 (com Absalom Jones, 1794)
- Elogio fúnebre de George Washington (Philadelphia Gazette, 31 de dezembro de 1799)
- A Collection of Spiritual Songs and Hymns Selected from Various Authors (1801)
- A Collection of Hymns and Spiritual Songs (1801)
- The Doctrines and Discipline of the African Methodist Episcopal Church (com Daniel Coker e James Champion, 1817)
- The African Methodist Pocket Hymn Book (com Daniel Coker e James Champion, 1818)
- Carta contra a colonização, Freedom’s Journal (1827)
- The Life, Experience, and Gospel Labours of the Rt. Rev. Richard Allen (póstumo, 1833)
Para aprofundar
- Richard Allen, The Life, Experience, and Gospel Labours of the Rt. Rev. Richard Allen (Filadélfia, Martin & Boden, 1833), em Documenting the American South, Universidade da Carolina do Norte.
- African Methodist Episcopal Church, The Doctrines and Discipline of the African Methodist Episcopal Church (Filadélfia, 1817), em Documenting the American South.
- Daniel A. Payne, History of the African Methodist Episcopal Church (Nashville, 1891), em Documenting the American South.
- Will Gravely, “You Must Not Kneel Here”, Christian History 62 (1999).
- Jennifer Woodruff Tait, “My chains fell off: Richard Allen and Francis Asbury”, Christian History 114 (2015).
- Jarena Lee, “Shaking in the Multitude”, trecho de The Life and Religious Experience of Jarena Lee, Christian History 62 (1999).
- James A. Henretta, “Richard Allen and African-American Identity”, Early America Review.
- “Richard Allen”, Hymnology Archive, sobre os hinários de 1801 e 1818.
- Philip J. Brooks, “Unsung heroes of Methodism: Richard Allen”, Igreja Metodista Unida (2025).
- Samantha de Vera, “Bishop Richard Allen”, Colored Conventions Project.
- “Eulogy of George Washington, Richard Allen”, The President’s House in Philadelphia.
- Richard S. Newman, Freedom’s Prophet: Bishop Richard Allen, the AME Church, and the Black Founding Fathers (Nova York, NYU Press, 2008).
- “Richard Allen (bishop)”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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