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Thiago Titillo: O pastor batista que deixou o calvinismo estudando Agostinho
Neste texto
- Vida
- Uma biblioteca de igreja
- Do calvinismo ao arminianismo
- Pastor, professor e editor
- No movimento arminiano brasileiro
- Pensamento
- Um batista arminiano de quatro pontos
- A graça antes de tudo
- Agostinho e a origem da predestinação
- Eleição em Cristo
- A segurança eterna
- Esperança e educação
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 2007, um formando de Letras da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, entregou o trabalho de conclusão sobre Édipo Rei, de Sófocles, com o título “Sob a sombra da moira: uma análise da liberdade e do destino”. Três anos depois, no bacharelado em Teologia, Thiago Velozo Titillo voltou à mesma pergunta por outra porta e escreveu sobre Agostinho e a origem da doutrina da predestinação. A pesquisa mudou a teologia dele. O jovem que entrara no seminário convencido do calvinismo saiu dele arminiano, e desde então dedica livros, aulas e um trabalho editorial à defesa de que Deus quer salvar a todos e de que a graça pode ser recusada.
Vida
Uma biblioteca de igreja
Aos 16 ou 17 anos, Thiago sentiu, nas palavras dele, um vazio e o desejo de uma relação mais próxima com Deus. O pastor Carlos Eufrázio da Cruz pôs o rapaz para cuidar da biblioteca da Igreja Batista Central do Rio de Janeiro, e ali ele leu o primeiro livro de teologia, o Esboço de Teologia Sistemática, de Alva Bee Langston, manual clássico dos batistas brasileiros, que ele ainda recomendava em 2020.
Fez Letras na Estácio de Sá (2003-2007) e Teologia no Seminário Teológico Betel (2007-2010), e em 2014 concluiu o curso livre de grego da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. Na Faculdade Batista do Rio de Janeiro, do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, fez duas especializações: Teologia Bíblica e Sistemática-Pastoral (2013-2015), com um trabalho sobre a escatologia de Policarpo e Papias, e História do Cristianismo e do Pensamento Cristão (2020-2022), com um estudo sobre Eusébio de Cesareia.
Do calvinismo ao arminianismo
No começo do bacharelado, Titillo cria na predestinação como a ensina o calvinismo. As perguntas apareceram durante o curso, e ele as enfrentou na monografia, orientada por Henrique Ribeiro de Araujo: Agostinho e a gênese da predestinação (2010). O trabalho virou livro pela Fonte Editorial e foi lançado em 10 de maio de 2014 na Primeira Igreja Batista em Botafogo, onde ele era pastor auxiliar e serviu como ministro de casais e de jovens. Em 2016 a Editora Reflexão publicou uma edição revista e ampliada.
“Há muitos anos eu fui um calvinista pós-milenista”, resumiu ele em 2020. Ficaram marcas dessa fase, como o apreço pelos comentários de Calvino e a ênfase na segurança eterna dos salvos, e ficou a admiração por Agostinho, que ele chama de “o maior teólogo da Igreja de todos os tempos” (2017).
Pastor, professor e editor
Titillo pastoreou uma congregação em 2011 e 2012, foi pastor auxiliar na Primeira Igreja Batista em Botafogo e, em 2017, na Igreja Batista Memorial do Catumbi. É ministro da Convenção Batista Brasileira e, desde 2011, professor de língua portuguesa da rede estadual do Rio de Janeiro, hoje no Colégio Estadual Souza Aguiar.
No ensino teológico, começou em 2011 na Faculdade de Teologia Wittenberg, onde ficou até 2015 e recebeu dos alunos, em 2012 e 2013, os prêmios da casa por didática e por domínio da disciplina. Desde 2015 leciona história do cristianismo e teologia sistemática no Seminário Teológico Evangélico Peniel, que o escolheu paraninfo em 2018, e desde 2017 no Seminário Betel. Também é professor visitante em outros três seminários do Rio e escreveu para a Estácio de Sá o livro didático Hermenêutica bíblica (2019).
Na Verbum Publicações, do Rio de Janeiro, é coordenador editorial, revisor e consultor acadêmico. Por ali saíram os seus Jamais perecerão (2017) e Fé e educação (2018), e passaram pelas mãos dele Todos podem ser salvos (2020), a defesa da soteriologia batista tradicional organizada por David L. Allen, Eric Hankins e Adam Harwood, que ele prefaciou; A promessa do oleiro, de Leighton Flowers (2023); e Arminiano e batista, de J. Matthew Pinson (2025). Em outubro de 2025 ele entrevistou Pinson sobre os batistas gerais e a influência de Armínio sobre eles, e a Society of Evangelical Arminians divulgou a conversa como sinal de que o arminianismo ressurge entre os batistas brasileiros.
No movimento arminiano brasileiro
Titillo participou desde o começo do movimento que, a partir de 2013, levou a teologia arminiana às editoras e às igrejas brasileiras. Resenhou Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, logo depois da edição brasileira, no blog Ideário Arminiano (2013) e na Azusa: Revista de Estudos Pentecostais (2014). Em janeiro de 2015 assinou, com outros 32 pastores e teólogos calvinistas e arminianos, uma nota pública contra os ataques pessoais nos debates sobre a salvação. Falou na Conferência Arminiana de Natal (2015), com Zwinglio Rodrigues e Alcimar Laurentino, num seminário sobre a identidade arminiana da Assembleia de Deus na Ilha do Governador (2016) e, em 2017, sobre a eleição e a sola gratia em Jacó Armínio. Em 2018 dividiu com Ediudson Fontes e Luis Roldan uma palestra sobre a eleição corporativa e prefaciou o primeiro livro de Ediudson, Panorama da Teologia Arminiana.
Deu aula na pós-graduação em Teologia Armínio-Wesleyana do Seminário Teológico Nazareno do Brasil (2017), escreveu nos volumes coletivos organizados por Vinicius Couto para a Reflexão e prefaciou Graça resistível (2016), da coleção Arminianismo.
Pensamento
Um batista arminiano de quatro pontos
Titillo é um batista arminiano, da linha que se chama de “quatro pontos”. Ele se descreve como “um batista não-calvinista (e arminiano clássico de 4 pontos)” (O Cristão Pentecostal, 2020). Subscreve a incapacidade humana sem a graça, a expiação por todos, a graça que pode ser resistida e a eleição condicional; rejeita o quinto ponto, a possibilidade de o crente abandonar a fé e se perder.
Para ele, essa é a posição da maioria dos batistas: “Os batistas brasileiros são arminianos de maneira geral, mas rejeitam o rótulo” (2017). A história explica o quadro, porque “os batistas são híbridos” (2020). Os batistas gerais, de John Smyth e Thomas Helwys, surgiram na Holanda em 1609 sob influência menonita e arminiana; os particulares vieram do puritanismo calvinista inglês, por volta de 1630, e ensinavam que Cristo morreu só pelos eleitos.
Titillo aproxima a soteriologia batista tradicional do arminianismo de quatro pontos, mas não as confunde. Os tradicionalistas norte-americanos, cujo livro ele editou, recusam a expressão “graça preveniente”, preferem falar de graça capacitadora e negam que a culpa de Adão passe à descendência. Ele trata a diferença de vocabulário como menor, porque os dois lados concordam que ninguém se volta para Deus sem uma graça anterior. Na questão de fundo, porém, fica com Armínio: na queda o homem perdeu o livre-arbítrio para o bem espiritual, e é a graça que o restaura.
A graça antes de tudo
A resenha de Olson mostra como ele lê o arminianismo clássico. O sistema confessa “a completa e total depravação do homem”, cuja vontade está “totalmente escravizada pelo pecado”. Por isso chamar o arminianismo de semipelagiano, a doutrina de que o homem dá o primeiro passo e a graça só ajuda, “é, no mínimo, desonestidade intelectual” (Azusa, 2014). A graça preveniente, “a graça que vem antes”, liberta a vontade e torna o homem capaz de responder ao evangelho. “Em certo sentido, o primeiro raiar dessa graça é irresistível, pois todos a recebem”; depois, com a vontade libertada, ela pode ser aceita pela fé ou rejeitada. A fé é dom de Deus e não obra meritória, e aceitar a graça é “um simples deixar sem resistência à atuação de Deus”. Por isso, “em toda a salvação, a glória é somente de Deus”.
No mesmo texto ele defende os pontos em que Armínio ficou com a Reforma: a justiça de Cristo imputada ao crente pela fé e a expiação como substituição penal, contra a ideia de que todo arminiano segue a teoria governamental de Hugo Grócio. Separa o arminianismo de Armínio, de Simão Episcópio e de John Wesley dos desvios de Limborch e de Charles Finney. E faz uma objeção ao próprio Olson, que considera o teísmo aberto uma opção evangélica legítima: saber de antemão que alguém fará uma escolha não é determiná-la. O tema aparece no site em presciência, eleição e predestinação.
Agostinho e a origem da predestinação
A gênese da predestinação sustenta uma tese histórica. Os pais anteriores a Agostinho, de Justino, Irineu e Orígenes a Tertuliano, Cipriano e Ambrósio, afirmavam a necessidade da graça, mas não a predestinação incondicional. Quem a formulou foi Agostinho, sob pressão das controvérsias: contra os maniqueus, combateu o dualismo; contra os donatistas, passou a ver o Estado como braço de Deus para cristianizar a população; contra Pelágio, endureceu as doutrinas do pecado original e da graça até a graça irresistível. O livro examina também o Concílio de Éfeso (431) e o Sínodo de Orange (529) e conclui que os cânones de Orange condenam o semipelagianismo sem adotar o determinismo agostiniano.
Eleição em Cristo
Eleição condicional (2015) é um livro curto, para iniciantes. Cristo é o primeiro eleito. A eleição de Israel foi corporativa e para o serviço, e é assim que Titillo lê Romanos 9. A Igreja também é eleita como corpo: Deus decidiu que todos os que estivessem em Cristo formariam o seu povo. A eleição de cada pessoa é condicional e segue a presciência: Deus “elegeu aqueles que no curso da história escolheriam livremente a Sua graça em Cristo” (p. 20). O último capítulo examina os textos que os calvinistas usam a favor da eleição incondicional, como Atos 13:48 e Efésios 1:11. Uma resenha de Clóvis Gonçalves, no portal Teologia Brasileira (2018), elogiou o tom respeitoso e criticou o livro por falar pouco da graça. Nos outros textos, Titillo deixa claro que a escolha livre de que fala é a da vontade libertada pela graça preveniente.
O argumento de fundo é o caráter de Deus. “Um Deus verdadeiramente amoroso ama com amor salvífico todas as suas criaturas” (2017), e o livro rejeita a imagem de um deus que lança pessoas no inferno e poupa algumas “por mero capricho” (p. 12).
A segurança eterna
Jamais perecerão (2017), cujo título vem de João 10:28, nasceu de uma pergunta de alunos numa aula sobre o pensamento de Lutero. O livro defende a segurança eterna dos salvos com argumentos teológicos, históricos e exegéticos e procura mostrar que a doutrina não é exclusiva dos calvinistas e tem apoio entre os pais da Igreja. Titillo reconhece que fica em minoria entre os arminianos, mas lembra que é “a visão majoritária dos batistas” (2017).
O argumento dele não nega a liberdade do crente. A doutrina afirma que o crente não cairá, e não que não possa cair. “A liberdade devotada a Cristo é o tipo de escravidão mais livre que pode existir” (2020). A ilustração vem de Langston: um pai tem força para matar a filha e jamais o fará. Assim o regenerado, que recebeu uma nova natureza e não tem mais prazer no pecado, “jamais pecará para a morte”.
Aqui está a principal diferença em relação à declaração de fé deste site, que afirma a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e essa fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). É a posição de Wesley, de Robert Shank e de Robert Picirilli, exposta em a segurança da salvação e em apostasia na Bíblia. Outra diferença é a santificação: ele nega a santificação total nesta vida, e o site afirma a inteira santificação, obra da graça recebida pela fé.
Esperança e educação
Na escatologia, Titillo se define como “amilenista otimista” (2020), e aqui coincide com a declaração de fé do site. Os mil anos de Apocalipse 20 são, para ele, uma visão do reinado celestial de Cristo entre as duas vindas; a grande tribulação de Mateus 24 já se cumpriu na destruição de Jerusalém, no ano 70; e o evangelho ainda vai avançar sobre as nações. O artigo sobre Policarpo e Papias mostra que, desde os pais apostólicos, conviveram duas esperanças: uma que esperava um reino intermediário dentro da história e outra que esperava a intervenção de Deus depois dela.
O outro tema constante é a educação. No artigo de 2015 e em Fé e educação (2018), ele mostra que Lutero, Melanchthon e Calvino queriam reformar a sociedade pela escola e que a escola pública para todos nasceu desse projeto, das escolas de Melanchthon na Alemanha à Academia de Genebra, inaugurada em 1559.
Obras principais
- A gênese da predestinação na história da teologia cristã (Fonte Editorial, 2014; edição ampliada, Reflexão, 2016).
- “A contribuição dos reformadores para a educação pública”, Azusa: Revista de Estudos Pentecostais (2015).
- Eleição condicional (Reflexão, 2015).
- Jamais perecerão: uma análise teológica, histórica e exegética da segurança eterna dos salvos (Verbum, 2017).
- Fé e educação: contribuições da Reforma na área do ensino (Verbum, 2018).
- “Expectativas escatológicas em Policarpo e Papias”, Revista Brasileira de Teologia (2018).
- Hermenêutica bíblica (SESES, 2019).
- “‘As nações se encaminham para a tua luz’: o otimismo escatológico de Eusébio de Cesareia”, Pós-Escrito (2022).
Livros em português
- A gênese da predestinação na história da teologia cristã (Reflexão, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Eleição condicional (Reflexão, 2015). Ver na Amazon
- Jamais perecerão (Verbum, 2017). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Fé e educação: contribuições da Reforma na área do ensino (Verbum, 2018). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- “Thiago Velozo Titillo”, resumo do currículo Lattes no Escavador (formação, docência, publicações, prêmios), atualizado em 2025.
- “Entrevista exclusiva com Thiago Titillo”, Esquina da Teologia Pentecostal, 15 jul. 2017.
- “Um amilenista otimista”, entrevista a O Cristão Pentecostal, 2020.
- “Soteriologia batista: todos podem ser salvos”, entrevista a O Cristão Pentecostal, 2020.
- Clóvis Gonçalves, “Das eleições incondicionais à condicional”, resenha de Eleição condicional, Teologia Brasileira, 2018.
- Roberto Meireles, “Resumo do livro A gênese da predestinação”, 2014.
- “BTCast 072: a evolução do pensamento de Agostinho” (2014) e “BTCast 139: arminianos e calvinistas” (2016), Bibotalk.
- “Nota pública sobre debates teológicos entre calvinistas e arminianos”, 2015.
- “Arminianism is experiencing a resurgence among Brazilian Baptists in response to the growth of Calvinism”, Society of Evangelical Arminians, 2025, com a entrevista de Titillo a J. Matthew Pinson.
- Verbum Publicações, fichas de Jamais perecerão e de Fé e educação.
- Vídeos “Do calvinismo ao arminianismo” (Theopraxiscast, 2014) e “Predestinação e livre-arbítrio” (Assembleia de Deus na Ilha do Governador, 2016).
- Thiago Velozo Titillo, resenha de Teologia arminiana: mitos e realidades, Azusa, v. 5, n. 2, 2014; “A contribuição dos reformadores para a educação pública”, Azusa, v. 6, n. 1, 2015; “Expectativas escatológicas em Policarpo e Papias” e “As nações se encaminham para a tua luz”, Pós-Escrito.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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