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B. J. Oropeza: o estudioso de Paulo que levou a sério as advertências contra a apostasia

Diego Gonçalvesatualizado 13 min de leitura2.692 palavras

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Neste texto

Em 1994, quando ainda era pesquisador do Christian Research Institute, na Califórnia, B. J. Oropeza publicou pela InterVarsity Press um livro de título comprido e tese simples: Ninety-Nine Reasons Why No One Knows When Christ Will Return (“Noventa e nove razões por que ninguém sabe quando Cristo voltará”). O jovem apologista escrevia contra quem marca datas para o fim do mundo. Anos depois, já doutor em Novo Testamento, ele dedicaria a maior parte da carreira a outro perigo, mais antigo e mais sério: o de quem começa a caminhar com Cristo e o abandona no meio do caminho.

Vida

Formação e apologética

Brisio Javier Oropeza nasceu em 1961 e assina os livros como B. J. Oropeza. Formou-se bacharel em estudos bíblicos no Northern California Bible College, em Pleasanton, em 1989. Fez depois dois mestrados: em apologética, na Simon Greenleaf School of Law, concluído em 1991, e em teologia, no Fuller Theological Seminary, em Pasadena, em 1993.

De 1990 a 1995 trabalhou como pesquisador associado do Christian Research Institute, em Irvine, e como assistente do Christian Research Journal. Ensinou teologia na escola de ministério da Victory Outreach International, foi convidado de programas de rádio como o Bible Answer Man e escreveu para a Christianity Today. No ano seguinte ao livro das noventa e nove razões veio A Time to Laugh (Hendrickson, 1995), sobre o “riso santo”, as manifestações de riso, choro e tremor que se espalharam pelas igrejas carismáticas com a chamada Bênção de Toronto.

A Time to Laugh mostra o temperamento do autor. Oropeza escreveu como alguém de dentro do mundo pentecostal e carismático, sem desprezo pelas manifestações e sem aceitá-las de olhos fechados. Rejeitou a ideia de ficar “bêbado no Espírito”, mas avisou os críticos de que não bastava dizer que um fenômeno não aparece na Bíblia; era preciso mostrar que ele contraria a Bíblia. Lembrou que Paulo nunca duvidou de que o Espírito agia entre os coríntios, apesar da desordem dos cultos, e terminou com orientações para discernir uma renovação verdadeira.

Durham e o encontro com Paulo

Em 1998 Oropeza concluiu o doutorado em teologia do Novo Testamento na Universidade de Durham, na Inglaterra, sob a orientação de James D. G. Dunn e Loren T. Stuckenbruck. Dunn é o nome mais ligado à chamada nova perspectiva sobre Paulo, a leitura que interpreta as “obras da lei” combatidas pelo apóstolo à luz do judaísmo do tempo de Jesus. Dali Oropeza trouxe a atenção ao judaísmo do Segundo Templo e a leitura de Paulo como intérprete das Escrituras de Israel. Em 2009 organizou, com C. K. Robertson e Douglas C. Mohrmann, o livro em homenagem aos 70 anos de Dunn, com prefácios de N. T. Wright e Richard B. Hays.

Em 2000 publicou pela Mohr Siebeck, de Tübingen, Paul and Apostasy. O capítulo de abertura, uma história da interpretação da perseverança e da apostasia desde os pais da Igreja, foi elogiado até por calvinistas: Thomas Schreiner e Ardel Caneday, em The Race Set Before Us (2001), recomendaram aos leitores esse “excelente” histórico.

Professor e editor

De 1998 a 2001 foi professor assistente visitante de estudos religiosos na George Fox University, no Oregon. Em 2003 começou a ensinar estudos bíblicos e religiosos na Azusa Pacific University and Seminary, em Azusa, na Califórnia, universidade evangélica com raízes no movimento de santidade wesleyano. Hoje é professor emérito. Num texto de 2024 sobre o sermão de John Wesley a respeito do novo nascimento, ilustrou a postagem com uma foto que ele mesmo tirou da estátua de Wesley no campus.

Foi pesquisador residente na Universidade de Tübingen (2009) e no Seminário Teológico de Princeton (2017). Na Society of Biblical Literature, fundou a seção de intertextualidade no Novo Testamento, que dirigiu de 2008 a 2013, e em 2018 foi eleito para a Studiorum Novi Testamenti Societas, associação internacional de estudiosos do Novo Testamento. Desde 2020 escreve o blog In Christ, no portal Patheos, com estudos curtos sobre Paulo e entrevistas com estudiosos. Entre os gostos pessoais que ele confessa estão o bilhar, os Beatles e os super-heróis, que renderam The Gospel According to Superheroes (2005), com prefácio de Stan Lee.

Em 2021, perguntado sobre a sua vida devocional, contou que começa as manhãs lendo a Bíblia no original, primeiro o hebraico e depois o grego, e que ora durante uma caminhada matinal. Naquele momento lia os pais da Igreja e Hugo Grócio sobre Romanos. Disse que frequenta a igreja e jejua. Os livros de Richard Foster, como Celebração da disciplina, formaram a sua vida devocional quando era um cristão mais novo.

Em 2020 organizou com Scot McKnight Perspectives on Paul: Five Views (Baker Academic), em que cinco autores defendem as suas leituras de Paulo: Brant Pitre (católica), A. Andrew Das (protestante tradicional), James Dunn (nova perspectiva), Magnus Zetterholm (Paulo dentro do judaísmo) e John Barclay (Paulo e a graça como dom). O livro saiu no Brasil em 2021.

Pensamento

Classe: wesleyano. Oropeza é membro da Igreja Metodista Livre e wesleyano-arminiano na teologia. Defende a perseverança condicional, lê a eleição como eleição em Cristo e de um povo, e escreve sobre os sermões de Wesley como parte da sua tradição. Os próprios críticos reformados o contam entre os autores arminianos.

Advertências para cristãos de verdade

O tema que atravessa a obra dele é a apostasia, o abandono consciente da fé em Cristo. Em Paul and Apostasy (2000), Oropeza mostra que as cartas de Paulo trazem advertências a membros das igrejas que corriam o risco de cair, e que Paulo muitas vezes os tratava como convertidos genuínos. O exemplo central é 1 Coríntios 10:1-13. Ali Paulo lembra que Israel foi liberto do Egito, passou pelo mar, comeu o alimento espiritual e bebeu da rocha, e mesmo assim caiu no deserto. Os coríntios não deviam repetir a idolatria, a imoralidade e as murmurações daquela geração, porque esse caminho traria o juízo de Deus.

A mesma pesquisa identifica três perigos que ameaçavam as primeiras comunidades cristãs: a tentação de voltar aos vícios do paganismo, o engano dos falsos mestres e a perseguição. Os três volumes de Apostasy in the New Testament Communities (Cascade, 2011-2012) estendem o estudo ao Novo Testamento inteiro. Para cada livro, Oropeza pergunta qual comunidade estava em risco, que forma a apostasia tomava, que consequências ela trazia e se o desertor podia ser restaurado.

Num estudo de 2024 sobre Hebreus 6:4-6, ele mostra que os que “uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo” eram pessoas convertidas. Lembra, com I. Howard Marshall, que nenhuma passagem do Novo Testamento diz que um falso cristão tenha parte no Espírito Santo, e observa que o texto grego não tem o “se” que algumas traduções colocam, como se a queda fosse só hipotética. A conclusão: “o perigo da apostasia é uma ameaça real a cristãos reais” (In Christ, 2024).

Oropeza não usa esse tema para semear medo. Num texto do mesmo ano, chama a pergunta “o crente pode perder a salvação?” de pista falsa, porque ela costuma esconder o problema verdadeiro, que é o pecado. As promessas de Romanos 8:28-39 foram escritas para os fracos e aflitos; as advertências, para os acomodados que brincam com o pecado. A quem luta e se cansa de cair, ele responde que quem confia em Cristo tem o que é preciso para ser salvo. E crê que o apóstata pode ser restaurado, se voltar a Cristo.

Eleição em Cristo

A segunda ideia central é a eleição corporativa: quando Paulo fala de eleição, pensa primeiro num povo, Israel e a igreja, e não numa lista de indivíduos escolhidos de antemão. Comentando Romanos 8:28-39 em Paul and Apostasy, Oropeza argumenta que o texto se concentra na comunidade cristã como eleita e não no indivíduo, e que Deus pode eleger e preservar um povo enquanto membros desse povo caem. Daí a frase: “alguns eleitos podem cair, talvez até a maioria, mas nunca todos”.

Em 2025, ao começar um comentário sobre Efésios, insistiu em que eleição e predestinação acontecem “em Cristo”. Cristo é o Eleito, e a igreja é eleita porque participa dele. Numa série de 2021 sobre Romanos 9, mostrou que os pais da Igreja anteriores a Agostinho, como Irineu, Crisóstomo e Teodoreto, liam a escolha de Jacó e a rejeição de Esaú a partir da presciência de Deus. O próprio Agostinho, nos primeiros escritos sobre Romanos, dizia que Deus escolheu de antemão a fé de quem creria, e só depois mudou de leitura. Oropeza fecha a série sem caricatura: é difícil culpar Agostinho por insistir na importância da graça de Deus.

A fé como confiança que continua

Em 2026, Oropeza escreveu que João 3:16 não autoriza a “fé fácil”. O verbo grego traduzido por “crer” tem o sentido de confiar, e está num tempo que indica ação contínua. Crer é fazer de Cristo o Senhor da própria vida, com arrependimento, oração, obediência e comunhão. Por isso ele lê o versículo assim: quem continua confiando em Cristo não perece, mas tem a vida eterna.

Paulo, leitor das Escrituras

A terceira frente da obra é a intertextualidade, que ele define como “o estudo da presença de um texto em outro texto”. Oropeza aprendeu o método com Echoes of Scripture in the Letters of Paul, de Richard Hays, e dá exemplos como 1 Coríntios 15:45, em que a expressão “alma vivente” remete a Gênesis 2:7 e o “espírito vivificante” pode ecoar os ossos secos que voltam a viver em Ezequiel 37. Ele defende que esse estudo inclua também os textos gregos e romanos que formavam a mente dos convertidos gentios.

Sobre a nova perspectiva, disse em 2017 que a considera uma contribuição valiosa e se colocou num caminho do meio entre ela e a leitura da Reforma. Explicou que o árbitro final do que cria não era o dogma nem a teologia sistemática, e sim a exegese. Lembrou que Paulo fala da “obediência da fé” (Romanos 1:5) e do juízo segundo as obras (2 Coríntios 5:10), e disse rejeitar a leitura chamada “Paulo dentro do judaísmo”.

Ao lado da declaração de fé do site

Na perseverança, Oropeza está junto da declaração de fé deste site: a fé salvadora pode ser abandonada, e por isso a Escritura exorta o crente a permanecer em Cristo. A leitura da eleição em Cristo e da presciência também é a da Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio. Duas ênfases do arminianismo clássico completam o quadro. A primeira é que a confiança contínua que Oropeza descreve é ela mesma fruto da graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta humana, e que a fé recebe a salvação sem contribuir com nada. A segunda é que a justificação, para John Wesley e para o site, inclui a imputação da justiça de Cristo, ponto que a nova perspectiva costuma rever. Para o tema, veja Apostasia na Bíblia, Presciência, eleição e predestinação e Novo nascimento: o que muda quando nascemos de novo.

Leitores e críticos

Os três volumes sobre a apostasia receberam elogios de Craig A. Evans e de Don Garlington, que previu que a série seria a referência no assunto por muitos anos. A resposta mais extensa veio de Dongsu Kim, de tradição reformada, que publicou em 2022 Perseverance and Apostasy in the New Testament para contestar a tese de que os autores do Novo Testamento não pensavam todos da mesma forma sobre a apostasia. Kim acusa Oropeza de ler no texto a bagagem teológica do arminianismo. Na defesa da perseverança condicional, Oropeza está ao lado de Robert Shank, e entre os biblistas desta série, de Ben Witherington III e Craig S. Keener.

Obras principais

  • Ninety-Nine Reasons Why No One Knows When Christ Will Return (InterVarsity Press, 1994)
  • A Time to Laugh: The Holy Laughter Phenomenon Examined (Hendrickson, 1995)
  • Ninety-Nine Answers to Questions about Angels, Demons, and Spiritual Warfare (Kingsway/InterVarsity, 1997)
  • Paul and Apostasy: Eschatology, Perseverance, and Falling Away in the Corinthian Congregation (Mohr Siebeck, 2000)
  • The Gospel According to Superheroes: Religion and Popular Culture (Peter Lang, 2005)
  • Jesus and Paul: Global Perspectives in Honor of James D. G. Dunn, organizado com C. K. Robertson e Douglas C. Mohrmann (T&T Clark, 2009)
  • In the Footsteps of Judas and Other Defectors (2011), Jews, Gentiles, and the Opponents of Paul (2012) e Churches under Siege of Persecution and Assimilation (2012), os três volumes de Apostasy in the New Testament Communities (Cascade)
  • Exploring Second Corinthians: Death and Life, Hardship and Rivalry (Society of Biblical Literature, 2016)
  • Exploring Intertextuality, organizado com Steve Moyise (Cascade, 2016)
  • 1 Corinthians, na New Covenant Commentary Series (Cascade, 2017)
  • Scripture, Texts, and Tracings, série organizada com Linda L. Belleville e A. Andrew Das, com volumes sobre 1 Coríntios (2019), 2 Coríntios e Filipenses (2022) e Gálatas e 1 Tessalonicenses (2023) (Fortress Academic)
  • Perspectives on Paul: Five Views, organizado com Scot McKnight (Baker Academic, 2020)
  • Practicing Intertextuality, organizado com Max J. Lee (Cascade, 2021)

Livros em português

  • Perspectivas sobre Paulo: cinco pontos de vista, organizado por Scot McKnight e B. J. Oropeza (Thomas Nelson Brasil, 2021, tradução de Benício Paulo). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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