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HistóriaTeólogos arminianos10 de 65

Chad Thornhill: O professor de Liberty que lê a eleição de Paulo como escolha de um povo

Diego Gonçalvesatualizado 13 min de leitura2.544 palavras

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Neste texto

Em junho de 2013, em Lynchburg, na Virgínia, um aluno da primeira turma do doutorado em Teologia e Apologética do seminário de Liberty entregou uma tese de mais de trezentas páginas com um título tirado de Romanos 1:16: To the Jew First, “Primeiro do judeu”. Para entender o que Paulo queria dizer com “eleição”, Anthony Chadwick Thornhill tinha lido antes Tobias, Jubileus, os manuscritos do mar Morto, 1 Enoque e outros escritos judaicos anteriores ao ano 70. A conclusão dele foi que Paulo, como os judeus do seu tempo, pensava a eleição como a escolha de um povo, e que o apóstolo mudou o centro dessa escolha para Jesus, o Messias. Dois anos depois, a tese revista virou The Chosen People (O povo escolhido), e Ben Witherington III escreveu que talvez fosse o melhor livro já escrito sobre a eleição no judaísmo antigo e no cristianismo primitivo.

Vida

Formação em Liberty

Conhecido como Chad Thornhill, ele é natural de Culpeper, na Virgínia. Transferiu-se para a Liberty University para terminar o bacharelado em Religião e continuou ali, no Liberty Baptist Theological Seminary, onde fez o mestrado em Religião, o mestrado em Divindade com ênfase em estudos bíblicos e o doutorado em Teologia e Apologética, também com ênfase em estudos bíblicos.

Nos agradecimentos da tese, ele conta quem o formou. O orientador, Leo Percer, foi quem despertou nele o interesse pelo judaísmo do Segundo Templo, o período que vai da volta do exílio babilônico até a destruição do templo de Jerusalém, no ano 70. Gary Yates ajudou no projeto e marcou a sua leitura do Antigo Testamento. Michael Heiser aceitou ser leitor da tese, e as perguntas dele ajudaram a dar forma ao argumento. No grego do Novo Testamento, o mestre foi Jim Freerksen.

Professor e autor

Thornhill ficou em Liberty como professor. Em 2015 era presidente (chair) dos Estudos Teológicos da Escola de Divindade e professor assistente de Apologética e Estudos Bíblicos. Hoje é Residential Chair e professor de Estudos Bíblicos e Teológicos na John W. Rawlings School of Divinity, onde ensina Novo Testamento, grego e teologia.

A tese ganhou leitores fora de Liberty antes de virar livro. Em setembro de 2015, a Sociedade dos Arminianos Evangélicos (em inglês, Society of Evangelical Arminians) publicou o texto completo no seu site. Em novembro do mesmo ano a IVP Academic lançou The Chosen People: Election, Paul and Second Temple Judaism, com 288 páginas. Vieram depois um diálogo em oito partes com Ben Witherington III no blog dele, no fim de 2015, e dois trabalhos para o blog Jesus Creed, de Scot McKnight: uma série sobre o livro de William Klein a respeito da eleição corporativa e o artigo “Five Corrections about Election” (Cinco correções sobre a eleição), de março de 2016. Em 7 de abril de 2016, Thornhill deu uma palestra sobre as raízes judaicas da teologia paulina da eleição no New Orleans Baptist Theological Seminary.

O livro seguinte foi de outro tipo. Greek for Everyone (Grego para todos, Baker Books, 2016) é uma introdução ao grego do Novo Testamento para pastores, professores de escola bíblica e leigos que não têm anos para dedicar ao estudo da língua. Em vez de longas listas de vocabulário, o livro se concentra no que mais pesa na interpretação.

Em 2018 Thornhill trabalhou na CSB Baker Illustrated Study Bible, como editor das notas de Efésios, das cartas a Timóteo e das cartas de João, entre outras. No ano seguinte organizou com Robert J. Matz Divine Impassibility: Four Views of God’s Emotions and Suffering (IVP Academic, 2019). A pergunta do livro é se Deus sofre ou é afetado pelas suas criaturas, e quatro autores respondem, de James Dolezal, que defende a impassibilidade forte, a Thomas Jay Oord, que defende a passibilidade forte.

Escreveu ainda os verbetes “Apostasia” e “Eleição e predestinação” da segunda edição do Dictionary of Paul and His Letters, um capítulo sobre Orígenes como apologista (Zondervan, 2020) e artigos sobre o Salmo 88 e sobre a teologia narrativa do Espírito Santo.

Pensamento

A eleição de um povo

A pergunta que levou Thornhill ao tema foi teológica. Na entrevista que acompanhou o lançamento do livro, ele contou que estava “bastante insatisfeito” com o que tinha lido sobre a eleição, e que o debate costuma ser feito de trás para a frente, da teologia moderna para o Novo Testamento, quando deveria começar pelo Antigo Testamento e pelo judaísmo. A tese abre lembrando que, entre os protestantes, o debate foi dominado desde a Reforma pelo calvinismo e pelo arminianismo, e propõe outro ponto de partida: os escritos judaicos que Paulo conhecia.

Nesses escritos, Thornhill encontrou três coisas, que ele mesmo resumiu como as três propostas do livro. A primeira é que, quando um indivíduo é chamado de eleito, a escolha diz respeito à sua função ou ao seu caráter: “a eleição individual é sempre orientada para o papel ou o caráter, e não para a salvação” (entrevista à IVP, 2015). A segunda é que a eleição é apresentada sobretudo como coletiva: Deus forma um povo, e pertence a ele quem cumpre as condições da aliança. A terceira é que Paulo não rompe com essa moldura; ele muda o seu ponto focal, que passa a ser Jesus.

Os textos judaicos discordavam muito entre si, e Thornhill mostra que discordavam sobre a pergunta “quem”. Para 1 Macabeus, o povo fiel era o que guardava a Lei e apoiava os hasmoneus; para 1 Enoque, o que seguia o calendário certo; para Jubileus, o que guardava a circuncisão e o sábado e se separava dos gentios. Em todos eles, só uma parte de Israel ficava entre os eleitos, e quem saía era quem abandonava a aliança sem se arrepender. A eleição, portanto, era coletiva e condicional ao mesmo tempo. Mesmo os textos de tom determinista, como alguns do mar Morto, dizem que Deus traçou de antemão o seu plano, mas não as respostas de cada pessoa, e todos pedem arrependimento e obediência.

Paulo e o Messias como cabeça

Paulo responde de um jeito novo: o povo de Deus é marcado pela relação com o Messias, e não pela linhagem nem pelas obras da Lei. Por isso os textos mais densos de Paulo sobre a eleição, Romanos 9 a 11 e Efésios 1 e 2, tratam de como judeus e gentios cabem no mesmo povo.

A ideia que organiza a leitura é a da cabeça coletiva, o representante que carrega o grupo. Abraão foi o primeiro: todos os que se identificam com ele são seus filhos. A escolha se estreitou em Isaque e em Jacó, de quem veio a nação. Por fim, Deus escolheu o Messias como a cabeça definitiva, e essa escolha estreitou a eleição numa só pessoa e, ao mesmo tempo, a abriu para os gentios. Quem está “em Cristo” pela fé participa da eleição dele. Daí uma observação que a tese repete: Paulo nunca chama alguém de eleito antes de essa pessoa estar em Cristo. O título é sempre dado a quem já crê.

A leitura vale também para os textos mais citados a favor da eleição individual. Em 2 Tessalonicenses 2:13, Thornhill prefere a variante dos manuscritos que diz que Deus escolheu os tessalonicenses “como primícias”, e não “desde o princípio”: eles foram a primeira colheita do evangelho na cidade, e por isso o apóstolo os manda permanecer na verdade, para não terem o destino dos que a rejeitaram. Em Romanos 9, a misericórdia e o endurecimento mostram que Deus tem o direito de definir a base da eleição como quiser, inclusive deixando de lado a ascendência e a Lei. Faraó representa a parte de Israel que rejeitou o Messias, e o próprio capítulo 11 diz que Israel está fora por causa da incredulidade.

As objeções calvinistas

A última parte da tese responde a duas objeções. A primeira diz que eleger um grupo sem escolher os seus membros é eleger um “conjunto vazio”. Thornhill responde que a eleição corporativa começa com um indivíduo, a cabeça, e que o grupo nunca foi estático, nem em Israel nem em Romanos 11. Se a objeção valesse contra o Novo Testamento, valeria também contra a eleição de Israel no Antigo, que é claramente coletiva. A segunda diz que essa eleição tira de Deus a soberania. Thornhill responde que ela só contraria uma ideia determinista da soberania: Deus escolheu livremente a cabeça, o propósito e a condição, e a salvação é realizada pelo Messias, e não pela resposta de quem a recebe pela fé. A fé, insiste ele contra Thomas Schreiner, não é obra no vocabulário de Paulo. A conclusão é que Deus deu às pessoas a liberdade de aceitar ou rejeitar o Messias de Israel, e que “a fé do indivíduo, porém, é decisiva, e a sua decisão é real” (To the Jew First, 2013, p. 308).

No artigo de 2016 para o Jesus Creed, o mesmo argumento aparece para o leitor comum, em cinco pontos. A eleição em Paulo trata de judeus e gentios; tem uma história, que começa no Gênesis, passa pelos profetas e muda de rumo em Jesus; define o “quem” do povo de Deus, e não o “como” alguém é salvo; e é contraintuitiva, porque Deus escolhe o caçula, o homem que não sabia falar e o filho de um carpinteiro crucificado. Por fim, ela tem a ver com missão e formação: Israel foi escolhido para ser um reino de sacerdotes e luz para as nações, e o tipo de povo que os eleitos são e o que eles fazem “é central para o que significa serem escolhidos”.

Thornhill também sabe onde o argumento para. Ao comentar o livro de Klein, observou que o Antigo Testamento fala de salvação quase sempre como livramento de um perigo imediato, e que os textos de Qumran pensam em “bênção ou juízo”, e não em “céu ou inferno”. Por isso, disse, a escolha de Israel nunca garantiu a salvação de cada israelita. A crítica mais séria ao livro veio de Jason Staples, de Duke, em 2017: elogiou a exegese de Gálatas e Romanos, mas achou raso o tratamento de algumas fontes judaicas e lamentou que a ideia de eleição para uma função não fosse aplicada ao oleiro de Romanos 9.

O lugar dele no arminianismo

Thornhill é um simpatizante do arminianismo. Escreve como exegeta, a partir do judaísmo do primeiro século e sem partir dos sistemas da Reforma, mas chega às posições arminianas no ponto da eleição: rejeita a eleição individual incondicional e a dupla predestinação, entende a eleição como corporativa, em Cristo e condicional à fé, e aceita que um membro do povo eleito pode apostatar. É a mesma leitura de Brian Abasciano e de Robert Shank, que ele cita na tese, e que o guia doutrinário do site aceita como leitura arminiana da eleição. A Sociedade dos Arminianos Evangélicos o lista entre os autores arminianos, e ele escreveu o verbete sobre a Nova Perspectiva sobre Paulo do Global Dictionary of Arminian Theology.

A distância em relação ao arminianismo clássico também precisa ficar clara. O tema da obra dele é a eleição, e não a ordem da graça na conversão. A doutrina da graça preveniente, que em Jacó Armínio explica como uma vontade caída e incapaz chega a crer, fica fora do seu campo. Quando Thornhill diz que a decisão de fé é “real”, o arminiano clássico acrescenta que essa decisão só existe porque a graça veio antes e libertou a vontade, e que a fé apenas recebe, como a mão vazia do mendigo, sem acrescentar mérito. Thornhill não diz o contrário: para ele, a salvação é obra do Messias, a fé não é obra e quem rejeitou o Messias só volta ao povo de Deus deixando a incredulidade e sendo transformado pelo Espírito. Na tese, ele mostra que a eleição corporativa é compatível com várias visões não deterministas da soberania de Deus, entre elas a presciência simples, o molinismo de William Lane Craig e o teísmo aberto, e não escolhe entre elas; diz apenas que, numa visão tradicional, Deus sabe de antemão quem crerá. A declaração de fé do site afirma que Deus conhece todo o futuro e rejeita o teísmo aberto.

Com essas diferenças, a obra de Thornhill dá apoio histórico e exegético à eleição em Cristo, que Armínio, na Declaração de Sentimentos, põe na base dos decretos de Deus, e à perseverança condicional, a de quem é chamado a permanecer em Cristo, como o ramo na videira (João 15:4-6).

Obras principais

  • To the Jew First: A Socio-Historical and Biblical-Theological Analysis of the Pauline Teaching of “Election” in Light of Second Temple Jewish Patterns of Thought (tese de doutorado, Liberty Baptist Theological Seminary, 2013).
  • The Chosen People: Election, Paul and Second Temple Judaism (IVP Academic, 2015).
  • Greek for Everyone: Introductory Greek for Bible Study and Application (Baker Books, 2016).
  • CSB Baker Illustrated Study Bible (2018), editor e colaborador.
  • Divine Impassibility: Four Views of God’s Emotions and Suffering (IVP Academic, 2019), organizado com Robert J. Matz.
  • “Does the Spirit Have a Story? A Narrative Theology of the Holy Spirit”, Journal of Theological Interpretation (2020).
  • Capítulos sobre Romanos, Filipenses e Tiago em Approaching the New Testament (B&H, 2021).

Para aprofundar

Para comparar, leia as biografias de Ben Witherington III, de Robert Shank e de Roger Olson. Sobre o tema, veja Presciência, eleição e predestinação e Arminianismo: é tudo sobre a graça.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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