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Arthur Skevington Wood: O metodista que estudou Wesley, Lutero e Armínio
No segundo trimestre de 1993, a revista The Evangelical Quarterly publicou um estudo sobre a Declaração de Sentimentos, o discurso em que Jacó Armínio defendeu a sua teologia diante dos Estados da Holanda, em 1608. O autor, Arthur Skevington Wood, era conselheiro editorial da revista e tinha morrido em Sheffield, na Inglaterra, em 28 de janeiro daquele ano. A redação abriu o artigo com uma nota: aquele era o último texto dele que publicariam, e era tanto o testamento de Wood quanto o de Armínio. O pastor metodista que passou a vida estudando Wesley e Lutero terminou a carreira explicando, com o texto de Armínio na mão, que a eleição repousa na obra da graça de Deus.
Vida
Infância e conversão
Arthur Wood nasceu em 1916 em Ashbourne, no Derbyshire, filho único de William Arthur Wood (1886-1964), professor e pregador leigo metodista, e de May Cooper (1885-1970). O “Skevington” vem da família da mãe, que teve um ministro metodista na Nova Zelândia, John Skevington (1815-1845). No batismo do menino, os pais pediram a Deus que ele se tornasse cristão e pregador do evangelho.
A família se mudou para Yarm, em North Yorkshire, onde ele estudou na Yarm Grammar School de 1927 a 1933. Ali conheceu o Cliff College, a escola metodista de evangelistas no Derbyshire, cujos estudantes passavam pela cidade em missões a pé. Numa missão da CSSM, uma organização evangélica de trabalho com jovens, dois líderes o abordaram depois de uma partida de hóquei e, nas palavras dele, não lhe deram sossego até que enfrentasse o chamado de Cristo. Cinco anos depois ele já falava da sua conversão evangélica: tinha encarado o próprio pecado e recebido o perdão comprado por Cristo.
Trabalhou dois anos na loja de departamentos Lewis’s, em Leeds, até que a vocação ficou clara. Aos 20 anos foi aceito como candidato ao ministério metodista e, em 1936, entrou no Wesley College, em Headingley, Leeds. Ali aprendeu a exegese, o trabalho de tirar do texto bíblico o que ele diz, que seria a base da sua pregação, e começou o interesse por Lutero. Formou-se bacharel pela Universidade de Londres em 1941, entrou no ministério em 1939 e foi ordenado em 1943.
Pastor na Escócia e na Inglaterra
A Conferência Metodista o mandou primeiro para Glasgow, no circuito de Parkhead e Burnbank (1940-1943), perto de Cambuslang, palco de um avivamento famoso em 1742. Em 1º de janeiro de 1943 casou-se com Mary Fearnley, nascida em 1913 em Leigh, no Lancashire, convertida na adolescência e ativa na escola dominical. Ficaram casados por 49 anos.
Vieram depois cinco anos no circuito de Coatbridge e Airdrie, a leste de Glasgow, e o doutorado no New College, em Edimburgo. O diretor da faculdade, Hugh Watt, sugeriu o tema: Thomas Haweis (1734-1820), clérigo anglicano do avivamento. A tese virou o primeiro livro de Wood, Thomas Haweis (1957). Em setembro de 1951 ele assumiu o Paisley Central Hall, a oeste de Glasgow, e se envolveu no movimento “Tell Scotland” e na Cruzada de Toda a Escócia, que Billy Graham dirigiu em 1955. Em 1957 escreveu para a Christianity Today um artigo de capa sobre a igreja e a evangelização.
Os últimos circuitos foram na Inglaterra: Sunderland (1957-1959), onde publicou And with Fire (1958), mensagens sobre o avivamento, e York, na igreja de Southlands, onde escreveu The Inextinguishable Blaze (1960), sobre o avivamento evangélico do século 18.
Evangelista pelo mundo
Em 1962 a Conferência liberou Arthur e Mary Wood para o Movement for World Evangelization. Até 1970 ele pregou pela Grã-Bretanha e em cinco continentes, da África às Filipinas. Em 1962 falou pela primeira vez na Convenção de Keswick, o grande encontro anual sobre a vida cristã no noroeste da Inglaterra, onde pregadores metodistas raramente subiam à tribuna; voltou outras três vezes até 1976 e uma última em 1992. Também frequentava a Convenção de Santidade Metodista de Southport, cuja história do centenário escreveu em Let Us Go On (1985).
Em 1963 deu a conferência anual da Evangelical Library, em Londres, sobre William Grimshaw de Haworth. Pelo trabalho em história da Igreja, foi eleito membro da Royal Historical Society, presidiu um grupo de pesquisa da Tyndale House, em Cambridge, e escreveu o comentário de Efésios no Expositor’s Bible Commentary.
O Cliff College e os últimos anos
Depois das viagens, Wood entrou para a equipe do Cliff College como professor de história da Igreja e de doutrina cristã, escolhido pelo diretor Howard Belben. Assumiu a direção em 1977 e se aposentou em 1983, ano do centenário da escola. Dizia que, sem nunca ter sido aluno do Cliff, tinha um “coração de Cliff”, e dava testemunho da experiência do coração purificado e cheio do Espírito que o colégio ensinava.
Em 1985 ajudou a fundar a Wesley Fellowship, associação para o estudo da teologia wesleyana, com Herbert McGonigle, do Nazarene Theological College de Manchester, e o pastor metodista William Parkes. Foi o primeiro presidente e fez a palestra inaugural, em Sheffield, em 21 de setembro de 1985: Love Excluding Sin (“O amor que exclui o pecado”), sobre a santificação em Wesley, publicada em 1986. Em 1992 a Fellowship publicou o seu Revelation and Reason, sobre as respostas wesleyanas ao racionalismo do século 18.
A partir de 1986 ele conviveu com a doença de Parkinson. Mary morreu em 1992 no Royal Hallamshire Hospital, em Sheffield, e ele morreu na mesma enfermaria em 28 de janeiro de 1993, aos 76 anos, quando preparava uma palestra sobre o evangelista William Bramwell. Em 1994, Paul Taylor e Howard Mellor publicaram Travelling Man, o livro de homenagem do Cliff College e da Wesley Fellowship.
Pensamento
Um arminiano evangélico
Wood pertence à linha wesleyana do metodismo britânico, e Herbert McGonigle o resumiu como evangélico conservador e wesleyano. Na palestra Love Excluding Sin (1985), Wood reclama que Wesley costuma ser classificado como um arminiano do tipo laudiano e latitudinário, ligado à Igreja da Inglaterra do século 17. Para ele, Wesley aceitou a ênfase reformada na justificação pela fé, tão central para Armínio quanto para Lutero e Calvino, e por isso foi “um arminiano evangélico na linha do próprio Armínio”.
O artigo de 1993 sobre a Declaração de Sentimentos mostra como ele lia o fundador da tradição. Wood resume os quatro decretos de Armínio e insiste que a ordem deles é centrada em Cristo: antes de qualquer decisão sobre pessoas, Deus designa o Filho como Mediador e Salvador, e a eleição acontece “em Cristo” (Efésios 1:4). A ênfase na graça preveniente, redentora e preservadora, conclui Wood, deixa claro que “é com base na obra de Deus neles, e não na deles”, que os crentes são eleitos (The Evangelical Quarterly, 1993).
No mesmo artigo, ele afasta Armínio de qualquer leitura semipelagiana. No estado caído, o ser humano é incapaz de pensar, querer ou fazer o bem por si mesmo e precisa ser regenerado por Deus em Cristo, pelo Espírito; por isso a posição de Armínio deve ser distinguida de “qualquer otimismo pelagiano”. Armínio atribui à graça o começo, a continuação e a consumação de todo bem, e Wood descreve a relação entre Deus e o crente como algo diferente de um sinergismo em que a obra de Deus e a do homem se somam: a vontade e a obra de Deus dentro da pessoa são recebidas com confiança e submissão. A controvérsia era sobre o modo como a graça age, porque muitos resistem ao Espírito Santo (Atos 7:51). É o centro do arminianismo clássico, que explicamos em A graça preveniente em Armínio, e a mesma leitura de Carl Bangs, o biógrafo de Armínio que Wood cita várias vezes.
Num ponto o artigo foi corrigido por outro arminiano. Wood escreveu que Armínio propôs a eleição ou a reprovação de “classes” (os que creem e os que não creem), e não de indivíduos. J. Matthew Pinson respondeu que Armínio fala de indivíduos, e o próprio Wood cita o quarto decreto, em que Deus conhece de antemão “aqueles indivíduos” que creriam pela graça preveniente e perseverariam pela graça subsequente. É a leitura de Pinson que adotamos.
Wesley e o coração aquecido
Em The Burning Heart (1967), a biografia de John Wesley como evangelista, Wood mostra que Wesley rejeitava a lógica determinista do calvinismo extremo sem negar a soberania de Deus, e levava muito a sério a condição perdida do ser humano. O que equilibrava as duas coisas era a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. Wesley, explica Wood, estendia essa graça para além dos eleitos, porque não a julgava irresistível. Wood cita as atas da Conferência metodista em que Wesley diz que os metodistas chegam perto do calvinismo ao atribuir todo bem à graça livre de Deus e ao negar todo livre-arbítrio natural e todo poder anterior à graça.
O mesmo livro e The Inextinguishable Blaze põem no centro do avivamento a noite de 24 de maio de 1738, na rua Aldersgate, quando Wesley ouviu a leitura do prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos e sentiu o coração “estranhamente aquecido”. Para Wood, foi desse coração que a “chama inextinguível” voltou a arder. Num artigo para a Christian History (1984), ele junta outra cena, a festa do amor de 1º de janeiro de 1739, em Londres, quando os Wesley, George Whitefield e cerca de sessenta pessoas passaram a noite em oração. Dali em diante, escreve Wood, o metodismo passou a ser mais que um programa de reforma, porque a força para a missão vinha do próprio Espírito Santo. Veja também A conversão de John Wesley e A conversão de George Whitefield.
O amor que exclui o pecado
A palestra de 1985 é a exposição mais conhecida que Wood fez do “grande depósito” que, segundo Wesley, Deus confiou aos metodistas: a perfeição cristã ou inteira santificação. O título vem de uma frase de Wesley, para quem a perfeição é “o amor que exclui o pecado”. Wood mostra Wesley entre dois extremos, o dos que confundiam a santificação com a justificação, como os morávios e os quacres, e o dos que pensavam numa santidade possuída pelo crente como coisa dele. A justiça de Cristo é imputada, isto é, creditada ao crente, e também comunicada a ele, e depende de Cristo a cada momento: o crente vive livre do pecado neste momento pela graça que o capacita, e, se neste momento, por que não no próximo?
Wood trata ainda dos dois lados da experiência. Wesley ensinava uma santificação que cresce ao longo da vida e, dentro dela, uma crise de fé em que o coração é purificado; pediu ao irmão Charles que insistisse na bênção instantânea, enquanto ele mesmo insistiria na obra gradual. E chamou de “espantalho” a ideia de uma perfeição sem pecado, como se o crente ficasse livre de ignorância, erros e fraquezas. É a mesma doutrina da nossa declaração de fé: uma obra da graça, posterior à regeneração e recebida pela fé, que enche o coração de amor a Deus e ao próximo, sem prometer ausência de erros ou de tentações.
Lutero, a Escritura e o avivamento
Em Luther’s Principles of Biblical Interpretation (1960) e Captive to the Word (1969), Wood lembra que o título que Lutero mais prezava era o de “doutor da Sagrada Escritura”, recebido em Wittenberg em 19 de outubro de 1512. Para Lutero, explica ele, o Espírito Santo é autor e intérprete da Escritura, e a Igreja é criação da Palavra, e não o contrário. Wood mostra também que, até a Dieta de Worms, em 1521, o reformador apoiou a sua defesa só na Escritura. Sobre o tema, leia A descoberta de Lutero: o justo viverá pela fé e A Dieta de Worms.
No artigo de 1957 para a Christianity Today, Wood avisava contra a confiança na técnica: “o método é de importância secundária diante da primazia do Espírito e da Palavra”. A igreja local inteira, com os leigos, é o agente da missão, e a sua oração mais funda deve ser por avivamento. Junto com a perfeição cristã e o avivamento, a volta de Cristo era o terceiro tema que mais ocupava a sua pregação, em Prophecy in the Space Age (1964) e Signs of the Times (1970). Ele está na família de John Fletcher e Richard Watson, os metodistas que defenderam a graça livre e a santidade com argumento bíblico e histórico.
Obras principais
- Thomas Haweis, 1734-1820 (1957)
- And with Fire (1958; reeditado como Baptised with Fire, 1981)
- The Inextinguishable Blaze: Spiritual Renewal and Advance in the Eighteenth Century (1960)
- Luther’s Principles of Biblical Interpretation (1960)
- Paul’s Pentecost (1963; depois Life by the Spirit)
- The Art of Preaching (1963)
- Prophecy in the Space Age (1964)
- Evangelism: Its Theology and Practice (1966)
- The Burning Heart: John Wesley, Evangelist (1967)
- Captive to the Word: Martin Luther, Doctor of Sacred Scripture (1969)
- Signs of the Times (1970)
- “Ephesians”, em The Expositor’s Bible Commentary, vol. 11 (1978)
- Let Us Go On (1985)
- Love Excluding Sin: Wesley’s Doctrine of Sanctification (1986)
- Revelation and Reason: Wesleyan Responses to Eighteenth-Century Rationalism (1992)
- “The Declaration of Sentiments: The Theological Testament of Arminius”, The Evangelical Quarterly 65 (1993)
Para aprofundar
- Paul Taylor e Howard Mellor (org.), Travelling Man: A Tribute to the Life and Ministry of the Reverend Dr Arthur Skevington Wood (Cliff College Publishing e Wesley Fellowship, 1994), com a biografia, o “Credo” de Herbert McGonigle e os textos Love Excluding Sin e Luther’s Principles of Biblical Interpretation.
- E. Dorothy Graham, “Wood, Dr Arthur Skevington (1916-1993)”, Dictionary of Methodism in Britain and Ireland.
- A. Skevington Wood, The Declaration of Sentiments: The Theological Testament of Arminius, The Evangelical Quarterly 65.2 (1993), p. 111-129.
- A. Skevington Wood, The Church and Evangelism, Christianity Today, 4 de fevereiro de 1957.
- A. Skevington Wood, The Burning Heart: John Wesley, Evangelist (Paternoster, 1967) e The Inextinguishable Blaze (Paternoster, 1960), no Internet Archive.
- A. Skevington Wood, Captive to the Word (Paternoster, 1969), no Internet Archive.
- A. Skevington Wood, “Strangely warmed: the Wesleys and the Evangelical Awakening”, Christian History 9 (1984).
- J. Matthew Pinson, Individual Election, Corporate Election, and Arminianism, Society of Evangelical Arminians.
- Methodist Evangelicals Together, Travelling Man: resenha do livro de homenagem.
- Wikipédia em inglês, Arthur Skevington Wood.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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