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HistóriaArminianismo8 de 46

Jeremy Taylor: o bispo anglicano que ensinou a viver e a morrer santamente

Diego Gonçalves5 min de leitura971 palavras

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Neste texto

Em 1725, um estudante de 22 anos em Oxford leu um livro de devoção escrito mais de setenta anos antes por um bispo anglicano. A leitura o impressionou tanto que ele decidiu entregar a vida inteira a Deus, sem reservar nenhuma parte para si. O estudante era John Wesley, e o livro era The Rule and Exercises of Holy Living and Holy Dying, de Jeremy Taylor, na forma como Wesley o conheceu.

Retrato de Jeremy Taylor
Retrato de Jeremy Taylor, de Eden Upton Eddis (1812-1901). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Taylor nasceu em Cambridge, filho de um barbeiro, e foi batizado em 15 de agosto de 1613. Estudou na Perse School e no Gonville and Caius College. Foi ordenado por volta de 1633 e chamou a atenção do arcebispo William Laud, que o apoiou: em 1635 ele recebeu uma bolsa no All Souls College, em Oxford, e depois se tornou capelão de Laud e capelão do rei Carlos I. Em 1638 assumiu a paróquia de Uppingham.

A Guerra Civil Inglesa mudou o rumo dele. Taylor serviu como capelão do lado realista e foi capturado no cerco ao castelo de Cardigan, em 1645. Depois da derrota do rei, a Igreja da Inglaterra perdeu o culto oficial e muitos pastores foram afastados. Taylor foi viver no País de Gales, onde manteve uma escola e serviu como capelão do conde de Carbery, em Golden Grove. Ali escreveu as obras que o tornaram conhecido. Passou ainda por prisões em Chepstow (1655) e na Torre de Londres (1657).

Em 1658 mudou-se para a Irlanda. Com a volta da monarquia, foi sagrado bispo de Down e Connor em 27 de janeiro de 1661, recebeu também o cuidado da diocese de Dromore e foi vice-reitor da Universidade de Dublin. Teve atritos com os pastores presbiterianos da região. Morreu em Lisburn em 13 de agosto de 1667 e foi sepultado em Dromore. Para entender o pano de fundo, vale ler sobre Henrique VIII e o Ato de Supremacia e sobre as diferenças entre anglicanos e presbiterianos.

Pensamento

Classe: anglicano arminiano, no sentido inglês do século XVII, o de quem, no círculo de Laud, rejeitava o calvinismo rigoroso. Ressalvo que as fontes que consultei o ligam ao arminianismo mais pelo contexto do que por uma declaração dele sobre a eleição. A Wikipédia o inclui entre os teólogos arminianos, a Dictionary of National Biography registra que uma comissão de presbiterianos escoceses examinou os livros dele em busca de “veneno”, provavelmente o arminianismo, e catálogos o classificam na tradição anglicana arminiana. Por isso o trato como arminiano com essa cautela, e não como um caso encerrado.

Algumas marcas do pensamento dele:

  • Piedade prática: Holy Living (1650) e Holy Dying (1651) ensinam a viver cada dia diante de Deus, com exame de consciência, oração e intenção pura. Foi o que tocou Wesley, e a ênfase em santidade de vida aproxima Taylor da nossa declaração de fé sobre a santificação, embora ele não ensinasse a inteira santificação nos termos de Wesley.
  • Arrependimento e pecado original: em Unum Necessarium (1655) e em Deus Justificatus (1656), Taylor sustentou que “pecado” só se aplica com propriedade a atos livremente escolhidos. Para ele, a condição caída herdada desafia a vontade, mas não condena ninguém por si só. Críticos como o presbiteriano Samuel Rutherford o acusaram de pelagianismo, isto é, de achar que o ser humano pode se salvar por esforço próprio. Ele escreveu o Deus Justificatus em resposta. Aqui nós divergimos dele: nossa declaração afirma o pecado original e a depravação total, e entende que só a graça preveniente, a que precede a nossa resposta, torna possível a fé.
  • Tolerância: em Liberty of Prophesying (1647, algumas fontes dão 1646), defendeu que quem vive bem e crê no essencial da fé cristã não deve ser tratado como herege. Esse ponto se liga ao espírito dos remonstrantes, de quem vem o arminianismo.

Sobre a graça e a vontade, os desdobramentos da posição dele merecem estudo próprio. O leitor interessado pode ver Soteriologia Arminiana e Presciência, Eleição e Predestinação.

Elo com o metodismo: além da leitura de 1725, o volume IX da Christian Library de Wesley reúne trechos de Taylor, segundo a Dictionary of National Biography. Veja a biografia de John Wesley e a de Charles Wesley.

Obras principais

  • A Discourse of the Liberty of Prophesying (1647).
  • The Rule and Exercises of Holy Living (1650).
  • The Rule and Exercises of Holy Dying (1651).
  • The Golden Grove (1655), manual de orações.
  • Unum Necessarium (1655), sobre o arrependimento.
  • Deus Justificatus (1656), defesa do que escreveu sobre o pecado original.
  • A Discourse of the Nature and Offices of Friendship (1657).
  • Ductor Dubitantium (1660), manual de casos de consciência.
  • Dissuasive from Popery (1664).

Livros em português

Até onde pude verificar, ainda não há livros dele traduzidos para o português. Quem lê inglês encontra Holy Living and Holy Dying em várias edições, inclusive a edição crítica de Oxford.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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