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John Wesley Adams: O professor tetraplégico da Bíblia de Estudo Pentecostal
Neste texto
Na madrugada de 17 de maio de 1958, depois do baile de formatura da escola de El Reno, em Oklahoma, cinco rapazes capotaram um carro numa estrada. Quatro saíram dos destroços com cortes e arranhões. O quinto, que dormia bêbado no banco de trás, percebeu que não podia mover o corpo: tinha quebrado o pescoço, entre a quinta e a sexta vértebras cervicais, e ficou paralisado do peito para baixo, poucos dias antes de completar 17 anos. Os pais o tinham chamado John Wesley, em homenagem ao evangelista inglês do século XVIII, porque criam que Deus o chamaria para pregar. Ele passou as seis décadas seguintes numa cadeira de rodas e, nesse tempo, tornou-se doutor em Novo Testamento, professor universitário, pastor e editor auxiliar da Bíblia de estudo que no Brasil se chama Bíblia de Estudo Pentecostal.
Vida
O acidente e o perdão
Os pais de Wes Adams, como ele assina vários livros, conheceram-se no Pasadena College, a faculdade da Igreja do Nazareno na Califórnia, e os dois pregavam. O filho cresceu numa casa cristã em Oklahoma, jogava beisebol e basquete pela escola e, na adolescência, afastou-se de Deus. Ele mesmo conta que a noite do acidente foi a única da vida em que se embriagou.
Levado ao Wesley Hospital, em Oklahoma City, passou 36 horas entre a vida e a morte, com a mãe orando ao lado da cama. Quando despertou, ela lhe contou que estava paralisado e pediu que se acertasse com Deus. Ele confessou a rebeldia a Deus e aos pais e, ainda na enfermaria, começou a cantar em voz alta “Amazing Grace”. Mais tarde escreveu que Deus interrompeu a sua corrida para uma vida perdida “sem violar o meu livre-arbítrio” (Tenacious Love, cap. 3). Seguiram-se dezoito meses de reabilitação. O médico disse aos pais que o rapaz não viveria muito nem teria boa saúde; Adams saiu do centro de reabilitação em 1959 e não voltou a ser internado até 2018.
Bethany e o chamado
A família se mudou para Bethany, perto de Oklahoma City, e ele terminou o colegial um ano depois da sua turma. Em 1960, aos 19 anos, entrou no Bethany Nazarene College, hoje Southern Nazarene University, a duas quadras de casa; os prédios tinham escadas, e por cinco anos os colegas o levaram, com cadeira e tudo, degrau por degrau. No mesmo campus estudava Donald Stamps, que se tornaria seu amigo de toda a vida.
A agência estadual de reabilitação profissional o matriculou em pré-direito, carreira que julgava possível para um tetraplégico. Em outubro do primeiro ano, porém, Adams passou várias noites discutindo com Deus sobre o chamado ao ministério: que igreja aceitaria um pastor em cadeira de rodas? Por fim se rendeu e trocou o curso por estudos bíblicos e teológicos, para indignação do conselheiro da agência. Formou-se bacharel em Religião e fez o mestrado em um ano, com uma dissertação sobre os problemas não resolvidos da Epístola aos Hebreus e a sua autoridade canônica. Aos 20 anos, numa noite fria de fevereiro em Oklahoma City, nasceu nele o desejo de orar por avivamento, a que dedicaria mais de cinquenta anos de intercessão.
Seminário, Gaylord e Baylor
Os pais venderam a casa e se mudaram com ele para Kansas City, onde Adams cursou o mestrado em divindade no Seminário Teológico Nazareno e terminou em segundo lugar na turma. Vieram então dois “anos de deserto” em Gaylord, cidadezinha de trezentos habitantes no Kansas, onde serviu ao lado do pai numa pequena igreja e foi pastor interino por um ano numa comunidade vizinha.
Depois decidiu fazer doutorado, e os pais, já com cerca de 65 anos, mudaram-se outra vez com ele, agora para Waco, no Texas. Adams chegou à Universidade Baylor em agosto de 1970, quando o avivamento do Movimento de Jesus alcançava os campi americanos. Concluiu o doutorado em dezembro de 1976, com a tese The Teaching Role in the New Testament: Its Nature and Scope as a Function of the Developing Church (“A função de ensino no Novo Testamento”), e recebeu o diploma em maio de 1977.
Professor em Olathe
Logo depois foi chamado pelo diretor acadêmico do Mid-America Nazarene College, em Olathe, no Kansas, que tinha sido seu professor em Bethany. Ali conheceu Jane Peterson, aluna das suas aulas de literatura joanina e de hermenêutica, depois sua assistente. Ele tinha decidido não se casar, para não impor a uma esposa os cuidados que a tetraplegia exige, e mudou de ideia depois de três dias de jejum e oração. Casaram-se em 29 de maio de 1981: ele tinha 39 anos e ela, 23. Adams contou a história dela, já falecida, em Tenacious Love (“Amor tenaz”).
No quinto ano de ensino, Adams recebeu o prêmio de professor do ano da instituição. Um ano depois, o reitor o demitiu por causa do modo como ele interpretava as passagens do Novo Testamento sobre o falar em línguas. A mesma questão já tinha custado a Stamps o posto de missionário nazareno no Brasil.
Pastor e editor
Com um colega, Adams fundou a Olathe Fellowship, uma igreja formada no começo sobretudo por universitários, e a pastoreou por quatro anos, até que ela se uniu à igreja de Mike Bickle em Kansas City. Foi depois pastor associado da Olathe Christian Fellowship por oito anos. Nesse período trabalhou com Stamps na Full Life Study Bible. Ele e Jane passaram sete semanas no Brasil para que os dois amigos trabalhassem juntos no projeto, e coube a Adams escrever as introduções aos livros bíblicos. Com Stamps escreveu também o artigo sobre a cura divina. A Bíblia completa saiu pela Zondervan em 1992, com Stamps como editor geral e Adams como editor associado, e no Brasil a CPAD a lançou em 1995 como Bíblia de Estudo Pentecostal, com Adams como editor auxiliar. Rebatizada depois Life in the Spirit Study Bible e Fire Bible, a obra chegou a mais de sessenta línguas.
Nos mesmos anos, Adams escreveu o comentário a Efésios e preparou o de Hebreus para o Full Life Bible Commentary to the New Testament, organizado por French Arrington e Roger Stronstad (Zondervan, 1999), o comentário que acompanha a Bíblia e que no Brasil saiu como Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento.
Ensinou por uma década no Grace Training Center, em Kansas City, com uma pausa de dois anos em que ele e Jane ministraram em Peterborough, na Inglaterra. Por sete anos trabalhou com Rhonda Hughey Mathisen no Fusion Ministries, que ajuda líderes de uma cidade a orar juntos por avivamento, e com ela escreveu três livros, entre eles Revival (2010). Colaborou nos cursos do programa Faith & Action, que forma pastores das Assembleias de Deus na América Latina, na África e na Ásia, e ensinou em meio período na universidade da International House of Prayer, em Grandview, no Missouri. Em 2015 publicou Wholeness Is Possible (“A inteireza é possível”), um manual para paralíticos, famílias e profissionais de saúde.
Pensamento
Pentecostal arminiano de raiz wesleyana
John Wesley Adams é um pentecostal arminiano formado na tradição wesleyana. Estudou e ensinou em escolas da Igreja do Nazareno, a denominação cuja teologia foi sistematizada por H. Orton Wiley, e ao abraçar a doutrina pentecostal levou consigo a soteriologia arminiana, como Stamps. Os estudos da Bíblia de Estudo Pentecostal, que ele coeditou, ensinam a eleição em Cristo, condicionada à fé, e a possibilidade da apostasia, como se vê na biografia de Stamps.
A obra do próprio Adams vai na mesma direção. No comentário a Efésios 1:5, ele observa que o verbo grego traduzido por “predestinar” (proorizō) aparece seis vezes no Novo Testamento e que ele “não significa Deus decidindo antecipadamente quem será salvo ou não” (Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento, CPAD, vol. 2, p. 396-397). O que Deus decidiu de antemão foi o que os eleitos, unidos a Cristo, viriam a ser: filhos adotivos, conformados à imagem do Filho, santos e herdeiros. É a leitura arminiana da eleição e predestinação: a eleição acontece em Cristo, e a pessoa entra nela pela fé.
No estudo de Hebreus, que ele chama de “mina de ouro” do Novo Testamento, Adams dá às advertências da epístola todo o seu peso. O esboço do seu comentário marca sete advertências, entre elas “a temível possibilidade da apostasia deliberada” (Hebreus 6:4-20). Os destinatários, segundo ele, eram cristãos judeus “em perigo de perder a fé em Cristo” e voltar ao judaísmo; a exposição dá o fundamento da fé, e a exortação pede uma “tenacidade perseverante”. É a perseverança condicional, a doutrina de que o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, exposta no site em Perseverança e apostasia na teologia arminiana.
A primazia da graça aparece na sua leitura da história. Adams fala de uma “entropia moral” introduzida pela queda de Adão: sem a intervenção da graça e do poder de Deus, a direção espiritual e moral da humanidade é para baixo. Na sua própria conversão, Deus o alcançou e o chamou ao arrependimento sem forçar a sua vontade. A tradição de Jacó Armínio e de John Wesley chama isso de graça preveniente: a graça que vem antes, liberta a vontade e torna possível a resposta, sem a tornar inevitável.
O Espírito e as línguas
A convicção que lhe custou o emprego em Olathe está exposta numa das suas aulas sobre Atos. Os três sinais de Pentecostes, o som de vento, as línguas de fogo e o falar em outras línguas, correspondem às três partes da promessa de Atos 1:8: poder, testemunho e alcance de todas as nações. Adams atribui às línguas quatro funções: sinal para os incrédulos (1 Coríntios 14:22), manifestação que acompanha o batismo no Espírito Santo (Atos 2; 10; 19), linguagem de oração do crente (1 Coríntios 14:14-15) e, com interpretação, palavra profética para a congregação. Eram, para ele, “a porta humilde” para a atividade sobrenatural do Espírito.
Cura e sofrimento
Adams ensinou que a cura divina está incluída na obra de Cristo: segundo Mateus 8:17, que lê Isaías 53:4, Jesus levou na cruz as nossas enfermidades. O mesmo texto admite que às vezes a razão de uma aflição prolongada num crente piedoso não fica clara.
O tema nunca foi abstrato para ele. Ainda na reabilitação, ficou convencido de que Deus o curaria nesta vida, e continuou crendo nisso por mais de sessenta anos de paralisia. Chama a si mesmo de “prisioneiro da esperança” e de “milagre de preservação”. Na sua teologia do sofrimento, a dor tem propósito: mantém o orgulho baixo e a confiança em Deus alta (2 Coríntios 12:7-10) e forma o caráter do crente que persevera (Romanos 8:18-28).
Avivamento
A grande paixão de Adams, depois de Jesus e da Bíblia, é o avivamento. Seguindo Arthur Wallis e Martyn Lloyd-Jones, ele vê em Pentecostes o padrão de todo derramamento do Espírito, sempre precedido pela súplica de um remanescente que ora (Atos 1:14). A partir de James Burns, Revivals: Their Laws and Leaders (1909), descreve as “leis” do avivamento: ele é recorrente e não contínuo e vem depois de períodos de declínio. Em God, Fire & Revival (2016) estuda o avivamento das Hébridas, na Escócia, e em Revival (2010) defende que a Escritura promete um grande avivamento mundial antes da volta de Cristo. O site trata do tema em Ciclos de avivamento.
Diferenças com a declaração de fé do site
Na salvação, Adams e a declaração de fé do Diego concordam: eleição em Cristo, graça que vem antes e pode ser resistida, perseverança condicional. A declaração, porém, afirma a inteira santificação wesleyana, obra da graça posterior à regeneração que purifica o coração e o enche de amor perfeito. Nos textos dele, a ênfase passou para o batismo no Espírito acompanhado de línguas como revestimento de poder, e para a cura divina como provisão da expiação, doutrinas pentecostais que a declaração do site não inclui.
Obras principais
- The Teaching Role in the New Testament: Its Nature and Scope as a Function of the Developing Church (tese de doutorado, Universidade Baylor, 1976).
- The Full Life Study Bible (Zondervan, 1992), editor associado, com Donald C. Stamps como editor geral; edição brasileira: Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD, 1995).
- Full Life Bible Commentary to the New Testament (Zondervan, 1999), org. French L. Arrington e Roger Stronstad, comentários a Efésios e Hebreus; reeditado como Life in the Spirit New Testament Commentary (2003).
- Fire Bible: Global Study Edition (Life Publishers e Hendrickson, 2009), editor associado.
- Revival: Its Present Relevance & Coming Role at the End of the Age (Oasis House, 2010), com Rhonda Hughey.
- Tenacious Love: A Portrait of a Life Poured Out (Trinity House Press, 2013; nova edição em 2016).
- Wholeness Is Possible: A Paralytic Speaks Out (Trinity House Press, 2015).
- God, Fire & Revival: Supernatural Scenes & Enduring Principles: The Hebrides Revival (Oasis House, 2016), com Owen Murphy.
Livros em português
- Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD, 1995), notas de Donald C. Stamps, com J. Wesley Adams como editor auxiliar. Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento (CPAD, 2003; edição em dois volumes, 2017), org. French L. Arrington e Roger Stronstad, com o comentário de Adams a Efésios. Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- John Wesley Adams, “Bio”, johnwesleyadams.com (cópia do Internet Archive, 2023).
- John Wesley Adams, “Articles”, johnwesleyadams.com (cópia do Internet Archive, 2023): “Autobiographical I” a “VI”, adaptados de Tenacious Love; “Speaking in Tongues”; “Why Hebrews Is a New Testament Gold Mine”; “A Theology of Healing”; “A Theology of Suffering”; “The Pattern of Pentecost”; “Observable Revival Laws”.
- FireBible, “About us”, história do projeto da Bíblia de estudo.
- Amazon, “God, Fire & Revival”, descrição da obra e nota biográfica do autor.
- Goodreads, Wholeness Is Possible e Tenacious Love, descrição das obras.
- Accordance, “Life in the Spirit New Testament Commentary”, descrição da obra e lista de autores.
- “Lição 3: Eleição e predestinação”, Estudantes da Bíblia, 2020, com o trecho do Comentário Bíblico Pentecostal sobre Efésios 1:5.
- Donald Stamps: o missionário que escreveu as notas da Bíblia de Estudo Pentecostal, neste site.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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