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Alexandre Coelho: O editor da CPAD que ensinou aos jovens assembleianos a salvação oferecida a todos

Diego Gonçalves14 min de leitura2.732 palavras

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Neste texto

No domingo 19 de março de 2017, as classes de jovens das Assembleias de Deus em todo o Brasil abriram a revista Lições Bíblicas na lição 12 do trimestre, “A Igreja e a salvação dos perdidos”. O comentarista fazia aos alunos uma pergunta direta: “Vamos anunciar o evangelho apenas para descobrir quem já estava predestinado anteriormente para ser salvo?”. E respondia na linha seguinte: “Claro que não”. O autor era o pastor Alexandre Coelho, gerente de Publicações da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), e aquela lição resumia em linguagem de Escola Dominical o que o arminianismo afirma desde o século XVII: Deus quer a salvação de todos, Cristo morreu por todos, e a presciência divina não é um decreto que separa, sem critério revelado, os que se salvam dos que se perdem.

Vida

Formação

Alexandre Claudino Coelho, nome com que assinou a revista de jovens do primeiro trimestre de 2015, fez uma formação dividida entre as letras, o direito e a teologia. É licenciado em Letras pela Universidade Castelo Branco, bacharel em Direito pelo Centro Universitário da Cidade (UniverCidade), licenciado em Teologia pela Betel e pós-graduado em Teologia do Novo Testamento pela FAECAD, a faculdade ligada à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), onde depois passou a lecionar.

É pastor da Assembleia de Deus, e a própria CPAD o apresenta como “pastor, escritor e conferencista”.

Na CPAD

A CPAD, editora oficial da CGADB, publica as revistas Lições Bíblicas das Escolas Dominicais assembleianas. Coelho chegou à gerência de Publicações da casa, cargo que já ocupava em 2018 e continuava ocupando em 2025, e nessa função participa das decisões sobre o material didático da denominação. Em 4 e 5 de setembro de 2018, por exemplo, ele e Ronaldo Rodrigues de Souza, diretor executivo da CPAD, receberam o pastor Douglas Baptista, então presidente do Conselho de Educação e Cultura da CGADB, para discutir o material acadêmico e confessional que a Rede Assembleiana de Ensino adotaria nas suas escolas.

No CAPED do Centenário, congresso de professores da editora, em junho de 2024, ele tratou dos objetivos da Escola Dominical. O primeiro, disse, é ganhar almas, e por isso a classe bíblica precisa ter lugar para quem ainda não se converteu. O segundo é formar o caráter cristão, preparar o crente para o serviço e renovar a vida espiritual dos alunos. E lembrou aos professores: “Você pode aprender sem um professor, mas não pode ensinar se não tiver alunos”.

Os livros de apoio com Silas Daniel

A CPAD costuma lançar, ao lado de cada revista, um livro de apoio que aprofunda o tema do trimestre. Coelho escreveu três deles em parceria com Silas Daniel, chefe de Jornalismo da editora. Vencendo as aflições da vida acompanhou o trimestre de mesmo nome da revista de adultos, o terceiro de 2012, e trata da violência urbana, da morte, da pobreza dentro dos lares e do filho criado na igreja que se rebela. Os Doze Profetas Menores (2012) acompanhou a revista do quarto trimestre de 2012, comentada por Esequias Soares, e percorre os doze livros perguntando como Deus trata a infidelidade do seu povo, a injustiça social e o descaso com os necessitados. Fé e Obras: ensinos de Tiago para uma vida cristã autêntica (2014) acompanhou o estudo da Epístola de Tiago no terceiro trimestre de 2014 e trata do vínculo entre a fé que crê e as obras que mostram essa fé.

Comentarista da revista de jovens

A maior parte da obra própria de Coelho nasceu como comentário da revista Lições Bíblicas Jovens, e quase todos os trimestres viraram também livro de apoio. São sete trimestres até 2025:

  • 1º trimestre de 2015, Eu Creio: revelando ao mundo suas convicções cristãs: treze lições em forma de credo, de “Eu creio em Deus Pai” a “Eu creio na vida após a morte”.
  • 1º trimestre de 2017, A Igreja de Jesus Cristo: sua origem, doutrina, ordenanças e destino eterno: a doutrina da igreja, da Reforma Protestante à salvação dos perdidos.
  • 4º trimestre de 2018, O vento sopra onde quer: o ensino bíblico do Espírito Santo e sua operação na vida da Igreja: o movimento pentecostal, o batismo no Espírito Santo e os dons.
  • 4º trimestre de 2020, Os bons e maus exemplos: aprendendo com homens e mulheres da Bíblia: de Moisés e Débora a Judas e Barnabé.
  • 2º trimestre de 2022, O perigo das tentações: de Adão e Eva ao escape que Deus provê em 1 Coríntios 10.
  • 2º trimestre de 2024, O padrão bíblico para a vida cristã: caminhando segundo os ensinos das Sagradas Escrituras: doutrina e vida prática, do pecado às finanças.
  • 3º trimestre de 2025, A Liberdade em Cristo: vivendo o verdadeiro Evangelho conforme a carta de Paulo aos Gálatas: um comentário da carta, do falso evangelho às marcas de Cristo.

São 91 lições ao todo.

Pensamento

Um arminiano pentecostal

Coelho pertence à classe dos pentecostais arminianos, a mesma de Myer Pearlman, Stanley Horton e Antonio Gilberto. A evidência está nas suas próprias lições: ele rejeita a eleição incondicional, afirma que Cristo morreu por toda a humanidade, que a graça pode ser resistida e que o crente pode se afastar da fé. As revistas, escritas para a classe e não para o debate acadêmico, dispensam o rótulo “arminiano”, mas o conteúdo é o do arminianismo e o da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, que ele cita.

A salvação oferecida a todos

O ponto de partida é a vontade universal de Deus. Na lição de 2017, Coelho comenta 2 Pedro 3.9 e conclui que a palavra “todos” “não traz a ideia de uma salvação oferecida incondicionalmente a um pequeno grupo de pessoas escolhidas”. Em 2024 repete o argumento com Tito 2.11: “A expressão ‘todos’ não é reducionista nem restritiva”. A morte de Cristo, diz, tem poder para salvar todos os homens, desde que se arrependam e recebam a salvação pela fé.

A eleição é tratada pela presciência, como em Jacó Armínio. Deus sabe de antemão quem vai responder ao evangelho, “mas isso não significa que foi Deus que escolheu quem será salvo e quem não será”. Para Coelho, a presciência “é uma característica do intelecto divino e não traz consigo uma ação que inclui ou exclui pessoas”. Ele chama a doutrina contrária de interpretação “que tira o foco do amor de Deus na salvação dos perdidos”, e trata com respeito os que a defendem: são “cristãos piedosos”, mas o entendimento deles “vai de encontro ao amor de Deus”.

Livre-arbítrio e soberania

Coelho enfrenta a objeção de que o livre-arbítrio não está na Bíblia. A expressão não está, responde, mas o conceito está, como em Deuteronômio 30.19: “escolhe, pois, a vida”. O argumento dele é moral: se as nossas escolhas não fossem reais, “Deus seria injusto julgando-nos por decisões que não tomamos e por planos que não fizemos”. Contra a ideia de que o pecador apenas cumpre um desígnio de Deus, afirma que Deus não leva ninguém a cometer o que ele mesmo reprova.

Para explicar que a liberdade humana não diminui a soberania divina, usa uma imagem jurídica, própria de quem estudou Direito: um governante não perde a soberania porque um criminoso comete delitos no seu país; as leis continuam valendo e o malfeitor responde por elas. “A soberania de Deus não é afetada pelo livre-arbítrio humano”, escreve em 2017, e Deus, na sua soberania, responsabiliza o homem por suas escolhas.

Graça, pecado e resposta humana

Coelho afirma o pecado original: a natureza humana foi corrompida pelo pecado de Adão, “transmitido por Adão a toda a raça humana”, e o homem natural não pode agradar a Deus (Romanos 8.8). A salvação tem origem só em Deus, e “o homem não pode salvar a si mesmo”; as obras são uma “moeda de troca” insuficiente (Romanos 3.20). A conversão começa quando a pessoa é “convencida pelo Espírito Santo”, e ser transformado em filho de Deus “é somente pelo poder de Deus” (João 1.11-13). Por isso, diz em 2024, os atos de confessar e crer “são impulsionados pelo Espírito”.

Aqui convém medir as palavras dele com o arminianismo clássico (veja o estudo sobre a graça preveniente em Armínio). Coelho não usa o termo “graça preveniente”, a graça que vem antes da fé, alcança todos e liberta a vontade para que a pessoa possa crer. Ele fala do livre-arbítrio como “a capacidade dada aos seres humanos para fazer escolhas e tomar decisões até na esfera espiritual”, e chega a chamar o crer de ação “meramente humana”, embora impulsionada pelo Espírito. Armínio e a declaração de fé do Diego dizem a mesma coisa com mais cuidado: a vontade caída está presa, e só a graça a liberta para crer; a fé recebe e não acrescenta nada. A diferença está mais no vocabulário do que na doutrina, pois Coelho põe a iniciativa em Deus.

Justificação pela fé

No comentário de Gálatas (2025), Coelho expõe a justificação pela fé a partir de Abraão, que “foi justificado por ter crido no que Deus havia falado” (Gênesis 15.6). Ele dá uma razão curiosa para Deus escolher a fé, e não as obras: as obras dependem da capacidade de cada um, e como ninguém tem as mesmas condições, o critério das obras seria injusto, além de produzir orgulho. A fé coloca todos no mesmo lugar, pois “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11.32). E resume: “Na graça, recebemos o que não merecemos, e na misericórdia, não recebemos o que merecemos”.

Perseverança condicional

A advertência contra a apostasia atravessa toda a obra dele. Na lição sobre Saul (2020), Coelho mostra que o primeiro rei foi escolhido por Deus, confirmado por sinais e ungido por Samuel, e mesmo assim perdeu o reino pela desobediência: “O Deus que escolhe é o mesmo que pode rejeitar uma pessoa por causa de suas atitudes”. A conclusão é a da perseverança condicional: “Ser escolhido por Deus para uma obra ou ministério não nos isenta de andar de acordo com os padrões de Deus”.

Judas recebe tratamento parecido. Esteve perto de Jesus, mas nunca se rendeu a ele; ao lavar-lhe os pés e dar-lhe a ceia, Jesus lhe deu oportunidades de arrependimento, e Pedro, que também falhou, foi restaurado. Para Coelho, a traição estava profetizada, mas o suicídio não: “Judas poderia ter um destino diferente”. Em Gálatas, a pergunta de Paulo, “tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gálatas 3.3), vira a advertência central: “Não basta começar da forma correta; é preciso concluir a carreira de forma correta”. E na lição de 2024: “Não podemos viver uma vida de pecados, resistindo ao Espírito Santo e nos afastando, como consequência, da fé que uma vez nos foi dada”.

O pentecostal

Em O vento sopra onde quer (2018), Coelho expõe a doutrina assembleiana do batismo no Espírito Santo: um revestimento de poder para testemunhar de Cristo, distinto da conversão, do selo do Espírito (Efésios 1.13) e do fruto do Espírito, com o falar em línguas como evidência física inicial, conforme os três relatos de Atos 2, 10 e 19. Ele insiste que o batismo “não é designativo de espiritualidade” e que nenhum pentecostal pode se achar superior a outro cristão por causa dele. Contra os cessacionistas, que veem os dons como encerrados com os apóstolos, usa o argumento arminiano com ironia: “mesmo aqueles que condenam o livre-arbítrio, fazem uso dele para desacreditar o Movimento Pentecostal”.

Perto e longe da declaração de fé do Diego

Coelho e a declaração do Diego concordam na graça para todos, na expiação universal, na eleição pela presciência e na perseverança condicional. As diferenças estão em outros pontos. Na santificação, ele segue o esquema assembleiano de santificação posicional e progressiva, sem a inteira santificação wesleyana que a declaração do Diego afirma como segunda obra da graça. No batismo, defende a imersão como a forma ordenada por Jesus, enquanto a declaração aceita também a aspersão. Na escatologia, ensina o arrebatamento da Igreja conforme a doutrina das Assembleias de Deus, e a declaração é amilenista.

Obras principais

  • Os Doze Profetas Menores (com Silas Daniel, CPAD, 2012)
  • Fé e Obras (com Silas Daniel, CPAD, 2014)
  • Vencendo as aflições da vida (com Silas Daniel, CPAD, edição digital de 2014)
  • A Igreja de Jesus Cristo (CPAD, 2016)
  • O vento sopra onde quer (CPAD, 2018)
  • Os bons e os maus exemplos (CPAD, 2020)
  • O perigo das tentações (CPAD, 2022)
  • O padrão bíblico para a vida cristã (CPAD, 2024)
  • A Liberdade em Cristo (CPAD, 2025)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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