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César Moisés Carvalho: o pedagogo da CPAD que defende uma teologia pentecostal da experiência

Diego Gonçalves13 min de leitura2.669 palavras

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Neste texto

Em 2010, ao preparar uma palestra que daria na Alemanha, o pastor César Moisés Carvalho releu o material europeu que tinha reunido sobre a pós-modernidade. Até então ele conhecia o assunto pelos livros reformados que o combatiam e, por isso, o via com desconfiança. Na releitura percebeu que aquela filosofia valorizava duas coisas que os pentecostais sempre prezaram, a experiência e a vida em comunidade, e concluiu que “não havia motivo algum” para o pentecostalismo brigar com ela, como contou em 2017 ao blog Teologia Pentecostal. Sete anos depois da palestra, a mudança virou livro. Pentecostalismo e pós-modernidade (CPAD, 2017) reúne artigos escritos entre 1999 e 2016 em duas partes, com títulos que resumem a trajetória do autor: “O que escrevi antes de saber o que era Pós-Modernidade” e “O que venho escrevendo depois de aprender o que é Pós-Modernidade”.

Vida

De Goioerê ao Rio de Janeiro

César Moisés Carvalho nasceu em 1977 e foi criado em Goioerê, no noroeste do Paraná. Foi católico antes de se converter e, depois de convertido, leu a Bíblia inteira. Em 1992 começou um curso básico de teologia num núcleo aberto na cidade, e em 1999 publicou, por conta própria, uma História da Assembleia de Deus em Goioerê. Trabalhou também no rádio local, que o premiou como Comunicador 2000 em 1998.

Entre 2002 e 2005 cursou Pedagogia na Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (Fecilcam), hoje parte da Universidade Estadual do Paraná. O trabalho de conclusão, “Humanizando o processo de formação”, trata dos valores na educação, tema dos trabalhos que apresentou nas semanas de iniciação científica da faculdade.

A Educação Cristã da CPAD

O primeiro livro pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) saiu em 2005: Marketing para a Escola Dominical, que ele descreveu como “um novo paradigma da administração educacional cristã”. Em outubro de 2006, César assumiu a chefia do Setor de Educação Cristã da editora, no Rio de Janeiro, e ficou no cargo até 2018. Nesse período organizou, com a equipe, os Congressos Nacionais de Escola Dominical da CPAD, como o de Maceió (2010) e o do Rio de Janeiro (2012).

Vieram depois o romance infanto-juvenil O mundo de Rebeca (2007); Davi: as vitórias e as derrotas de um homem de Deus (2009), com José Gonçalves, Esdras Costa Bentho e outros autores; e Uma pedagogia para a educação cristã (2015). Recebeu duas vezes o Prêmio Areté, da Associação de Editores Cristãos, nas categorias Educação Cristã e Estudos Bíblicos. Escreveu também as Lições Bíblicas de jovens da CPAD sobre o Sermão do Monte (2017) e os milagres de Jesus (2018), acompanhadas de livros com o mesmo tema.

Em 2010 foi um dos autores da “Carta de Campinas”, manifesto da reflexão teológica pentecostal das Assembleias de Deus publicado no Mensageiro da Paz. Em janeiro de 2016 assinou a “Nota pública sobre debates teológicos entre calvinistas e arminianos”, que pede respeito nas discussões e afirma que as diferenças sobre a salvação não devem romper a comunhão cristã. De 2018 a 2020 chefiou o Setor de Livros da CPAD, como editor.

Professor e pesquisador

De 2007 a 2022, César lecionou no bacharelado em Teologia das Faculdades Evangélicas de Tecnologia, Ciências e Biotecnologia (FAECAD), no Rio de Janeiro, disciplinas como Filosofia da Religião, História do Pensamento Cristão e Teologia Contemporânea. Em 2010 e 2011 fez na PUC-Rio a especialização “Teologia cristã em diálogo: culturas e religiões”, com a monografia “O fenômeno religioso no pensamento pós-metafísico”.

O mestrado veio por um convite. O historiador Clínio de Oliveira Amaral, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), chamou César para falar sobre o fenômeno pentecostal num evento do Laboratório de Estudos dos Protestantismos (Labep) e, ao saber que ele não tinha pós-graduação stricto sensu, sugeriu que se candidatasse ao programa de História. César entrou em 2021 e defendeu em julho de 2023, sob orientação de Amaral, a dissertação A “ameaça mística”, sobre São João da Cruz (1542-1591). O trabalho examina o reformador carmelita, preso pelos próprios irmãos de ordem em 1577, e argumenta que até um místico fiel à doutrina da Igreja podia ser visto como ameaça, por causa da tensão entre carisma e instituição que atravessa a história do cristianismo.

Desde 2019 é investigador correspondente do Instituto de Cristianismo Contemporâneo da Universidade Lusófona, em Lisboa, e desde 2020 é pesquisador do Labep. Em 2022 passou a lecionar na Faculdade Cristã de Curitiba, com Teologia Sistemática, História do Cristianismo e Hermenêutica, e é doutorando em Educação na Universidade Federal do Paraná.

A teologia sistemático-carismática

Durante a pandemia de 2020, César escreveu com a filha, a jornalista Céfora Carvalho, a Teologia sistemático-carismática: a conexão pneumática entre as principais doutrinas da fé cristã, publicada em 2022 pela Thomas Nelson Brasil em dois volumes que somam mais de 1.800 páginas. Os autores disseram à revista Comunhão que muitos pentecostais acham que não fazem teologia e que os que chegam à academia costumam reproduzir teologias alheias à sua tradição. A obra percorre as doutrinas da teologia sistemática a partir da ação do Espírito Santo e quer mostrar que a experiência carismática acompanhou o povo de Deus desde o Antigo Testamento.

No mesmo período organizou, com Reginaldo Cruz, Pentecostalismo & teologia (Aviva, 2021) e prefaciou livros de colegas pentecostais, como Revestidos de poder (2018), de Gutierres Siqueira, e uma biografia de Myer Pearlman (2022). Em 2026, numa mesa-redonda do 1º Simpósio de Teologia Pentecostal da Faculdade Cidade Teológica Pentecostal, resumiu o que pensa dos jovens assembleianos que adotam o calvinismo: “Eu acredito em reformado pentecostal. Agora, pentecostal reformado, não acredito.”

Pensamento

Um pentecostal arminiano

César Moisés Carvalho é pentecostal arminiano. O centro da obra dele é a pneumatologia, a doutrina do Espírito Santo, mas quando trata da salvação ele fica do lado arminiano. Na Teologia sistemático-carismática, ele e Céfora observam que a doutrina calvinista da eleição pode parecer lógica dentro do sistema, apesar de “não fazer sentido para os pentecostais”, que têm “uma visão de eleição e predestinação bem diferentes”, e apresentam a ordem da salvação arminiana pelos cinco pontos que a resumem: depravação total, eleição condicional, expiação ilimitada, graça preveniente e perseverança condicional. Em 2019 ele já tinha escrito que as bases do pentecostalismo clássico são “formadas pela crença na expiação ilimitada e a experiência do Espírito Santo”.

A exposição segue as linhas do arminianismo clássico. A Queda tornou o ser humano escravo do pecado, e é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, que torna a pessoa capaz de crer ou de resistir. Os autores rejeitam a caricatura do arminiano que crê num livre-arbítrio ilimitado, ideia que “está mais ligada ao pelagianismo, heresia”. Sobre a eleição, a frase é direta: “Deus não decretou individualmente quem seria salvo nem mesmo criou pessoas com o objetivo de condená-las.” A eleição é condicionada à fé em Cristo, e a presciência de Deus é “absoluta não causativa”: Deus conhece todo o futuro sem que esse conhecimento cause as decisões humanas, o que afasta também o teísmo aberto. É a linha da Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio.

A experiência e a Escritura

O tema que atravessa a obra de César é a relação entre a experiência com Deus e a teologia. A experiência de existir está na base de toda reflexão teológica, e a própria Bíblia registra experiências de servos de Deus, como Abraão e Paulo, que encontraram Deus quando seguiam outros “dogmas”, que são construções humanas. Daí a fórmula da entrevista de 2017: “a experiência não está acima das Escrituras, mas acima do que se interpreta acerca delas”. A Escritura continua sendo a autoridade; abaixo da experiência ficam os sistemas que a interpretam.

Daí também o lugar que ele dá ao pentecostalismo entre o liberalismo e o fundamentalismo, que considera dois racionalismos: o liberal quer negar verdades bíblicas, e o fundamentalista quer prová-las. “O Pentecostalismo não é irracional, mas também não fecha com o racionalismo”, disse. O caminho que propõe é a narrativa. A maior parte da Bíblia é narrativa, e no mundo antigo a história contada já era ensino, como nas parábolas de Jesus. Em “A narrativa como um caminho hermenêutico para uma teologia pentecostal do Espírito Santo” (revista Azusa, 2014), ele pede uma teologia do Espírito que valorize a experiência sem se submeter a métodos que a contrariam. Esdras Costa Bentho descreveu o livro de 2017 como a passagem de um pensamento apologético e dogmático para uma hermenêutica da experiência, inspirada em Paul Ricoeur.

Contra a “calvinização” dos pentecostais

Em 2019, em meio ao debate sobre o “êxodo pentecostal” para as igrejas reformadas, César escreveu “10 pontos que esclarecem como o calvinismo/cessacionismo infiltrou-se em nosso meio e está ‘despentecostalizando’ o pentecostalismo”. O cessacionismo é a doutrina de que dons como profecia e línguas cessaram com os apóstolos. A explicação dele é histórica: muitas igrejas imitaram o neopentecostalismo e deixaram um vazio doutrinário, o batismo no Espírito ficou raro, e jovens mais escolarizados, envergonhados com os excessos, encontraram nos autores reformados respostas racionais e um inimigo comum. O resultado é um pentecostal que zomba de quem fala em línguas e duvida da profecia, “mas não esboça nenhuma dúvida em relação ao que ensina o Calvinismo”. No texto, ele rebate também a acusação de que o arminianismo é centrado no homem.

A crítica alcança o movimento da “cosmovisão cristã”. A expressão chegou aos pentecostais brasileiros pela própria CPAD, que publicou em 2000 E agora, como viveremos?, de Charles Colson e Nancy Pearcey, e poucos perceberam que ela vinha do neocalvinismo de Abraham Kuyper. Uma cosmovisão, diz ele, pretende ser “um catálogo de verdades prontas” que um grupo impõe aos outros. Ele desenvolveu o argumento num artigo de 2022 sobre o neocalvinismo no Brasil contemporâneo.

O Espírito que converte, capacita e santifica

Na Teologia sistemático-carismática, a obra do Espírito no crente aparece numa “tríplice atuação”: iniciação e conversão, capacitação e santificação. Na conversão, não são os argumentos do pregador que levam alguém a aceitar o evangelho, mas o Espírito, que convence do pecado (João 16:8-11) e faz nascer de novo (João 3:3-8). É ele também quem dá a certeza da salvação, e os autores citam Elienai Cabral: “Quem salva é Jesus e quem dá a certeza da salvação é o Espírito Santo”. A capacitação é o batismo no Espírito Santo, “revestimento de poder para cumprir o Ide de Jesus”. A santificação “é uma caminhada”, guiada pelo Espírito. Num artigo de 2021, César lembra ainda que, na Rua Azusa, a experiência do Espírito juntou negros e brancos, homens e mulheres.

Onde se afasta da declaração do site

Em três pontos César fala de lugares que a declaração de fé deste site não ocupa. O primeiro é o batismo no Espírito Santo como capacitação distinta da conversão, doutrina das Assembleias de Deus de que a declaração não trata. O segundo é a santificação: no esquema dele ela é uma caminhada contínua, enquanto a declaração, na linha de John Wesley, afirma também a inteira santificação, obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito. O terceiro é a cruz: os autores expõem as teorias da expiação sem escolher uma, e o site afirma a satisfação penal substitutiva. Na salvação, porém, os dois se encontram: Cristo morreu por todos, a graça vem antes e pode ser resistida, e a eleição é em Cristo, condicionada à fé. Sobre o que separa as duas tradições, veja metodistas e pentecostais.

Obras principais

  • História da Assembleia de Deus em Goioerê (edição do autor, 1999).
  • Marketing para a Escola Dominical (CPAD, 2005).
  • O mundo de Rebeca (CPAD, 2007).
  • Davi: as vitórias e as derrotas de um homem de Deus, com José Gonçalves, Esdras Costa Bentho e outros (CPAD, 2009).
  • Uma pedagogia para a educação cristã (CPAD, 2015).
  • O Sermão do Monte (CPAD, 2017).
  • Pentecostalismo e pós-modernidade: quando a experiência sobrepõe-se à teologia (CPAD, 2017; em espanhol, Pentecostalismo y posmodernidad, Patmos, 2018).
  • Milagres de Jesus (CPAD, 2018).
  • Pentecostalismo & teologia, organizado com Reginaldo Cruz (Aviva, 2021).
  • Teologia sistemático-carismática: a conexão pneumática entre as principais doutrinas da fé cristã, com Céfora Carvalho, 2 volumes (Thomas Nelson Brasil, 2022).
  • Avivamento em tempos de crise: fundamentos bíblicos, históricos e teológicos para o verdadeiro avivamento (Logos Publisher, 2023).
  • A “ameaça mística”: perseguição, exílio e cooptação dos místicos. O estudo de caso de São João da Cruz (1542-1591), dissertação de mestrado (UFRRJ, 2023).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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