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Kleber Maia: O pastor assembleiano que lê Armínio nas fontes

Diego Gonçalves13 min de leitura2.542 palavras

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Neste texto

Enquanto escrevia o seu livro sobre o pecado humano, o pastor Kleber Maia deixou o notebook ligado. Um adolescente da igreja passou, leu na área de trabalho o nome da pasta onde estavam os arquivos e perguntou, espantado: “O que é isto, pastor?”. A pasta se chamava “Depravação Total”. O episódio, que ele contou numa entrevista de 2020, resume o trabalho de Carlos Kleber Maia, pastor da Assembleia de Deus no Rio Grande do Norte: levar à igreja local uma doutrina que soa estranha para muita gente, com as palavras de Jacó Armínio e dos seus herdeiros. O livro saiu em 2015, na coleção Arminianismo da editora Reflexão.

Vida

Do sertão da Paraíba a Natal

Carlos Kleber Maia nasceu em 5 de julho de 1970, em Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba. A família do pai era da cidade, e a da mãe, do Ceará. O pai trabalhava no Banco do Brasil e era transferido com frequência, por isso Kleber passou a infância mudando de cidade: o interior do Piauí, Floresta, no sertão de Pernambuco, Bonito de Santa Fé, de novo na Paraíba, e por fim João Pessoa. Quando o pai se aposentou, a família foi viver num sítio em Assú, no Rio Grande do Norte.

Da mãe veio o gosto pela cultura nordestina. Ela gostava de literatura de cordel, de poesia matuta e de música sertaneja, e passou ao filho o costume de decorar e declamar poemas populares. Anos depois, ele ainda recitava de memória “O analfabeto” nas reuniões de trabalho e citava poetas potiguares, cearenses e paraibanos entre os preferidos.

Em 1989, Kleber se mudou sozinho para Natal. Em Assú já trabalhava com computadores, e uma empresa de software da capital, que conhecera o seu trabalho, o convidou para programar. Morou num pensionato, prestou vestibular e, como o curso de Ciência da Computação era diurno e ele precisava trabalhar, escolheu Ciências Contábeis, que era à noite.

Propagandista no interior potiguar

No fim de 1994, já casado e com o primeiro filho, trocou o trabalho instável de programador autônomo por uma vaga de propagandista no laboratório farmacêutico Aché, onde começou em janeiro de 1995. Durante anos percorreu o interior do Rio Grande do Norte e a periferia de Natal visitando consultórios, num carro dividido com um colega. Em 2002, quando deu o seu depoimento ao Museu da Pessoa, contou desses anos de estrada, do médico de Canguaretama que o recebia no alpendre entre macacos e papagaios às paródias de músicas conhecidas que a equipe cantava nos lançamentos do laboratório.

O ministério pastoral começou nesse mesmo período. Kleber é pastor desde 1999, primeiro em diversas congregações da Assembleia de Deus em Natal e, desde 2015, em Galinhos, no litoral norte do estado. É ministro da CEMADERN, a convenção de ministros da Assembleia de Deus no Rio Grande do Norte. O tema do trabalho, que ele conheceu por dentro antes de se dedicar ao pastorado, rendeu o livro A Bíblia e o trabalho (2014), publicado de forma independente, e o artigo “As relações trabalhistas no pensamento paulino”, na revista Manual do Obreiro (2016).

Formação teológica e ensino

A formação teológica veio com o ministério já em andamento. Kleber se graduou em Teologia pela Faculdade de Teologia Integrada em 2008, com um trabalho de conclusão sobre a soteriologia dos Pais da Igreja, isto é, o que os primeiros escritores cristãos ensinaram sobre a salvação. Entre 2011 e 2012 fez a especialização em Teologia do Novo Testamento Aplicada na Faculdade Teológica Batista do Paraná, e entre 2018 e 2019 o mestrado profissional em Teologia nas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR), com ênfase em estudo e ensino da Bíblia. A dissertação, orientada por Claiton André Kunz, tem o título O ensino parabólico de Jesus direcionado ao propósito do Reino de Deus: em busca de uma prática responsiva.

Foi professor durante sete anos na Escola de Teologia da Assembleia de Deus em Parnamirim (ETAP) e durante cinco na Escola Teológica da Assembleia de Deus em Natal (ESTEADEB), onde deu disciplinas de teologia sistemática e de teologia bíblica. As suas áreas de estudo são a cristologia, a pneumatologia (a doutrina do Espírito Santo), a teologia arminiana e a exegese do Novo Testamento. Desde 2014 mantém no YouTube o canal Graça e Poder, sobre doutrina cristã; uma das suas aulas trata do socinianismo, a corrente que negava a Trindade, e das suas controvérsias com o arminianismo.

O escritor arminiano

A produção arminiana de Kleber começou na internet. Em outubro de 2015, o site Arminianismo.com publicou o seu artigo “A maior de todas as blasfêmias”, sobre a pergunta se Deus é o autor do pecado. No mesmo ano saiu Depravação total, o segundo título da coleção Arminianismo da Reflexão, uma série de livros introdutórios em que também saiu Pelagianismo e semipelagianismo, de Ivan de Oliveira. Kleber recomendou à editora a publicação de Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, cuja publicação em português ele considera o marco do crescimento da literatura arminiana no país. Um texto dele sobre a vida de Armínio foi traduzido para o espanhol e circulou no site Arminianismo en Español.

Em janeiro de 2016, assinou a “Nota pública sobre debates teológicos entre calvinistas e arminianos”, ao lado de cerca de quarenta pastores, teólogos e escritores de várias denominações, entre eles o presbiteriano Augustus Nicodemus Lopes. A nota condenava os ataques pessoais e as publicações anônimas nas redes sociais, defendia o debate respeitoso e afirmava que a divergência sobre a salvação não rompe a comunhão entre os que creem na salvação somente pela graça, somente pela fé e somente em Cristo.

Durante o mestrado, publicou dois artigos na Revista Batista Pioneira, da Faculdade Batista Pioneira, de Ijuí (RS), sobre as parábolas de Jesus (2019), um deles com o orientador. Em junho de 2020 veio na mesma revista “Os cinco pontos do arminianismo clássico”, a sua exposição mais longa da teologia de Armínio. No mesmo ano escreveu para o portal Good Prime sobre a graça e a eleição no arminianismo. Kleber é casado e pai de dois filhos.

Pensamento

Um arminiano clássico dentro do pentecostalismo

Kleber Maia é pentecostal arminiano: pastor da Assembleia de Deus, ele defende por escrito o arminianismo clássico, o de Armínio e dos remonstrantes, e diz que essa é “a verdadeira doutrina que professamos” (entrevista a O Cristão Pentecostal, 2020). O método é o que dá o tom ao trabalho dele. Em “Os cinco pontos do arminianismo clássico”, ele responde a um artigo publicado na mesma revista em 2019 que apresentava o arminianismo como uma doutrina centrada no livre-arbítrio, próxima de Pelágio. A resposta vai às Obras de Armínio na edição brasileira da CPAD (2015) e a estudiosos como Carl Bangs, Keith Stanglin e Robert Picirilli. Kleber cobra do adversário o cuidado de Armínio, que escreveu a Francisco Júnio que “o significado equivocado sempre é a mãe do erro”. O artigo segue o acróstico FACTS, proposto por Brian Abasciano: libertos pela graça, expiação para todos, eleição condicional, depravação total e segurança em Cristo.

Antropologia pessimista, soteriologia otimista

Kleber repete nos seus textos uma fórmula: o arminianismo sustenta uma antropologia (a doutrina do ser humano) pessimista, contrastada por uma soteriologia (a doutrina da salvação) otimista. O ser humano caído está em depravação total, e Deus enviou o Filho para oferecer salvação a todos e salvar todo aquele que crê.

Na entrevista de 2020, ele explica que o termo não quer dizer que as pessoas sejam tão más quanto poderiam ser, mas que todos estão mortos espiritualmente, que corpo, alma e espírito estão comprometidos pelo pecado e que nada do que o ser humano faz lhe dá mérito diante de Deus. No livro, acrescenta que, nesse estado, a pessoa não pode salvar-se por suas forças, nem arrepender-se, nem sequer desejar buscar a Deus. Armínio, lembra Kleber, preferia falar em “inabilidade total” e dizia que, sem a graça, o livre-arbítrio para o bem está “aprisionado, destruído e perdido”. No livro, ele usou apenas autores arminianos, de Armínio a John Wesley e aos teólogos de hoje.

Daí a insistência dele na diferença entre arminianismo e semipelagianismo, a doutrina de que o ser humano dá o primeiro passo e a graça o ajuda depois. Kleber aponta essa confusão nos próprios púlpitos arminianos, no apelo evangelístico que diz “só depende de você!” ou manda o pecador “dar um passo para Jesus”. Lembra também um dado histórico: os remonstrantes afirmaram a incapacidade humana com mais força que o Sínodo de Dort, que deixou ao homem caído “um vislumbre de luz natural”. Nesse ponto, diz ele, calvinistas e arminianos concordam que o homem está morto no pecado; a grande divergência está na causa da Queda.

A graça que vem antes

A saída dessa incapacidade é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer decisão humana. Kleber a descreve como obra pessoal do Espírito Santo, e não uma força impessoal, que age primeiro só da parte de Deus, convence do pecado e liberta a vontade escravizada para que a pessoa possa crer. O ser humano é livre para resistir a essa graça, mas não para iniciá-la. A fé é ato de quem crê, mas a capacidade de crer, o conteúdo da fé e a persuasão vêm de Deus; por isso a fé é causa instrumental da salvação, e não causa meritória. Seguindo Olson, Kleber escreve que a cooperação da vontade humana com a graça “é simplesmente a não resistência à própria graça”, e que o sinergismo de Armínio é aquele em que Deus toma toda a iniciativa e fornece todos os meios.

A eleição, nessa leitura, é cristocêntrica. Armínio fundamenta a predestinação em Cristo, o eleito do Pai, e Deus elege para a salvação os que, pela graça, creem e perseveram. A expiação alcança todos: Kleber recolhe os textos em que Cristo morre pelo “mundo” e acompanha Armínio na conclusão de que a palavra nunca significa apenas os eleitos.

Deus não é o autor do pecado

O artigo de 2015 trata da pergunta mais dura da controvérsia. Blasfemar, explica Kleber, é diminuir a glória de Deus, e Jesus chamou de blasfêmia contra o Espírito Santo atribuir ao diabo a obra de Deus (Mateus 12.24). Fazer da Queda o cumprimento de um decreto divino tornaria Deus o autor do pecado, ideia que Armínio chamou de summa blasphemia, a maior de todas as blasfêmias. A Queda foi um ato contingente, isto é, que podia não ter acontecido, causado pela vontade humana e pela sedução do diabo; Deus a permitiu ao não suprimir a liberdade que tinha dado. Kleber apoia a conclusão no Concílio de Orange (529), que condenou o semipelagianismo e também o ensino de que alguém seja predestinado ao mal, e no primeiro artigo da Remonstrância. O artigo fecha com uma pergunta: os homens não deveriam “temer e tremer antes de afirmar que Deus é o autor do pecado”?

Segurança e perseverança

Sobre a perseverança, Kleber segue a Declaração de Sentimentos: quem está enxertado em Cristo tem, pela graça do Espírito, forças suficientes para vencer o pecado, o mundo e o diabo, e pode deixar esta vida sem medo. Ao mesmo tempo, a fé que salva precisa perseverar, e Armínio distingue o crente do eleito: todo eleito é crente, mas só o crente que persevera é eleito. Armínio deixou em aberto, na Declaração, se a apostasia de fato acontece, mas, como mostram os estudos recentes que Kleber acompanha, tinha-a por possível. A mesma ideia aparece no estudo sobre as parábolas: as imagens de porta fechada, trevas e ranger de dentes advertem também os que já entraram no Reino a perseverar na fé e na obediência, e o anúncio do juízo é, para ele, “uma manifestação da misericórdia de Jesus”, um convite ao arrependimento. Da ignorância dessa doutrina, diz ele, nascem o legalismo de quem pensa merecer a salvação e a falsa segurança de quem se crê salvo sem fé nem fidelidade.

Perto da declaração de fé do Diego

Na soteriologia, a coincidência com a declaração de fé do Diego é grande: depravação total, graça preveniente resistível, expiação para todos, eleição em Cristo, fé que recebe sem merecer e perseverança condicional. A ênfase de Kleber é a de Armínio e dos remonstrantes, enquanto a declaração do Diego, de tendência wesleyana, acrescenta a inteira santificação, a graça recebida pela fé que purifica o coração e o enche de amor perfeito.

Obras principais

  • A Bíblia e o trabalho (edição do autor, 2014).
  • “A maior de todas as blasfêmias”, artigo (Arminianismo.com, 2015).
  • Depravação total (Reflexão, 2015), coleção Arminianismo.
  • “As relações trabalhistas no pensamento paulino”, Manual do Obreiro, v. 1 (2016).
  • “As parábolas de Jesus: uma estratégia de comunicação dos princípios do Reino de Deus”, com Claiton André Kunz, Revista Batista Pioneira, v. 8, n. 1 (2019).
  • “A exclusão do Reino de Deus nas parábolas de Jesus”, Revista Batista Pioneira, v. 8, n. 2 (2019).
  • “Os cinco pontos do arminianismo clássico”, Revista Batista Pioneira, v. 9, n. 1 (2020).
  • “A graça divina no arminianismo” e “A eleição para a salvação no arminianismo”, artigos (Good Prime, 2020).
  • Doutrina prática, livro.

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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