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HistóriaTeólogos arminianos3 de 71

José Gonçalves Salvador: o pastor metodista que explicou Armínio e Wesley aos brasileiros

Diego Gonçalves13 min de leitura2.639 palavras

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Neste texto

No fim da década de 1950, um pastor metodista que ensinava na Faculdade de Teologia de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, recebeu cartas de amigos com a mesma queixa: os metodistas brasileiros quase nada sabiam do arminianismo e atribuíam a ele e a Wesley ideias que não eram deles. José Gonçalves Salvador foi conferir. Conversou com dezenas de pessoas de várias denominações e leu a imprensa. Num artigo, encontrou a afirmação de que o metodismo não dava importância à graça de Deus e de que, sendo episcopal e arminiano, era por isso mesmo um sistema papal. A resposta veio num livro pequeno, Arminianismo e Metodismo: subsídios para o estudo da História das Doutrinas Cristãs, publicado pela Junta Geral de Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil. O mesmo pastor se tornaria, anos depois, um dos historiadores mais citados sobre os cristãos-novos no Brasil colonial.

Vida

De Lins a Juiz de Fora

José Gonçalves Salvador nasceu em 8 de setembro de 1916, em Lins, no centro-oeste paulista, filho de imigrantes portugueses de Coimbra que chegaram ao Brasil durante a Primeira Guerra Mundial. O pai, Elias dos Anjos Gonçalves Salvador, era comerciante. Fez o primário e o ginásio no Instituto Americano de Lins, escola metodista, até dezembro de 1935.

Em 1936 entrou no curso de Ciências e Letras do Instituto Granbery, da Igreja Metodista, em Juiz de Fora, Minas Gerais, e se formou em 1938. No ano seguinte concluiu Teologia na Faculdade Metodista. Casou-se com a colega de turma Alice Pereira do Lago, com quem teve três filhos.

Pastor no interior

Salvador entrou no ministério metodista em 1940. Até 1948 pastoreou igrejas em Pirajuí, Guarantã, Pirassununga, Limeira, Promissão e Birigui, no interior paulista, e em Poços de Caldas, no sul de Minas.

Professor em Rudge Ramos

Em 1949 passou a ensinar na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, em Rudge Ramos, a instituição que deu origem à atual Universidade Metodista de São Paulo. Ficou ali até 1968, como professor, tesoureiro, diretor do internato e organizador de campanhas financeiras.

Os primeiros livros tratavam da igreja dos primeiros séculos: O Didaquê ou Ensino do Senhor através dos Apóstolos (1957), sobre o manual cristão que estudamos em Didaquê: como vivia a primeira geração após os apóstolos, e Vida e Epístolas de Clemente Romano (1959). Entre os dois veio Arminianismo e Metodismo (1958), com prefácio do bispo César Dacorso Filho.

Enquanto ensinava, Salvador voltou aos bancos da universidade. Concluiu os cursos de História e Geografia na Universidade de São Paulo em 1958 e defendeu o doutorado em Ciências Humanas na mesma universidade em 1967. Em 1963 participou do V Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros, em Coimbra, a cidade de onde a família tinha saído.

A carreira em Rudge Ramos terminou de forma abrupta. Depois de 1964, a Igreja Metodista viveu um choque entre a liderança conservadora e os grupos que defendiam o engajamento social da igreja, e o choque chegou ao auge em 1968: os seminaristas entraram em greve, a liderança fechou a faculdade e o II Concílio Geral Extraordinário, em setembro, ratificou a decisão. No prefácio da sua história do metodismo, Salvador lembra que a greve foi seguida do fechamento do educandário “e a exoneração dos mestres, um dos quais fui eu”.

O historiador dos cristãos-novos

A tese de doutorado virou livro em 1969: Cristãos-novos, jesuítas e Inquisição: aspectos de sua atuação nas Capitanias do Sul, 1530-1680, pela editora Pioneira, com prefácio de Sérgio Buarque de Holanda. Cristãos-novos eram os judeus convertidos, muitas vezes à força, ao catolicismo em Portugal e na Espanha, e os seus descendentes, que a Inquisição vigiava por suspeita de praticarem o judaísmo às escondidas. Dizia-se que a presença deles nas capitanias do sul tinha sido nula, por causa da pobreza da região. Salvador juntou documentos esparsos no Brasil e pesquisou em arquivos fora do país para mostrar o contrário: tratou da entrada de cristãos-novos no clero, inclusive entre os dominicanos, dos cargos públicos que ocupavam, da vigilância do Santo Ofício e da atitude dos jesuítas diante deles.

Vieram depois Os cristãos-novos: povoamento e conquista do solo brasileiro, 1530-1680 (1976), premiado pelo PEN Clube de São Paulo; Os cristãos-novos e o comércio no Atlântico meridional (1978); Os magnatas do tráfico negreiro (1981); e Os cristãos-novos em Minas Gerais durante o ciclo do ouro (1992), com novas temporadas de pesquisa em Portugal em 1970 e 1977. Em 1979 recebeu o Prêmio Erudição da Academia Brasileira de Letras, e ocupou a cadeira 40 da Academia Paulista de História.

Os especialistas continuam a usar esses livros. O medievalista Nachman Falbel, da USP, chamou de “trabalhos fundamentais” os estudos de Salvador sobre a capitania de São Vicente. Anita Novinsky, historiadora da USP e especialista na Inquisição, registrou que, fora as “profundas e exaustivas pesquisas genealógicas” dele, a historiografia quase nada tinha de científico sobre os cristãos-novos de Minas. A mesma autora discordou de uma tese central de Os magnatas do tráfico negreiro: para ela, Salvador identificou os grandes traficantes de escravos como cristãos-novos com base nos sobrenomes, e os sobrenomes dos cristãos-novos também eram comuns entre os cristãos-velhos.

O historiador do metodismo

A partir de 1969, Salvador voltou ao pastorado, em Campo Belo, na capital paulista, em Cunha, no Vale do Paraíba, em Rudge Ramos e em Santo Estêvão. Em 1980, a Universidade Metodista lhe deu o título de professor emérito.

Em 1982 saiu o primeiro volume da História do Metodismo no Brasil, que vai de 1835 à proclamação da República, em 1890. No prefácio, ele escreveu: “Menosprezar o passado é prova de incipiência e de ingratidão”, e esperava que outros historiadores continuassem o trabalho.

Em 1987 formou-se em Direito em São Bernardo do Campo, que em 1993 lhe deu o título de cidadão são-bernardense. Aposentou-se em 1995, ano da autobiografia Do amanhecer ao pôr do sol. O último livro, Vozes da História, é de 2001. Morreu em 30 de junho de 2006, aos 89 anos, e pouco depois uma escola municipal de São Bernardo do Campo recebeu o seu nome.

Pensamento

Um wesleyano que estudou Armínio

Salvador é um teólogo wesleyano. Escreveu como pastor e professor da Igreja Metodista do Brasil, citando os Artigos de Religião metodistas, os sermões de John Wesley e o Compêndio de Teologia Cristã de William Burt Pope. Arminianismo e Metodismo defende a linha que vai de Jacó Armínio a Wesley: graça universal, expiação universal, graça que pode ser recusada, salvação condicionada à fé, possibilidade de cair da graça e perfeição cristã. Ao mesmo tempo, o livro insiste em que o metodismo não é simples continuação do arminianismo holandês. Para Salvador, Wesley chegou lá quase sem contato com os remonstrantes, e o metodismo é “um sistema teológico peculiar”, “nem arminiano inteiramente e nem calvinista”.

Os capítulos sobre a Holanda passam pela Remonstrância, pelo Sínodo de Dort, pela defesa de Simão Episcópio e pelo exílio de Hugo Grócio; os últimos comparam Armínio e Wesley ponto por ponto.

A graça vem primeiro

O ponto de partida do livro é a graça. “A doutrina da graça é fundamental em todo o metodismo”, escreve Salvador na introdução, contra quem dizia o contrário. Na conclusão, lista o que o metodismo tem em comum com o calvinismo: a corrupção da natureza humana depois da queda, pela qual toda a raça caiu com Adão, e “a absoluta necessidade da graça de Deus, sem a qual o homem é incapaz de buscar a salvação”. E acrescenta: “A iniciativa é de Deus e também a sua realização”.

Ele separa Armínio de Pelágio com cuidado. Pelágio ensinava que o pecado de Adão atingiu só a Adão. Armínio, diz Salvador, estava mais perto de Agostinho: o pecado envolveu toda a raça, e só pela graça o ser humano pode ser regenerado. Para Armínio, a graça é “a ação operante do Espírito divino” junto ao homem, dom gratuito que Deus reparte a todos e que pode ser recusado, como no lamento de Jesus sobre Jerusalém em Mateus 23:37. Para os wesleyanos, acrescenta, é o Espírito Santo quem toma a iniciativa, iluminando e persuadindo a pessoa. É a graça preveniente, a graça que vem antes.

Predestinação, certeza e justificação

Sobre a eleição, Salvador apresenta Wesley como mais distante do calvinismo que o próprio Armínio. Cita o sermão Sobre a predestinação: Deus vê tudo “através de um eterno agora”, e a Escritura fala de plano e de presciência em Deus por condescendência com a nossa fraqueza. Daí a eleição no sentido wesleyano: “todo o que crer será salvo; o que não crer, será condenado”. Cristo morreu por todos, e Salvador cita 1 João 2:2: ele “é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro”.

A doutrina que ele mais destaca no metodismo é a certeza da salvação. A partir de Romanos 8:16, ensina que o crente pode saber que é filho de Deus pelo duplo testemunho, o do próprio espírito e o do Espírito Santo. Contra o Sínodo de Dort, que reservava a segurança aos eleitos, o metodismo a oferece a todo crente.

Na justificação, Salvador mostra Armínio de acordo com luteranos, calvinistas e metodistas: Cristo é a causa meritória, e a fé, a causa instrumental. Lembra Aldersgate, em 24 de maio de 1738, quando Wesley sentiu que confiava “em Cristo, Cristo somente para a salvação”.

Perfeição cristã

O último ponto da comparação é a santificação. O novo nascimento é só o começo, e a vida cristã é crescimento contínuo em santidade (Filipenses 3:12-14). Wesley ensinou ainda a inteira santificação, ou perfeição cristã: uma obra da graça que pode ser recebida num instante, nesta vida, e enche o coração de amor perfeito, sem livrar o crente da ignorância, do erro nem da tentação. Salvador lembra que os cânones da Igreja Metodista do Brasil perguntavam ao candidato ao presbiterado: “Caminhais em demanda da perfeição em Jesus Cristo e vos estais esforçando para alcançá-la?” E cita Armínio: ninguém a alcança sem o auxílio de Cristo.

O livro termina com o metodismo como fé que sai para a rua. Salvador aprova quem chamou o movimento wesleyano de “arminianismo agressivo”, porque a mensagem universal da graça levou os pregadores às praças, às minas e aos cortiços.

Onde ele difere da nossa declaração de fé

Salvador afirma a corrupção da natureza humana e a necessidade absoluta da graça, como a nossa declaração de fé. Mas descreve a salvação como “obra divino-humana” e usa a imagem do doente que precisa tomar o remédio receitado pelo médico: “a graça de Deus só completa sua obra quando o homem diligencia em secundá-la”. Em outro trecho escreve que, depois de Deus fazer o que lhe cabia, “resta ao homem fazer a sua parte”. Nós preferimos dizer que a salvação é obra de Deus do começo ao fim e que a fé, possibilitada pela graça, não acrescenta nada: apenas recebe.

A leitura que ele faz dos arminianos holandeses também pede um reparo. Seguindo historiadores do século XIX, como Hagenbach e Pope, Salvador atribui a eles a ideia de que a natureza humana ficou só enfraquecida pela queda. Isso vale para remonstrantes posteriores, como Limborch. Armínio escreveu que o livre-arbítrio, para o verdadeiro bem, está “aprisionado, destruído e perdido” (Disputas públicas XI), como mostramos em A graça preveniente em Armínio. E Salvador chama de determinismo a eleição condicional segundo a presciência, o quarto decreto da Declaração de Sentimentos, que nós entendemos como eleição em Cristo, condicionada à fé.

Obras principais

  • O Didaquê ou Ensino do Senhor através dos Apóstolos (1957; nova edição em 1993)
  • Arminianismo e Metodismo: subsídios para o estudo da História das Doutrinas Cristãs (Junta Geral de Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil, 1958)
  • Vida e Epístolas de Clemente Romano (1959)
  • Cristãos-novos, jesuítas e Inquisição: aspectos de sua atuação nas Capitanias do Sul, 1530-1680 (Pioneira, 1969)
  • Os cristãos-novos: povoamento e conquista do solo brasileiro, 1530-1680 (Pioneira, 1976)
  • Os cristãos-novos e o comércio no Atlântico meridional (Pioneira, 1978)
  • Este homem confiou no Brasil e nos brasileiros (1978), biografia de Clement Evans Hubbard
  • Os magnatas do tráfico negreiro: séculos XVI e XVII (Pioneira/Edusp, 1981)
  • História do Metodismo no Brasil, vol. 1: Dos primórdios à proclamação da República, 1835-1890 (Imprensa Metodista, 1982)
  • Os cristãos-novos em Minas Gerais durante o ciclo do ouro (Pioneira, 1992)
  • A Capitania do Espírito Santo e seus engenhos de açúcar (1993)
  • Do amanhecer ao pôr do sol: autobiografia resumida (1995)
  • Vozes da História (2001)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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