
HistóriaTeólogos arminianos2 de 65
Asa Shinn: O pregador de fronteira que defendeu a reforma leiga e o arminianismo metodista
Neste texto
- Vida
- Infância na fronteira
- Conversão e itinerância
- A reforma metodista
- Líder da Igreja Metodista Protestante
- A última crise
- Pensamento
- Um metodista arminiano
- A graça que devolve a todos o poder de responder
- A bondade de Deus e a soberania
- Onde ele se afasta do arminianismo clássico
- Teologia e governo da igreja
- Obras principais
- Para aprofundar
Numa tarde de maio de 1828, em Pittsburgh, a Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal julgava a apelação de dois pastores expulsos pela Conferência de Baltimore por ler e recomendar o Mutual Rights, periódico que pedia a presença de leigos no governo da igreja. Os dois entregaram a causa a Asa Shinn. Ele almoçou quase em silêncio e, às duas horas, falou diante de 177 delegados e de uma galeria cheia. Quando terminou, um pregador da Nova Inglaterra confessou a George Brown, que tomava notas, que detestava Shinn, mas nunca tinha ouvido um argumento como aquele. Na manhã seguinte, uma maioria de cerca de vinte votos, combinada na véspera, manteve as expulsões. No ano seguinte Shinn deixou a igreja em que tinha pregado por quase três décadas e ajudou a fundar a Igreja Metodista Protestante.
Vida
Infância na fronteira
Asa Shinn nasceu em 3 de maio de 1781, em Nova Jersey, filho de quacres de poucos recursos. Em 1788 a família mudou-se para o interior montanhoso da Virgínia e, em 1795, para o condado de Harrison, no oeste da Virgínia (hoje Virgínia Ocidental), às margens do rio Monongahela. Toda a instrução que ele teve na infância veio de um antigo marinheiro que tinha perdido uma perna e dava aulas onde encontrava alunos.
Por volta dos quinze anos, ao passar entre homens que jogavam ferraduras, foi atingido na cabeça e teve o crânio fraturado. Uma trepanação o salvou, mas a lesão deixou uma fragilidade que, na opinião dos médicos, contribuiu para as crises mentais da vida adulta. Na mesma época voltou bêbado para casa numa noite. De manhã, o pai lhe entregou as roupas e disse que procurasse outra casa, porque não queria debaixo do seu teto quem envergonhasse a família. O rapaz chorou, prometeu nunca mais beber e foi perdoado.
Conversão e itinerância
Em 1798, aos dezessete anos, Shinn converteu-se sob a pregação de Robert Manly, um dos itinerantes metodistas que pregavam na casa de seu pai. O presbítero presidente do distrito lhe ofereceu, sem que ele pedisse, a licença de exortador e logo depois a de pregador. Em 1801 foi admitido na Conferência de Baltimore e enviado ao circuito de Redstone. Sabia pouco e perguntava muito: viu a primeira gramática inglesa da vida nas mãos de um colega, comprou um exemplar e com o tempo tornou-se um escritor elegante.
Os anos seguintes foram de fronteira. No circuito de Shenango cavalgava quase cinquenta quilômetros sem ver uma casa; em 1803 foi abrir um circuito no vale do Hocking, no Ohio, onde passou dois meses com febre; em 1804, em Guyandotte, foi ameaçado com um chicote de cavalo. Seguiram-se dois anos no Kentucky. Nessa época casou-se com Phebe Barnes, do condado de Monongalia.
Em 1809 foi enviado a Baltimore como colega do futuro bispo Robert R. Roberts, e em 1813 e 1814 serviu em Georgetown, no Distrito de Colúmbia. Estudava com afinco a Bíblia, a história, a filosofia moral e os poetas. Em 1813 publicou em Baltimore o Essay on the Plan of Salvation, de mais de quatrocentas páginas. No mesmo ano perdeu dois filhos pequenos e teve a primeira crise mental. Também em 1813, numa reunião campal perto de Baltimore, o jovem George Brown ouviu Shinn pregar contra a incredulidade e entregou ali a vida a Cristo. Brown seria pastor, amigo dele por quarenta anos e um dos líderes da nova igreja.
Shinn recuperou-se, mas a doença ditou o ritmo dos anos seguintes. Foi presbítero presidente do distrito de Monongahela em 1818 e 1819 e, em 17 de janeiro de 1820, perdeu a esposa, que lhe deixou quatro filhos. Veio a segunda crise. Em 1825 casou-se com Mary B. Gibson, de Pittsburgh, mãe do seu filho Thornton, e foi nomeado presbítero presidente do distrito de Pittsburgh.
A reforma metodista
Desde 1820 um grupo de pastores e leigos pedia que os presbíteros presidentes fossem eleitos, e não nomeados pelos bispos, e depois que os leigos tivessem representantes nas conferências. Em 1824 começou a circular o Mutual Rights, e Shinn tornou-se o seu autor mais volumoso. Escreveu primeiro com o pseudônimo “Bartimeus”, pedindo um debate franco em lugar de ameaças e acusações de heresia. Em 26 de junho de 1826 assinou com o próprio nome: continuar escondido seria entregar o entendimento, a consciência e a Bíblia em troca da amizade dos colegas. Previu também que, se a igreja não ouvisse os reformadores, viria a divisão. Quando espalharam que ele estava louco, respondeu que Bartimeus recebia a sugestão com um sorriso e esperava que alguém respondesse aos seus argumentos de louco.
Entre 1827 e 1829 vieram as expulsões, em Baltimore, em Cincinnati e em outras cidades. Depois da derrota de 1828, Shinn surpreendeu a todos ao propor a aprovação do relatório da Conferência Geral contra os pedidos de reforma. Os amigos atribuíram o gesto ao esgotamento: era o começo da terceira crise, que o afastou por cerca de seis meses. Recuperado, analisou o relatório em detalhe, e John Emory, futuro bispo, respondeu a ele em 1830.
Em 1829 os reformadores de Pittsburgh o chamaram para pastoreá-los, e ele deixou a Igreja Metodista Episcopal. Em outubro daquele ano, em Cincinnati, presidiu a primeira conferência metodista não episcopal a oeste dos montes Allegheny. Participou da convenção de Baltimore que, em 1830, organizou a Igreja Metodista Protestante, sem bispos e com leigos nas conferências. Naquele ano examinou e licenciou para pregar o jovem Ancel H. Bassett, que mais tarde escreveria a história da denominação.
Líder da Igreja Metodista Protestante
Na nova igreja, Shinn foi pastor em Cincinnati, Pittsburgh e Allegheny City e presidente da Conferência de Pittsburgh, criada em 1833. Em 1834 foi eleito, com Nicholas Snethen, editor do Methodist Protestant, em Baltimore. O comitê editorial decidiu calar sobre a escravidão, e Shinn discordou se isso significasse “suprimir a verdade ou fugir da investigação”. O conflito terminou com a sua saída do cargo.
Presidiu as Conferências Gerais de 1838 e de 1842. Em 1838 liderou o lado antiescravista num debate de dois dias, que terminou num meio-termo. Logo depois escreveu que todo homem do país teria de tomar posição “do lado da liberdade ou do lado da escravidão”, e que naquela luta a covardia seria um crime. Em 1842 publicou no Western Recorder cinco ensaios sobre a origem do episcopado metodista, concluindo que os metodistas protestantes, com a ordenação por presbíteros herdada de Wesley, eram os verdadeiros wesleyanos dos Estados Unidos.
A última crise
Em 1843, pastor da Primeira Igreja de Pittsburgh, Shinn viajou ao oeste da Virgínia para rever os lugares da infância. No caminho pediu ao filho Thornton que cuidasse da mãe, porque não voltaria em condições de fazê-lo. Na volta apanhou uma inflamação dos pulmões, foi sangrado em excesso, desmaiou e acordou com a mente perturbada, estado em que ficou até o fim. Foi internado num hospital em Maryland e, depois que um incêndio destruiu quase todos os seus bens, num asilo na Filadélfia. Viveu os últimos anos no asilo de Brattleboro, em Vermont, recebendo visitas de velhos amigos.
Morreu ali em 11 de fevereiro de 1853, aos 71 anos. George Brown pregou o sermão fúnebre sobre 2 Samuel 3:38: “Não sabeis que hoje caiu em Israel um príncipe e um grande homem?” (ARA). Foi sepultado no Cemitério de Allegheny, em Pittsburgh, sob uma lápide que diz: “Este era um homem de Deus”.
Pensamento
Um metodista arminiano
Shinn é wesleyano: um metodista que pensou a salvação na linha de Wesley e de John Fletcher, autores que ele cita a todo momento. No Essay ele defende a “crença arminiana” contra a acusação de que ela tira a humildade do cristão, e o biógrafo metodista protestante Thomas H. Colhouer escreveu, em 1880, que o livro era tão decididamente arminiano que nunca seria popular entre os seguidores de Calvino.
O primeiro capítulo do Essay trata das regras da evidência. Shinn acompanha ali o filósofo escocês Thomas Reid e rejeita a doutrina da necessidade de Jonathan Edwards, para quem a vontade segue sempre o motivo mais forte. Para Shinn, poder fazer algo inclui poder deixar de fazê-lo, e sem essa liberdade não há responsabilidade moral. Décadas depois, Albert Taylor Bledsoe faria o mesmo combate contra Edwards.
A graça que devolve a todos o poder de responder
Shinn afirma a incapacidade humana sem rodeios: desde a queda, o ser humano “não tem poder natural para se recuperar e mudar o próprio coração”. Mas ninguém foi deixado no estado natural, porque “a graça de Deus que traz salvação” se manifestou a todos (Tito 2:11). Por isso, escreve ele, “o poder de fazer o bem é restituído a todos os homens por meio de Jesus Cristo” (Essay, 1813, p. 331), e quem abusa dessa liberdade dada pela graça é justamente condenado. Deus nunca exigiu de ninguém que mudasse o próprio coração sem a sua graça, nem condenou alguém por recusar uma vida que não lhe foi oferecida.
É a graça preveniente da teologia wesleyana: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas e as torna capazes de crer. Essa graça pode ser recusada. Deus governa os seus filhos “por motivos morais, e não por uma influência compulsiva ou irresistível”, para que se tornem semelhantes a ele na escolha voluntária (p. 340).
A bondade de Deus e a soberania
O centro do sistema é a frase de 1 João 4:8, “Deus é amor”. Shinn define a soberania como supremacia de poder, autoridade e excelência moral. Se Deus usasse o poder contra a própria justiça e bondade, deixaria de ser quem é. Por isso ele recusa a ideia de que Deus receba uns e deixe outros de lado sem nenhuma razão além da sua vontade: o seu plano de salvação não tem reprovação nem preferência caprichosa. Em 1840 dedicou ao tema o livro On the Benevolence and Rectitude of the Supreme Being.
A fé, para Shinn, é a condição pela qual o pecador recebe o perdão, e cresce “de fé em fé” (Romanos 1:17). Contra deístas e predestinacionistas que tratavam a crença como efeito automático da evidência, ele mostra que crer depende em boa parte da vontade: Tomé tinha o testemunho dos outros apóstolos e decidiu não crer sem ver (João 20:25-29).
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
Em três pontos Shinn segue caminho próprio, e a nossa declaração de fé pensa de outro modo.
O primeiro é a expiação. Shinn explica a cruz pelo governo moral de Deus: o castigo existe para proteger a ordem de toda a criação, e Cristo morreu para tornar justo que Deus perdoe o pecador que crê. Ele chama a outra leitura de “expiação legal” e nega que os pecados tenham sido imputados a Cristo e que a justiça de Cristo seja imputada ao crente, apoiado no tratado sobre a justificação do puritano arminiano John Goodwin, que Wesley tinha resumido e publicado. É uma forma da teoria governamental, ligada a Hugo Grócio e defendida depois por John Miley. Armínio e Wesley, como a nossa declaração de fé, entendem a cruz como satisfação penal: Cristo levou a pena do pecado, e o crente é justificado pela imputação da justiça dele.
O segundo é o pecado original. Shinn afirma que todos herdamos de Adão uma natureza “inclinada ao mal continuamente”, mas nega que os descendentes sejam culpados do pecado do Éden. A nossa declaração afirma que todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus.
O terceiro está no livro de 1840. Shinn afirma que a separação entre justos e ímpios será eterna e rejeita a restauração final dos condenados, mas sugere que o sofrimento deles pode variar ao longo da eternidade conforme o estado moral de cada um. Críticos o acusaram de tendência universalista, e ele respondeu na imprensa.
Teologia e governo da igreja
Os biógrafos de Shinn ligam a sua convicção de que Deus trata as pessoas como agentes livres e responsáveis à defesa de que os fiéis escolham quem os governa na igreja. A representação leiga e a posição contra a escravidão saíram do mesmo princípio: Deus é justo e bom em todas as coisas. O reitor Andrew A. Lipscomb o descreveu como a inteligência mais metafísica que tinha conhecido, um pregador sem imagens, de raciocínio longo e claro, que falava à mente para convencê-la da própria fraqueza e levá-la a Cristo.
Leia também as biografias de John Wesley, Francis Asbury, Adam Clarke e Jacó Armínio, e os estudos Arminianismo: Expiação para Todos e A graça preveniente em Armínio.
Obras principais
- An Essay on the Plan of Salvation (Baltimore: Neal, Wills and Cole, 1813; segunda edição, revista, Cincinnati, 1831).
- Artigos no Mutual Rights (1824-1828), parte deles com o pseudônimo “Bartimeus”.
- On the Benevolence and Rectitude of the Supreme Being (Baltimore: Comitê do Livro da Igreja Metodista Protestante; Filadélfia: James Kay, Jun. & Brother, 1840).
- Cinco ensaios sobre o episcopado metodista no Western Recorder (1842).
Para aprofundar
- William B. Sprague, “Asa Shinn”, Annals of the American Pulpit, vol. 7 (Nova York, 1859), p. 362-369, com as cartas de George Brown e Andrew A. Lipscomb.
- Thomas H. Colhouer, “Rev. Asa Shinn”, Sketches of the Founders of the Methodist Protestant Church (Pittsburgh, 1880), p. 120-152.
- Edward J. Drinkhouse, History of Methodist Reform, vol. 2 (Baltimore e Pittsburgh, 1899).
- Matthew Simpson (org.), “Shinn, Asa”, Cyclopaedia of Methodism (Filadélfia, 1878).
- Shinn, Asa, McClintock and Strong Biblical Cyclopedia.
- Asa Shinn, An Essay on the Plan of Salvation (1813), exemplar do Seminário de Princeton no Internet Archive.
- Asa Shinn, On the Benevolence and Rectitude of the Supreme Being (1840), no Internet Archive.
- Barry W. Hamilton, The Moral Philosophy of Asa Shinn, Methodist History 40, n. 3 (abril de 2002), p. 168-181.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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