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Menno Simons: o padre frísio que virou o pastor dos anabatistas perseguidos
Menno Simons foi ordenado padre sem nunca ter lido a Bíblia. Ele mesmo contou, mais tarde, que tinha medo de que a leitura o desviasse. Anos depois, esse padre de uma aldeia da Frísia seria procurado pelas autoridades do imperador Carlos V, com recompensa de cem florins de ouro pela sua captura, e daria o nome a toda uma tradição cristã: os menonitas.
Vida
Menno nasceu em 1496, em Witmarsum, na Frísia (hoje norte dos Países Baixos), numa família camponesa pobre. Aprendeu latim e um pouco de grego e estudou os pais da Igreja para o sacerdócio. As fontes divergem quanto à data da ordenação: a Wikipédia em inglês fala em 1515 ou 1516, outras apontam 1524. O que consta é que, em 1524, ele já era capelão em Pingjum, a aldeia do pai.
A dúvida começou na missa. Por volta de 1526 ou 1527, perguntas sobre a transubstanciação (a ideia de que o pão e o vinho se tornam o corpo e o sangue de Cristo) o levaram a estudar as Escrituras. Em 1531, a execução de Sicke Freerks Snijder, decapitado em Leeuwarden por ter sido batizado de novo, o fez pensar no batismo de crianças, e ele concluiu que a Bíblia não o ensina. De volta a Witmarsum, conheceu anabatistas que praticavam o batismo de adultos.
O golpe veio em 1535. Anabatistas tomaram o mosteiro de Oldeklooster, perto de Bolsward, e as tropas imperiais o retomaram em 7 de abril, matando cerca de trezentas pessoas. Seu irmão Pieter morreu nesse episódio. Em 12 de janeiro de 1536, segundo a Wikipédia em inglês (outras fontes dão 30 de janeiro), Menno rompeu com a Igreja de Roma. Pouco depois foi batizado e, por volta de 1537, ordenado por Obbe Philips, líder dos anabatistas pacíficos.
Os anos seguintes foram de vida clandestina. Ele viajou pelos Países Baixos e pela Alemanha, pregando, batizando e escrevendo, e as autoridades perseguiam quem o abrigasse: em outubro de 1536, Herman e Gerryt Jansz foram decapitados por isso. Casou-se com Geertruydt Jansdochter e teve três filhos. Morreu de morte natural em 31 de janeiro de 1561 (algumas fontes dizem 23), em Wüstenfelde, em Holstein, no norte da Alemanha. Por volta de 1544, o termo “menonitas” já designava os anabatistas holandeses.
Pensamento
Classe: anabatista, proto-arminiano. Menno não conheceu Armínio, que nasceu quase um século depois dele, e ninguém o chamaria de arminiano. Mas a sua doutrina da salvação é muito próxima. O pesquisador batista Jerry Sutton, que compara os dois, cita Menno para mostrar que ele defendia a expiação para todos, rejeitava a reprovação, ensinava que a graça precede a fé e advertia que o cristão pode se afastar de Deus. A conclusão dele é que as doutrinas da salvação dos dois são, em linhas gerais, equivalentes. Isso não quer dizer influência direta: o estudioso de Armínio Carl Bangs, citado no mesmo artigo, concluiu que Armínio “não era anabatista” e nada aprendeu de teologia com eles.
Eis as ideias centrais, em palavras comuns:
- Cristo morreu por todos. Menno escreve que Cristo reconciliou “todos na terra” pelo sangue da cruz. É a expiação universal, que também afirmamos em Arminianismo: expiação para todos.
- Sem reprovação. Ele rejeitava a ideia de que Deus destina alguns à condenação, pois isso tornaria Deus autor do pecado, e chamou de “abominação das abominações” o ensino de Zwingli de que a vontade de Deus obriga o ladrão a roubar. Sobre o tema, veja Presciência, eleição e predestinação.
- A graça vem primeiro, e pode ser resistida. A fé é dom de Deus, que atrai o pecador antes de qualquer resposta (é o que os arminianos chamam de graça preveniente). Menno confessa que resistiu à Palavra no passado e que a graça de Deus não o abandonou. Sobre a soberania de Deus e a liberdade humana, veja A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano.
- Perseverança condicional. Quem já foi regenerado deve se apegar ao começo “até o fim”, para não se afastar de Deus pela incredulidade. Em Arminianismo: a segurança da salvação está o que cremos a respeito.
- Pecado original e crianças. Os anabatistas evitavam a expressão “pecado original”. Segundo o verbete do GAMEO, Menno ensinava que a morte de Cristo removeu a culpa do pecado de Adão para todos e que as crianças vivem em estado de graça até a idade de discernir o bem e o mal. Por isso ele não batizava bebês, e o batismo vinha depois da fé. Quanto a esse ponto, estamos de acordo, como diz a nossa declaração de fé: o batismo segue a conversão.
Algumas diferenças com a nossa declaração de fé merecem ser ditas sem polêmica. Menno ensinava uma cristologia incomum: que Cristo trouxe do céu a sua carne em vez de recebê-la de Maria. Nós cremos que Cristo assumiu plenamente a natureza humana. Ele também defendia a não resistência, isto é, que o cristão deve sofrer em vez de lutar com armas, e uma disciplina rigorosa na igreja, o “banimento”, que exclui da comunhão quem persiste no pecado. Por fim, ele acreditava que a perfeição é possível depois da conversão, o que lembra a inteira santificação que afirmamos. Para o contexto do movimento, veja Anabatistas: a terceira via da Reforma Protestante e Anabatistas de 1525: a Reforma Radical contra o Estado. Sobre os herdeiros da tradição, Descendentes dos anabatistas: menonitas, amish e batistas e Batistas e anabatistas: duas histórias, duas visões de mundo. Veja também Jacó Armínio.
Obras principais
Mais de quarenta escritos dele sobreviveram, e todos começam com 1 Coríntios 3:11, o seu lema. As datas abaixo são aproximadas, e as fontes divergem em alguns casos.
- Van de Geestlijke Verrijsenisse (A ressurreição espiritual), por volta de 1536.
- De nieuwe Creatuere (A nova criatura, ou O novo nascimento), por volta de 1537.
- Christelycke leringhen op den 25. Psalm (Meditação sobre o Salmo 25), por volta de 1538.
- Why I Do Not Cease Teaching and Writing (Por que não deixo de ensinar e escrever), 1539.
- Dat Fundament des Christelycken leers (Fundamento da doutrina cristã), 1539-1540, sua obra mais conhecida, na qual rejeita Münster e expõe a sua doutrina.
Livros em português
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- Menno Simons: Confissão e O novo nascimento, edição organizada por Irvin B. Horst. Ver na Amazon · Ver na Shopee
- A vida e os escritos de Menno Simons, de Harold S. Bender, um livro sobre ele. Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Wikipédia, Menno Simons, datas e obras.
- Christianity Today, Menno Simons, perfil biográfico.
- Jerry Sutton, Anabaptism and James Arminius: A Study in Soteriological Kinship and Its Implications, Midwestern Journal of Theology 11.2 (2012), com as citações de Menno sobre a salvação.
- GAMEO (Global Anabaptist Mennonite Encyclopedia Online), verbetes “Free Will” e “Original Sin”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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