
Descendentes dos anabatistas: Menonitas, amish e batistas
Quem são os descendentes modernos dos anabatistas
Quando a maioria das pessoas ouve falar de anabatistas hoje, a imagem que costuma vir à cabeça é a de uma família com roupas escuras, chapéu de palha e charrete numa estrada de terra da Pensilvânia. Essa imagem retrata uma parte desse universo, mas está longe de contar a história inteira. Os anabatistas do século 16 não desapareceram com a perseguição. Eles se espalharam pelo mundo, deram origem a grupos distintos e hoje somam milhões de fiéis em dezenas de países.
Para entender esse mosaico, conheçamos os principais ramos dessa árvore genealógica espiritual.
O ramo mais expressivo e numeroso é o dos menonitas. O nome vem de Menno Simons, um ex-padre holandês que assumiu a liderança das comunidades perseguidas depois da tragédia violenta de Münster, em 1535. Menno Simons dedicou a vida a organizar a irmandade em torno de um discipulado pacífico, firmado no Sermão do Monte (Mateus 5 a 7) e na vida comunitária de amor mútuo.
Hoje os menonitas são muito diversos. Há congregações rurais conservadoras e há igrejas urbanas integradas à sociedade moderna, com carros, universidades e missões humanitárias na África, na Ásia e na América Latina. Para todos eles, a herança da não violência e o “Espelho dos Mártires” (um clássico do século 17 que reúne as histórias dos primeiros anabatistas executados) continuam sendo referências de fidelidade a Cristo.
Os amish, por sua vez, são os que mais alimentam o imaginário popular. Eles surgiram de uma divisão entre os menonitas suíço-alemães em 1693, liderada por Jakob Ammann. O motivo da divisão foi a disciplina da igreja: Ammann defendia uma aplicação muito mais rigorosa do banimento social (o afastamento dos membros desviados) e uma recusa mais radical aos costumes do mundo.
Com o passar do tempo, as comunidades amish decidiram manter de propósito suas práticas tecnológicas no padrão rural do século 19. Eles não recusam a tecnologia por acreditar que a eletricidade ou o motor a combustão sejam pecaminosos em si mesmos, mas porque temem que telefones individuais, carros e internet enfraqueçam a comunidade, incentivem a vaidade e roubem o tempo de convívio da família ao redor da mesa.
Outro grupo menos conhecido são os huteritas. Nascidos na Morávia na década de 1520 e organizados sob a liderança de Jakob Hutter, eles tomaram ao pé da letra o relato de Atos 2:44-45 e 4:32-35, em que os crentes tinham tudo em comum.
Os huteritas praticam até hoje a comunhão de bens. Vivem em colônias agrícolas muito produtivas, principalmente no interior do Canadá e no norte dos Estados Unidos. Dentro de uma colônia huterita, ninguém recebe salário individual, não há contas bancárias particulares e as refeições são feitas em refeitórios coletivos. As roupas seguem o estilo tradicional dos camponeses alemães da Europa Oriental, e todo o rendimento do trabalho na lavoura ou na indústria é investido no bem da colônia.
Há também ramos de renovação que surgiram séculos mais tarde, como os Irmãos Menonitas (Mennonite Brethren). Nascidos por volta de 1860 entre imigrantes alemães no sul da Rússia, esse grupo buscou o reavivamento da fé por meio de um forte impulso missionário e do batismo de adultos por imersão. No século 20, famílias inteiras desses irmãos migraram para a América do Norte e para o Paraguai, onde ajudaram a colonizar a região inóspita do Chaco e formaram comunidades cooperativas prósperas.
Outro desdobramento relevante são os Irmãos em Cristo (Brethren in Christ), que surgiram nos Estados Unidos em meados do século 18. Eles combinam a teologia anabatista da comunidade e da paz com a ênfase pietista na conversão pessoal e na santidade de vida.
Mesmo com costumes e roupas tão diferentes entre si, todos esses grupos carregam a herança que seus antepassados defenderam na Europa do século 16: a convicção de que o batismo pertence a quem professa a fé em Cristo, que o discipulado de Jesus exige reconciliação e não violência, e que a fé não deve depender do poder político do Estado.
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