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HistóriaEfésios

Colóquio de Ratisbona (1541): A união que quase houve

O dia em que a Igreja quase se reuniu: O cardeal Contarini e o Colóquio de Ratisbona

Diego Gonçalves5 min de leitura912 palavras

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Neste texto

Costumamos olhar para a história da Reforma Protestante como se a ruptura entre católicos e protestantes tivesse sido um destino fatal, decidido da noite para o dia após as 95 teses de Lutero. Poucos se lembram de que, vinte e quatro anos depois do protesto de Wittenberg, os dois lados se sentaram à mesma mesa, abriram as Escrituras e chegaram a redigir um acordo teológico sobre o tema mais espinhoso da época: a salvação pela graça.

O palco desse momento quase esquecido foi a cidade alemã de Ratisbona (hoje Regensburg), no ano de 1541. O grande articulador daquele esforço improvável era o cardeal veneziano Gasparo Contarini.

Busto de mármore do cardeal Gasparo Contarini, de barba e óculos, no monumento da capela Contarini
Danese Cattaneo, Busto do cardeal Gasparo Contarini, c. 1563. Igreja da Madonna dell’Orto, Veneza. Foto de Sailko, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Contarini não era um burocrata cínico da cúria romana. Ele pertencia a um grupo respeitado de reformadores católicos italianos chamado Spirituali. Trinta anos antes, em 1511, Contarini havia passado por uma crise espiritual profunda na Itália e chegado sozinho à convicção de que nenhuma obra humana pode comprar o favor divino: a salvação dependia inteiramente dos méritos de Cristo (Efésios 2:8-9).

Quando o Imperador Carlos V convocou o Colóquio de Ratisbona na esperança de unir o império diante da ameaça militar dos turcos otomanos, Contarini foi enviado pelo Papa Paulo III como legado papal, encarregado de buscar uma reconciliação que parecia impossível.

O milagre do Artigo Cinco

Do lado protestante, sentaram-se à mesa teólogos de primeira linha: Philipp Melanchthon (o braço direito de Lutero) e Martin Bucer (o respeitado reformador de Estrasburgo, com um jovem João Calvino assistindo aos debates na comitiva). Do lado católico moderado estavam intelectuais eruditos como Johann Gropper e Julius Pflug, liderados por Contarini.

Para surpresa de toda a Europa, as conversas avançaram. Em maio de 1541, a comissão mista produziu um texto histórico conhecido como o “Livro de Ratisbona”. O ponto alto foi o célebre Artigo Cinco, dedicado à doutrina da justificação.

Para harmonizar o ensino bíblico com as sensibilidades de ambos os lados, Contarini e Bucer formularam a ideia da “dupla justiça”. Eles concordaram que o pecador é aceito diante de Deus exclusivamente pela justiça imputada de Cristo, recebida pela fé, mas que a fé verdadeira nunca fica inerte: ela opera pelo amor (Gálatas 5:6) e produz frutos visíveis de santificação no crente.

Melanchthon e Bucer assinaram o documento. Contarini chorou de alegria e escreveu para Roma anunciando que a maior fratura da cristandade estava finalmente no caminho da cura.

O colapso nos extremos

A esperança, porém, durou muito pouco. O acordo esbarrou na intransigência e no medo de quem estava longe da mesa de negociações.

Em Roma, o documento causou revolta entre os cardeais mais conservadores. O cardeal Gian Pietro Carafa, que anos mais tarde se tornaria o Papa Paulo IV e foi um dos grandes impulsionadores da Inquisição Romana (1542), acusou Contarini de traição e de entregar a fé católica aos hereges alemães.

Na Alemanha, por sua vez, Martinho Lutero olhou para o rascunho de Ratisbona com profundo ceticismo. Desgastado por décadas de insultos e ameaças papais, Lutero desconfiava das intenções de Roma e viu na fórmula um remendo frágil, pois julgava impossível costurar o evangelho puro com a soberba do papado.

Para piorar a situação, quando as discussões avançaram para os temas seguintes, como a transubstanciação na Eucaristia, o sacrifício da missa e a autoridade do Papa sobre os bispos, o diálogo travou de vez. Nenhum dos lados cedeu um milímetro. Em junho de 1541, o Colóquio foi encerrado sem acordo prático.

A estrada que não foi trilhada

O fracasso de Ratisbona fechou com estrondo a última porta aberta para o diálogo na Europa.

Desgastado pelas intrigas políticas e com a saúde arruinada, além das suspeitas de heresia que passaram a pesar sobre seu nome na cúria, Gasparo Contarini morreu no ano seguinte, em 1542.

Com a morte do cardeal da paz, a Igreja de Roma abandonou a tentativa de ponte e abraçou a linha dura da Contra-Reforma. O Concílio de Trento foi convocado pouco depois para endurecer as definições dogmáticas, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição ganhou grande poder na Itália e os livros dos Spirituali foram incluídos no temido Índice dos Livros Proibidos. Do outro lado, o protestantismo se consolidou em confissões de fé fechadas e preparou suas próprias fronteiras.

O episódio de Ratisbona permanece na história como um lembrete dramático de como a polarização e o medo conseguem sufocar a busca sincera pela verdade. Contarini tentou construir pontes onde a maioria só queria cavar trincheiras. Sua história mostra que teologia séria não precisa abrir mão do amor e que a clareza bíblica sobre a graça de Deus pode aproximar até os corações mais distantes, desde que a vaidade humana e os interesses políticos não assumam o comando da conversa.

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