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História

Lutero e as 95 Teses: o martelo que abalou a Europa

Lutero e as 95 Teses: O martelo que abalou a Europa em 1517

Diego Gonçalves5 min de leitura1.059 palavras

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Neste texto

No dia 31 de outubro de 1517, a pacata cidadezinha universitária de Wittenberg, na Alemanha, vivia a véspera do feriado religioso do Dia de Todos os Santos. Pelas ruas de pedra, peregrinos de várias regiões chegavam para contemplar a gigantesca coleção de relíquias sagradas mantida no castelo pelo príncipe Frederico, o Sábio — uma coleção que incluía supostos pedaços da manjedoura de Jesus, fios da barba de santos antigos e espinhos da coroa de Cristo. Acreditava-se que ver aquelas peças reduzia anos de sofrimento nas chamas do purgatório.

Foi nesse ambiente de religiosidade febril que um monge agostiniano de trinta e três anos, professor de teologia bíblica na universidade local, caminhou até a porta da Igreja do Castelo e pregou um folheto com noventa e cinco afirmações escritas em latim. O nome dele era Martinho Lutero.

Lutero não pretendia começar uma revolução, não queria fundar uma nova igreja e nem sequer sonhava em romper com o papa de Roma. Ele havia convocado um debate acadêmico tradicional, comum nas universidades da época, para discutir um tema que estava tirando o seu sono de pastor: o comércio descarado das indulgências.

O balcão de negócios do perdão

Para entender o que irritou Lutero, a gente precisa olhar para os bastidores financeiros da Igreja no início do século 16. O papa Leão X, membro da riquíssima família Médici de Florença, estava gastando fortunas astronômicas para erguer a imponente Basílica de São Pedro no Vaticano. Ao mesmo tempo, um jovem nobre alemão chamado Alberto de Brandemburgo havia acumulado três cargos de arcebispo ao mesmo tempo — o que era proibido pelas leis da própria Igreja. Para conseguir a bênção de Roma para esse acúmulo de poder, Alberto pegou um empréstimo pesado com os banqueiros Fugger.

A solução encontrada pela cúria romana foi engenhosa: lançar uma grande campanha de venda de indulgências na Alemanha. Metade do dinheiro arrecadado iria direto para as obras da basílica em Roma; a outra metade pagaria a dívida do arcebispo com os banqueiros.

Para tocar as vendas, contrataram um frade dominicano carismático e bom de lábia chamado Johann Tetzel. Tetzel viajava pelas cidades vizinhas de Wittenberg com trombetas, bandeiras papais e uma encenação teatral impressionante. Ele apelava para a culpa das pessoas simples, dizendo que os pais e avós delas estavam queimando no purgatório, implorando por socorro. Tetzel usava um jingle rimado que virou escândalo: “Tão logo a moeda no cofre tilinta, a alma do purgatório salta para o céu”.

O povo corria para comprar os certificados de papel assinados pelo papa, acreditando que haviam comprado o passaporte direto para o paraíso.

A indignação de um monge

Quando os paroquianos de Wittenberg começaram a mostrar a Lutero aquelas cartas de indulgência, dizendo que não precisavam mais se confessar nem abandonar o pecado porque já estavam garantidos por decreto papal, o pastor entrou em choque.

Lutero conhecia a angústia da culpa como poucos. Ele próprio havia passado anos jejuando, dormindo no chão frio do mosteiro e confessando seus pecados durante horas a fio, apavorado com a justiça implacável de Deus, até descobrir na Carta aos Romanos que a justificação do pecador não se compra com dinheiro nem com obras de penitência: ela é recebida como um dom gratuito da graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo.

Ver a graça divina ser transformada num balcão de feira livre era demais para a sua consciência.

Logo na primeira das suas 95 Teses, Lutero foi direto à raiz do problema: “Ao dizer: Fazei penitência, nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse uma penitência contínua”.

Lutero explicou que o arrependimento bíblico não é um sacramento pontual que você negocia com uma autoridade da igreja para aliviar a consciência; é uma transformação diária da mente e do coração, operada pelo Espírito Santo. Na tese 82, ele usou uma ironia demolidora que incomodou os palácios: se o papa tem de fato o poder de esvaziar o purgatório, por que não faz isso de uma vez por motivo de amor em vez de pedir dinheiro sujo para construir uma basílica?

As faíscas que incendiaram o continente

O debate acadêmico que Lutero imaginou nunca aconteceu. Alguém pegou o texto em latim da porta da igreja, traduziu para o alemão comum e levou até uma oficina de imprensa — a revolucionária tecnologia de tipos móveis inventada por Johannes Gutenberg algumas décadas antes.

Em duas semanas, as 95 Teses já eram lidas em toda a Alemanha. Em quatro semanas, cópias impressas circulavam pela Suíça, França, Inglaterra e chegavam até Roma. O texto funcionou como um fósforo aceso jogado num depósito de pólvora. As pessoas estavam cansadas de pagar tributos para sustentar o luxo da corte papal italiana enquanto viam suas próprias comunidades empobrecidas.

A hierarquia de Roma reagiu com arrogância. Em vez de examinar os abusos denunciados por Lutero à luz da Bíblia, exigiu que o monge se calasse e se retratasse sob ameaça de excomunhão e fogueira. Pressionado nos debates seguintes, Lutero foi obrigado a dar passos teológicos ainda mais profundos: declarou que tanto papas quanto concílios gerais podiam errar, e que a única regra infalível de fé e de prática para a Igreja são as Sagradas Escrituras.

Quatro anos depois, em 1521, diante do próprio imperador Carlos V na Dieta de Worms, Lutero selou o seu destino com a célebre frase: “Minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso e não vou me retratar de nada, pois não é seguro nem honesto agir contra a consciência. Que Deus me ajude. Amém”.

O resgate da graça

As noventa e cinco batidas de martelo na porta da igreja de Wittenberg em 1517 deram início àquilo que a história consagrou como a Reforma Protestante. Aquele protesto que começou focado nas indulgências acabou desenterrando os tesouros centrais do Evangelho que haviam sido soterrados por séculos de tradição humana: as Escrituras traduzidas para a língua do povo, o sacerdócio universal de todos os crentes e a proclamação libertadora de que somos salvos unicamente pela fé, somente pela graça e exclusivamente pelos méritos de Cristo na cruz.

Martinho Lutero nos lembrou de uma verdade que a igreja precisa reaprender em cada geração: a graça de Deus não tem preço de venda, não aceita intermediários humanos e jamais poderá ser negociada no balcão da vaidade religiosa. Diante de Deus, somos todos mendigos que só temos a mão estendida para receber o favor imerecido do Pai.