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HistóriaReforma Protestante40 de 59

Institutas de Calvino em 1536: O livro que organizou a Reforma

João Calvino e as Institutas de 1536: O livro de bolso que organizou a Reforma

Diego Gonçalves6 min de leitura1.298 palavras

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Se Martinho Lutero foi o vulcão impetuoso que abriu a cratera da Reforma Protestante, João Calvino foi o arquiteto que organizou os alicerces teológicos e institucionais daquele novo mundo. Quando a primeira geração de reformadores sacudiu a Europa rompendo com o papa, o continente mergulhou numa efervescência caótica: surgiam dezenas de pregadores com ideias desencontradas, seitas apocalípticas e uma acusação generalizada de que o protestantismo era apenas anarquia moral disfarçada de religião.

Foi nesse ambiente de profunda incerteza que um jovem jurista francês de vinte e seis anos, fugindo da perseguição religiosa na França sob o disfarce de um nome falso, publicou em março de 1536, na cidade suíça de Basileia, um pequeno livro em latim. O título era longo, como era o costume da época: Institutio Christianae Religionis, que conhecemos hoje simplesmente como As Institutas da Religião Cristã.

Folha de rosto da primeira edição das Institutas de Calvino, impressa em Basileia em 1536
Folha de rosto da primeira edição das Institutas da Religião Cristã (Christianae religionis institutio), Basileia, 1536. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Ninguém poderia prever que aquele manual de bolso, escrito por um acadêmico tímido que só queria viver em paz no meio de sua biblioteca particular, se tornaria a obra teológica mais influente do protestantismo e um dos pilares do pensamento do Ocidente.

Uma carta de advogado para salvar vidas

Ao contrário do que muitos pensam, Calvino não escreveu as Institutas para fundar uma nova linha de teologia no conforto de uma universidade; ele escreveu como um advogado tentando salvar a vida dos seus irmãos de fé.

Na França, o rei Francisco I havia deflagrado uma perseguição feroz contra os cristãos evangélicos após o episódio dos Cartazes — quando folhetos protestantes contra a missa católica foram colados pelas ruas de Paris e até na porta do quarto do rei. Para justificar a violência diante dos príncipes protestantes da Alemanha de quem a França precisava como aliados militares, a coroa francesa espalhou a mentira de que os perseguidos eram criminosos radicais que queriam derrubar a ordem social e o governo civil.

Calvino abriu as Institutas com uma longa carta dedicatória endereçada ao próprio rei Francisco I. É uma das peças de argumentação jurídica e retórica mais brilhantes já escritas. Com respeito ao monarca, mas com uma firmeza inabalável, o jovem teólogo desmontou a calúnia da corte: mostrou que os cristãos reformados não eram baderneiros nem traidores da pátria, mas súditos leais que apenas recusavam colocar as tradições corrompidas de homens acima da autoridade suprema das Escrituras Sagradas.

Naquela primeira edição de 1536, o livro tinha apenas seis capítulos breves, organizados como um catecismo prático em torno dos Dez Mandamentos, do Credo Apostólico, da Oração do Pai Nosso, dos Sacramentos bíblicos e da Liberdade Cristã. Ao longo dos vinte e três anos seguintes, Calvino revisou, expandiu e reorganizou a obra até chegar à monumental edição definitiva de 1559, com quatro grossos volumes divididos em oitenta capítulos.

O conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo

A abertura das Institutas traz uma das reflexões mais profundas da teologia cristã: “Quase toda a sabedoria que possuímos consiste em duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos”.

Calvino explica que essas duas realidades estão amarradas de tal forma que é impossível separar uma da outra. Nenhum ser humano consegue olhar para o próprio coração e entender quem realmente é sem antes olhar para a santidade, a justiça e a majestade de Deus. Quando olhamos apenas para os outros ao redor, facilmente nos achamos bons, corretos e dignos de nota. Só que, quando nos colocamos diante da pureza absoluta do Criador, qualquer ilusão de autossuficiência desmorona na hora, e percebemos a nossa real miséria espiritual.

Ao mesmo tempo, quem contempla a sua própria incapacidade moral é empurrado a erguer os olhos em busca da misericórdia que só pode ser encontrada em Cristo.

A teologia de Calvino é marcada por um cristocentrismo vibrante e pela obra graciosa do Espírito Santo. Ele insiste que tudo o que Jesus conquistou na cruz e na ressurreição não teria nenhum valor para nós se continuasse distante da nossa experiência; é o Espírito Santo quem nos une a Cristo pela fé, operando a nossa justificação diante do Pai, gratuita, por graça e somente pela fé em Cristo, e iniciando o processo diário de santificação da nossa vida.

A maldição de Farel na pousada de Genebra

Gravura de Guilherme Farel, de meio corpo, com barrete e toga
Hendrik Hondius, Retrato de Guilherme Farel, gravura, 1599. British Museum, Londres. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Logo após publicar o livro em 1536, Calvino precisou fazer uma viagem rápida até Estrasburgo, onde pretendia se esconder no anonimato de uma vida acadêmica tranquila. Por causa de estradas bloqueadas pelas guerras entre franceses e imperiais, ele foi obrigado a fazer um desvio e passar uma única noite na cidade de Genebra.

Alguém avisou o pregador local, o tempestuoso Guilherme Farel, que o autor das Institutas estava hospedado numa pousada da cidade. Farel correu até o quarto de Calvino e insistiu para que ele ficasse ali e ajudasse a organizar a reforma religiosa e moral de Genebra, que havia acabado de expulsar o bispo católico, mas vivia em completa desordem.

Calvino recusou o convite na hora. Disse que era tímido, inexperiente na vida pública, doente e que a sua vocação era apenas os livros e os estudos solitários. Foi aí que Farel se levantou, fixou os olhos nele e proferiu uma frase que ecoou como um trovão: “Pois eu declaro em nome do Deus Todo-Poderoso: você está usando seus estudos como pretexto! Que Deus amaldiçoe o seu descanso e a tranquilidade dos seus estudos se você se recusar a ajudar na obra de Deus nesta cidade!”

Calvino confessou mais tarde que sentiu como se a mão do próprio Deus tivesse descido do céu para agarrá-lo pela gola da camisa. Aterrorizado pela repreensão profética, ele desfez as malas e ficou.

A cidade que virou refúgio e sementeira

O ministério de Calvino em Genebra não foi fácil. Houve conflitos violentos com a elite política da cidade, expulsão, retorno após três anos e uma luta diária contra a resistência moral dos magistrados.

Apesar de todas as dores e controvérsias históricas da época, Genebra sob a liderança pastoral de Calvino se transformou num centro internacional de acolhimento. Milhares de refugiados perseguidos na França, na Inglaterra e na Escócia bateram à porta daquela cidadezinha alpina. Calvino criou a Academia de Genebra para treinar esses jovens nas Escrituras, nas línguas bíblicas e nas ciências humanas.

O reformador escocês John Knox, que viveu exilado ali durante as perseguições da rainha Maria Tudor, escreveu aos amigos na Grã-Bretanha dizendo que Genebra era “a mais perfeita escola de Cristo que já existiu na terra desde os dias dos apóstolos”. Aqueles exilados aprenderam a fé nas Institutas, voltaram para seus países de origem e plantaram igrejas, escolas públicas, orfanatos e hospitais que ajudaram a remodelar o mapa da Europa.

Quase cinco séculos depois de serem impressas pela primeira vez em Basileia, as Institutas continuam sendo um chamado lúcido e contundente. Elas nos ensinam que a teologia nunca deve ser um jogo intelectual de vaidade para alimentar debates vazios, mas uma reverente confissão de fé que nos faz dobrar os joelhos diante da soberania de Deus e colocar as mãos a serviço do próximo.