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HistóriaReforma Protestante59 de 59

Por que a igreja precisa se reformar sempre, na história

Por que a igreja precisa sempre se reformar

Diego Gonçalves4 min de leitura846 palavras

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Neste texto

Existe uma espécie de lei da física espiritual que se repete com precisão assustadora ao longo dos séculos: todo movimento cristão que nasce em meio ao fogo da consagração tende, com o tempo, a se acomodar na frieza da burocracia.

O padrão é quase sempre o mesmo. A primeira geração vive um encontro vivo e transformador com Deus, paga o preço da perseguição e constrói tudo com lágrimas e sacrifício. A segunda geração herda a estrutura pronta, preserva a memória do avivamento e tenta organizar as coisas em regras claras. A terceira geração herda apenas o formulário: sabe repetir os jargões, frequenta as reuniões por hábito social e administra uma herança cujo poder espiritual original ela nunca chegou a experimentar de verdade.

Predela do retábulo da Reforma em Wittenberg: Lutero prega à congregação, apontando para Cristo crucificado
Lucas Cranach, o Jovem, Lutero prega diante de Cristo crucificado, predela do Retábulo da Reforma, 1547. Wittenberg. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Se a igreja dependesse unicamente da capacidade humana de manter a chama acesa, o cristianismo teria desaparecido do mapa há muito tempo. A única razão pela qual a fé cristã continua viva é que Deus tem o hábito bendito de sacudir o pó das nossas instituições exatamente quando achamos que já aprendemos a controlar tudo.

A casca do formalismo

No século XVII, teólogos reformados holandeses cunharam uma frase em latim que resumia essa necessidade contínua de vigilância: Ecclesia reformata, semper reformanda est secundum verbum Dei — a igreja reformada precisa estar sempre se reformando de acordo com a Palavra de Deus.

Sabiam que nenhuma estrutura eclesiástica é imune à ferrugem da rotina. A ortodoxia doutrinária, por mais precisa e bíblica que seja nos manuais, pode facilmente se transformar num cadáver bem conservado. Quando a defesa da sã doutrina perde o amor fervoroso por Cristo e o cuidado real com as pessoas, ela deixa de ser remédio para a alma e vira apenas uma ferramenta de vaidade intelectual.

Foi contra esse tipo de ortodoxia morta que se levantaram os grandes movimentos de renovação da história. Quando os mosteiros medievais se tornaram centros de poder e riqueza, Francisco de Assis abriu mão da riqueza da família, vestiu uma túnica remendada e foi pregar a beleza do despojamento de Cristo nas ruas. Quando a teologia de Wittenberg e Genebra começou a virar disputa escolástica fria entre professores universitários, os pietistas na Alemanha e os metodistas na Inglaterra lembraram que o evangelho exige um coração aquecido pela graça e uma fé que se prova no cuidado com os encarcerados e os órfãos.

O perigo da caricatura do avivamento

O problema é que, no ambiente moderno, a palavra “avivamento” foi sequestrada por um tipo de histeria barulhenta que pouco tem a ver com os despertares bíblicos.

Muita gente aprendeu a chamar de avivamento qualquer evento que tenha iluminação cênica de ponta, música em volume ensurdecedor, gritaria emocional e promessas mirabolantes de prosperidade imediata. Mas a emoção inflada no fim de semana costuma evaporar na mesma velocidade com que foi fabricada.

Quando estudamos os momentos em que o Espírito de Deus realmente renovou a igreja no passado, a marca principal nunca foi o entretenimento, mas o quebrantamento. Pessoas comuns eram tomadas por uma consciência profunda da santidade de Deus e da gravidade dos seus próprios pecados. Havia confissão pública de faltas, restituição de bens roubados, reconciliação de famílias destruídas e um retorno faminto à leitura diária das Escrituras.

O verdadeiro avivamento não produz cristãos mimados em busca de sensações espirituais novas; produz homens e mulheres maduros, prontos para servir no silêncio, fiéis no casamento, honestos nos negócios e misericordiosos com os caídos.

Voltar à fonte todos os dias

A lição mais urgente que a história nos ensina é que a reforma da igreja não é um evento comemorativo que se celebra no calendário uma vez por ano; é uma postura diária de humilhação perante a Palavra de Deus.

A tentação de nos acomodarmos é diária. Acostumamos com o banco da igreja, acostumamos com o vocabulário religioso e passamos a tolerar no próprio coração pecados e desleixos que antes nos tiravam o sono. Sem perceber, começamos a confiar na força da nossa denominação, no tamanho do nosso templo ou na reputação das lideranças, esquecendo que o Senhor não divide a sua glória com ninguém (Isaías 42:8).

A renovação autêntica começa no instante em que temos a coragem de largar as certezas prontas, colocar o orgulho no chão e pedir ao Senhor que passe um pente fino nas nossas motivações. O Senhor olha para “aquele que é pobre e abatido de espírito, e treme por minha palavra” (Isaías 66:2, Bíblia Livre). A igreja só permanece viva quando mantém os olhos fixos em Jesus, sabendo que a única tradição que realmente vale a pena preservar é a fidelidade radical ao evangelho da graça.