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Apócrifos ou deuterocanônicos: Por que 7 livros a mais?
Apócrifos ou deuterocanônicos: Por que algumas Bíblias têm sete livros a mais?
Quem já pegou uma Bíblia católica e uma Bíblia protestante lado a lado notou uma diferença logo no índice. A edição evangélica traz 66 livros; a católica traz 73. Não se trata de erro gráfico nem de edição de luxo com capítulos bônus. A diferença está em sete livros completos do Antigo Testamento (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, também chamado Sirácida, Baruc, Primeiro e Segundo Macabeus), além de trechos a mais em Ester e Daniel.
Na internet, não faltam teorias da conspiração dizendo que a Igreja Católica “inventou livros” ou que os protestantes “arrancaram páginas sagradas”. A história real é mais interessante e muito mais humana. Essa divergência não nasceu em gabinete moderno, mas nas ruas movimentadas de uma metrópole egípcia, séculos antes do nascimento de Jesus.
A Septuaginta: a Bíblia grega dos judeus da Diáspora
Tudo começou no século 3 antes de Cristo, em Alexandria, no Egito. Fundada por Alexandre, o Grande, a cidade era a capital cultural do mundo helenístico e abrigava uma das maiores comunidades judaicas fora da Palestina. Com o passar das gerações, aqueles judeus nasciam, cresciam e trabalhavam falando só grego, a língua comum da época. O hebraico dos antepassados ficou restrito às leituras formais da sinagoga, e surgiu um problema bem prático: como manter a identidade religiosa se os jovens já não entendiam a língua da Torá?
Para resolver isso, sábios judeus traduziram as Escrituras Hebraicas para o grego, num projeto enorme que ficou conhecido como Septuaginta (ou “Versão dos Setenta”, abreviada como LXX). Traduziram primeiro os cinco livros de Moisés e, com o tempo, foram vertendo os profetas e os demais escritos.
Nesse período de circulação em grego, outros livros religiosos do tempo entre os Testamentos foram sendo lidos e encadernados junto com os textos tradicionais. Alguns contavam a resistência militar contra a opressão grega, como os Macabeus; outros refletiam sobre a sabedoria de Deus, como Sabedoria e Eclesiástico. Para o judeu de língua grega que vivia em Alexandria ou em Roma, aquela coleção ampliada era o conjunto habitual de leituras sagradas.
A Bíblia dos primeiros cristãos
Quando o cristianismo começou, no primeiro século, a mensagem de Jesus não ficou restrita a Jerusalém. Espalhou-se rápido pelas cidades do Império Romano, onde quase todo mundo falava grego. Quando Paulo e os outros autores do Novo Testamento viajavam e escreviam suas cartas, qual tradução eles citavam para ouvintes gentios e judeus de cultura grega? A Septuaginta.
Por isso a igreja dos primeiros séculos cresceu familiarizada com a coleção ampla da Septuaginta. Só que há um detalhe decisivo. O Novo Testamento cita o Antigo centenas de vezes e faz alusões ao heroísmo dos mártires macabeus (como em Hebreus 11), mas Jesus e os apóstolos nunca citaram esses livros adicionais com a fórmula “está escrito”, reservada ao cânon hebraico. Uma alusão, ou o uso de um livro para edificação, ainda não faz dele Escritura inspirada.
Enquanto isso, os rabinos da Judeia foram fixando a sua Bíblia, por volta do fim do primeiro século, depois da destruição de Jerusalém pelos romanos. O critério foi rigoroso: para ser Escritura sagrada, o livro precisava ter sido escrito em hebraico e dentro do período profético clássico, que se encerrava na época de Esdras e Malaquias. Por isso, os escritos mais recentes, preservados em grego, ficaram fora do cânon judaico.
Jerônimo, Lutero e o Concílio de Trento
O debate sobre a autoridade desses escritos sempre existiu dentro da igreja. No século 4, quando o bispo de Roma pediu a Jerônimo que traduzisse a Bíblia inteira para o latim (a célebre Vulgata), o erudito foi morar em Belém para estudar hebraico com rabinos locais. Ao comparar os textos, notou a diferença entre a Bíblia hebraica e a Septuaginta grega. Jerônimo preferia o cânon hebraico e chamou os livros excedentes de “apócrifos” (palavra grega para “ocultos”, ou seja, de origem e autoridade incertas). Dizia que eram bons para a edificação e a moral da igreja, mas não serviam para fundamentar doutrinas de fé. A tradição conta que a pressão de líderes como Agostinho de Hipona e o costume das igrejas fizeram com que esses livros acabassem na Vulgata Latina.
Durante mais de mil anos, a questão ficou em aberto no Ocidente, até que a Reforma Protestante do século 16 pôs o assunto no centro do debate. Movido pelo princípio da Sola Scriptura, Martinho Lutero quis voltar às fontes originais da fé. Para o Antigo Testamento, isso queria dizer voltar ao cânon dos judeus, o mesmo que Jesus e os apóstolos reconheceram.
Lutero não jogou esses livros no lixo. Na sua tradução da Bíblia para o alemão, completa em 1534, ele os tirou do meio dos livros proféticos e os pôs numa seção separada, entre os dois Testamentos, com uma nota que dizia, em essência, que eram livros não considerados iguais às Sagradas Escrituras, mas úteis e bons de ler. Os anglicanos seguiram o mesmo caminho: o sexto dos Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra (1571) manda ler esses livros como exemplo de vida e instrução de costumes, mas não para estabelecer doutrina. Mais tarde, as edições protestantes populares deixaram de imprimir a seção intermediária, para baratear custos e evitar confusão.
A reação de Roma veio no Concílio de Trento, em 1546. Para responder aos reformadores, o concílio declarou esses livros canônicos sob o nome de “deuterocanônicos” (ou seja, de um “segundo cânon”, para distingui-los dos “protocanônicos”, que nunca foram contestados). E estabeleceu que quem os rejeitasse como parte da Palavra inspirada estaria sob anátema.
As consequências teológicas de uma escolha
Essa divisão não é mera questão de contabilidade. Ela teve efeito direto na teologia. O apoio bíblico mais citado para dogmas católicos como o purgatório e as orações e ofertas pelos mortos está em 2 Macabeus 12. Como a tradição protestante não reconhece esse livro como Escritura inspirada, essas práticas foram rejeitadas como estranhas à revelação evangélica. Para nós, a Escritura basta para a salvação, que vem só pela graça, mediante a fé, em Cristo (2 Timóteo 3:15-17).
Entender como o cânon se formou nos livra do preconceito e das teorias malucas. A Bíblia não caiu do céu encadernada numa bandeja de prata. Foi preservada, copiada e reconhecida ao longo dos séculos na vida real das comunidades de fé.
Para os protestantes, a autoridade do Antigo Testamento repousa na fidelidade ao cânon hebraico, reconhecido por Cristo e seus contemporâneos. Para católicos e ortodoxos, ela se apoia na autoridade da igreja, que acolheu a herança da Septuaginta. Conhecer essa história nos ajuda a respeitar as tradições, e ler os livros deuterocanônicos continua sendo um exercício valioso para quem quer entender o contexto histórico e cultural que preparou o mundo para a vinda do Messias.
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