
HistóriaReforma Protestante48 de 121
Bíblia de Lutero: como ela moldou o alemão moderno
Olhando na boca do povo: como a Bíblia de Lutero ajudou a formar o alemão moderno
Se você fizesse uma viagem pela Alemanha no início do século XVI, teria uma dificuldade enorme para se comunicar. Naquela época, o alemão não era uma língua unificada como a conhecemos hoje. Era uma colcha de retalhos formada por dezenas de dialetos regionais, tão diferentes entre si que um camponês da Baviera, no sul, mal conseguia conversar com um pescador do mar do Norte. Cada principado falava do seu jeito, e a língua oficial dos documentos, das universidades e da igreja continuava sendo o latim.
A pessoa que mudou esse cenário e deu aos alemães uma voz comum não foi um linguista de gabinete nem um imperador por decreto. Foi Martinho Lutero, escondido no Castelo de Wartburg em 1521, sob a proteção do príncipe Frederico, o Sábio, com uma pena na mão e o Novo Testamento grego aberto à sua frente.
Lutero traduziu o Novo Testamento inteiro em cerca de onze semanas, e o livro saiu impresso em setembro de 1522. Mais tarde, reuniu em Wittenberg especialistas em hebraico e grego, como Philipp Melanchthon, para encarar o Antigo Testamento. Só que o grande segredo da tradução de Lutero não estava apenas na erudição acadêmica. Estava também no método que ele escolheu para fazer o trabalho.
Por trás do método havia uma convicção: se a Escritura é a autoridade suprema da fé (sola Scriptura), ela precisa estar nas mãos de quem não sabe latim.
Lutero recusou a tradução literal palavra por palavra, que deixava o texto engessado, frio e parecendo latim disfarçado. Na Carta sobre a tradução (1530), ele deixou uma regra de ouro que virou lema: “A gente precisa perguntar para a mãe dentro de casa, para os meninos brincando na rua e para o homem comum na feira; olhar na boca deles para ver como eles falam e traduzir desse jeito”.
Isso significava submeter cada versículo ao que podemos chamar de “teste do ouvido”. O texto precisava soar natural, vivo e compreensível quando fosse lido em voz alta na sala de uma família humilde.
A dedicação de Lutero a esse realismo chegava a ser quase engraçada. Conta-se que, na hora de traduzir os rituais de sacrifício do livro de Levítico, ele pediu ajuda a um açougueiro da cidade para abater e dissecar ovelhas diante dos tradutores, só para garantir que usassem os nomes alemães exatos de cada corte e víscera do animal. E, para traduzir as pedras preciosas da Nova Jerusalém, no Apocalipse, teria pegado emprestadas joias da corte do príncipe para segurar nas mãos e examinar as cores sob a luz antes de escolher as palavras.
O resultado desse esforço meticuloso foi uma obra-prima literária. Quando a Bíblia impressa começou a circular, tornou-se um dos primeiros grandes fenômenos de comunicação de massa da Europa.
Como muita gente lia a mesma tradução, ou ouvia o texto ser lido em voz alta em reuniões comunitárias, as expressões, os provérbios e as palavras escolhidas por Lutero foram sendo absorvidos no dia a dia. A Bíblia dele ajudou a unificar os dialetos germânicos e a firmar os alicerces do alemão moderno padrão. Também serviu de exemplo para William Tyndale, que traduziu as Escrituras para o inglês do povo.
A história dessa tradução nos lembra de algo muito precioso sobre a comunicação do evangelho: a verdade de Deus não tem vocação para ficar aprisionada em jargões herméticos ou linguajar pretensioso. Ela brilha com mais força quando desce das alturas e fala no mesmo tom da conversa de quem está na rua, na feira e na mesa de casa.
- História da Igreja
- Martinho Lutero
- Reforma Protestante
- Tradução da Bíblia