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HistóriaReforma Protestante21 de 59

95 Teses de Lutero: 31 de outubro de 1517 e a Reforma

31 de Outubro de 1517: O Estopim da Reforma Protestante

Diego Gonçalves4 min de leitura829 palavras

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Na manhã de 31 de outubro de 1517, um monge e professor de teologia de trinta e três anos chamado Martinho Lutero caminhou até a porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, e pregou ali um pergaminho com noventa e cinco teses em latim. Aquele gesto não tinha a intenção de iniciar uma revolução mundial nem de dividir a igreja ocidental. No mundo universitário da época, a porta da igreja funcionava simplesmente como o quadro de avisos oficial do campus. Afixar um texto ali era o equivalente a convidar colegas professores para um debate acadêmico fechado sobre um tema que incomodava a sua consciência: o comércio descarado das indulgências.

Só que aquele convite universitário escapou imediatamente ao controle do autor e se transformou no primeiro fenômeno de comunicação de massa da era moderna.

Martinho Lutero afixa as 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, em pintura do século XIX
Ferdinand Pauwels, Lutero afixa as 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, 1872. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Para entender a faísca que provocou esse incêndio, precisamos olhar para o negócio que estava sendo montado nos bastidores do Sacro Império. O Papa Leão X precisava de fortunas para concluir as obras faraônicas da Basílica de São Pedro, em Roma. Ao mesmo tempo, um jovem nobre alemão chamado Alberto de Brandemburgo queria assumir o poderoso arcebispado de Mainz, mas a lei canônica proibia o acúmulo de cargos. Para conseguir uma autorização especial de Roma, Alberto contraiu um empréstimo astronômico com os banqueiros Fugger. A solução para pagar a conta foi uma parceria financeira com o papado: emitir uma bula especial de indulgências, com a arrecadação dividida ao meio: metade para Roma erguer a cúpula de mármore e metade para quitar a dívida de Alberto com os banqueiros.

O homem encarregado de fazer o dinheiro circular foi o frade dominicano Johann Tetzel, um vendedor implacável do século XVI. Tetzel chegava às cidades vizinhas a Wittenberg com estandartes dourados e anunciava um lema que apelava diretamente para a angústia dos familiares sobre as dores do purgatório: “Assim que a moeda no cofre cai, a alma do purgatório sai”. Camponeses pobres raspavam as últimas economias para comprar cartas de papel que prometiam o cancelamento imediato das penas espirituais.

Lutero já vinha de uma crise espiritual profunda. Como monge agostiniano devoto, ele jejuava, passava noites sem dormir e confessava pecados sem parar, mas continuava atormentado pelo terror da ira de Deus. A virada ocorreu quando ele se dedicou ao estudo da Carta aos Romanos e entendeu o versículo 17 do primeiro capítulo: “O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17). Lutero compreendeu que a justiça de Deus não é uma exigência que nos esmaga em punição, mas a justiça perfeita de Cristo concedida gratuitamente a todo aquele que crê.

Diante dessa redescoberta bíblica, o que Tetzel fazia pelas cidades pareceu a Lutero um grave erro teológico. As indulgências ensinavam o povo a comprar uma falsa paz com moedas, anulando a necessidade de arrependimento sincero e rebaixando o sacrifício de Cristo na cruz, suficiente e dado de uma vez por todas (Hebreus 10:10-14), a uma mercadoria de balcão.

Nas suas teses, Lutero foi preciso. Ele começou afirmando que o verdadeiro arrependimento ensinado por Jesus deve ser uma postura contínua de vida, e não um rito pontual comprado em feira. Na tese 36, cravou que qualquer cristão verdadeiramente quebrantado tem plena remissão da culpa e da pena sem precisar de cartas de indulgência. E na tese 86, questionou com ironia por que o papa, sendo riquíssimo, não construía a basílica com o próprio dinheiro em vez de esfolar os pobres crentes da Alemanha.

O ponto de virada definitivo aconteceu logo após a afixação. Estudantes e admiradores pegaram aquele texto acadêmico em latim, traduziram para o alemão do povo e levaram as cópias para as oficinas de impressão. A prensa de tipos móveis, inventada poucas décadas antes por Johannes Gutenberg, funcionou como o grande multiplicador da mensagem. Em duas semanas, os panfletos inundaram os principados germânicos; em dois meses, circulavam por toda a Europa.

O choque foi irreversível. A mensagem tocou o coração de milhares de pessoas cansadas da exploração religiosa e abriu caminho para a redescoberta da suficiência das Escrituras (sola Scriptura) e da justificação pela graça, mediante a fé, somente em Cristo (Efésios 2:8-9). Quando Lutero foi intimado a comparecer diante do imperador Carlos V na Dieta de Worms para negar seus escritos, ele deu a famosa resposta: sua consciência estava cativa à Palavra de Deus e, a menos que fosse convencido pelo testemunho claro da Bíblia, não se retrataria. O gesto daquele monge em Wittenberg provou que nenhum monopólio religioso ou político consegue sufocar a força de uma verdade bíblica comunicada na língua do povo e sustentada pela coragem da fé.