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Lutero e o fim dos tempos: O apocalipse e os inimigos
Na trincheira do apocalipse: As visões de Lutero sobre o fim dos tempos e seus inimigos
Para entender a mente vulcânica de Martinho Lutero, precisamos abandonar a ideia moderna de que ele era um estrategista político calculista tentando criar uma nova religião. Lutero vivia com uma certeza absoluta que moldava cada palavra que escrevia: ele estava convencido de que o mundo tinha entrado em seus últimos dias e que o Juízo Final estava a poucos passos de distância. Na cabeça do reformador alemão, a Europa do século XVI era o palco da batalha cósmica definitiva entre Cristo e Satanás.
Essa lente apocalíptica explica a urgência febril do seu trabalho, mas também revela por que o seu discurso era tão violento e implacável contra qualquer um que ele considerasse um obstáculo para o Evangelho. Ao ler as profecias do profeta Daniel e do livro do Apocalipse, Lutero identificou os personagens dos últimos dias com nomes, sobrenomes e instituições muito concretas de sua época.
O inimigo número um na mira de Lutero era o papado romano. Ele não via o papa apenas como um bispo corrupto ou equivocado, mas como a própria encarnação do Anticristo bíblico profetizado nas Escrituras. Para Lutero, a cúria romana havia usurpado o trono de Deus: vendia o perdão dos pecados em troca de moedas sonantes, transformava a graça em comércio e exigia lealdade cega acima da própria Palavra de Deus. Por causa dessa convicção, Lutero recusava qualquer possibilidade de acordo ou meio-termo com Roma; negociar com o papa seria o mesmo que apertar as mãos do próprio Satanás.
O segundo inimigo externo eram os turcos otomanos. No século XVI, o império muçulmano avançava furiosamente pelo Leste Europeu e chegou a cercar os portões de Viena. Lutero interpretou o avanço turco à luz do “pequeno chifre” da profecia de Daniel 7 (Daniel 7:8), uma vara de juízo que Deus usava para disciplinar uma cristandade apóstata. Ele chamava o povo à oração sincera de arrependimento e dizia que defender as terras contra a invasão armada era legítimo, só que o problema espiritual não seria resolvido apenas com canhões, mas voltando à Bíblia.
Só que a artilharia pesada de Lutero não se voltava apenas para fora; ela caía com força desmedida sobre quem discordava dele dentro do próprio campo protestante. Ele chamava reformadores como Andreas Karlstadt, Thomas Müntzer e o suíço Ulrich Zwingli de “falsos irmãos” ou “espíritos fanáticos” (Schwärmer). Quando se reuniu com Zwingli em Marburgo em 1529 para tentar unificar os protestantes, escreveu a giz sobre a mesa o texto latino da Ceia, Hoc est corpus meum (“Isto é o meu corpo”), segundo a tradição do encontro. Como Zwingli defendia que a Ceia era um memorial simbólico e Lutero insistia na presença real de Cristo no pão e no vinho, o alemão recusou-se a estender a mão de comunhão. Para ele, alterar uma vírgula do texto sagrado era ceder a uma artimanha do Diabo para corromper a igreja por dentro.
A página mais escura e dolorosa dessa trajetória, no entanto, foi sua atitude em relação aos judeus. No começo da Reforma, em 1523, Lutero escreveu um tratado admirável intitulado Que Jesus Cristo nasceu judeu, criticando duramente a Igreja Católica pela perseguição histórica aos judeus e defendendo que eles fossem tratados com gentileza e respeito cristão. Ele achava que, assim que a Bíblia pura fosse pregada, a comunidade judaica aceitaria Jesus em massa. Quando os anos se passaram e essa conversão não aconteceu, a frustração de Lutero azedou de forma trágica. Envelhecido, doente e tomado por uma fúria descontrolada, escreveu em 1543 o terrível livro Sobre os Judeus e Suas Mentiras, sugerindo a destruição de sinagogas, a confiscação de livros sagrados e a expulsão do convívio social. É uma mancha vergonhosa e indefensável em sua biografia, que séculos mais tarde foi tristemente instrumentalizada por ideologias antissemitas na Alemanha.
Por trás de todas essas figuras históricas, Lutero enxergava um único titereiro invisível: o Diabo. Para ele, as dores de cabeça, a depressão profunda e as perseguições políticas eram assaltos diretos do príncipe das trevas tentando calar a verdade da graça.
Estudar o pensamento escatológico de Lutero nos deixa uma advertência valiosa. Quando a convicção do fim dos tempos perde a sobriedade do amor bíblico e se transforma em paranoia e caça às bruxas, até as mentes mais brilhantes correm o risco de ferir o Evangelho que queriam defender. A fé em Cristo nos chama a vigiar com esperança na Sua volta. O próprio Senhor, porém, marcou o limite da nossa curiosidade: “Porém daquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, a não ser meu Pai somente” (Mateus 24:36, Bíblia Livre). Quem vigia não faz calendário nem escolhe inimigos para odiar. Vigia orando, pregando e amando, e lembra que a nossa arma principal nunca é o veneno da amargura, e sim a verdade pregada em amor.
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