
TeologiaReforma Protestante70 de 128
Ceia do Senhor: luteranos e metodistas e a presença real
A mesa da Ceia entre luteranos e metodistas: presença real ou mesa aberta?
Poucos momentos na liturgia cristã concentram tanta reverência quanto a Ceia do Senhor. Quando o pão é partido e o cálice é erguido, a congregação inteira silencia para contemplar a morte do Redentor, que Paulo manda anunciar “até que ele venha” (1 Coríntios 11:26).
Se você prestar atenção ao que acontece ao redor do altar numa igreja luterana e depois visitar uma igreja metodista, vai perceber duas maneiras de se aproximar dessa mesa.
Os luteranos herdaram a convicção firme e apaixonada de Martinho Lutero de que o corpo e o sangue de Jesus estão realmente ali debaixo dos elementos materiais. Os metodistas, guiados por John Wesley, fizeram da mesa um lugar de acolhimento amplo, onde qualquer pecador sedento de perdão pode encontrar a graça de Deus.
O giz de Lutero na mesa de Marburgo
Para entender a teologia luterana da Ceia, precisamos voltar ao ano de 1529, ao Colóquio de Marburgo, na Alemanha. Martinho Lutero e o reformador suíço Ulrico Zuínglio sentaram-se para tentar unir o protestantismo. Zuínglio sustentava que a Ceia era sobretudo um memorial, e que o pão representava o corpo de Cristo.
Lutero não aceitou o argumento. Conta-se que ele pegou um pedaço de giz, escreveu na mesa a frase de Jesus em latim, Hoc est corpus meum (“Isto é o meu corpo”; Mateus 26:26), e cobriu a escrita com uma toalha de veludo. Quando Zuínglio argumentava, Lutero levantava a toalha e apontava para o texto: Jesus não tinha dito que o pão simboliza o corpo, e sim que o pão é o corpo. O episódio do giz é um relato tradicional; o que se sabe com segurança é que Lutero se agarrou a essas palavras de Jesus e que os dois lados não chegaram a acordo sobre a Ceia.
Os luteranos rejeitaram a transubstanciação católica romana (a ideia de que a substância do pão desaparece para dar lugar ao corpo físico), mas formularam a doutrina da união sacramental: Cristo está verdadeira, substancial e realmente presente “em, com e sob” o pão e o vinho. Paulo pergunta se o pão que partimos não é “a comunhão do corpo de Cristo” (1 Coríntios 10:16), e os luteranos leem essa pergunta de modo bem literal.
Para a igreja luterana, a Ceia não é apenas um exercício de memória: é o meio pelo qual Deus sela ao crente o perdão dos pecados, prometido nas palavras de Jesus, “para o perdão de pecados” (Mateus 26:28). Por causa dessa visão elevada do sacramento, muitas correntes luteranas tradicionais praticam a chamada comunhão restrita (ou mesa fechada), permitindo a participação apenas de quem foi instruído e compartilha da mesma confissão.
John Wesley e o sacramento que converte
No século XVIII, na Inglaterra, John Wesley olhou para a Ceia com coração pastoral. Ele herdou a teologia anglicana, que afirmava a presença real espiritual de Cristo: quando o crente recebe o pão pela fé, o Espírito Santo o alimenta com a vida de Jesus, sem que seja preciso situar a carne de Cristo nos elementos materiais.
O destaque em Wesley está no alcance da mesa. Na época dele, muita gente deixava de participar da Ceia achando que não era “digna o suficiente”. Wesley pregou então o sermão O Dever da Comunhão Constante, incentivando as pessoas a participarem da Ceia com a maior frequência possível, porque ela é um meio de graça ordenado por Cristo.
Mais do que isso: Wesley chamou a Ceia de meio de graça convertedor (converting ordinance). Ele acreditava que uma pessoa ainda inquieta, em busca de Deus, podia ser tocada pelo amor de Cristo e nascer de novo ao receber o pão e o cálice. Para ele, a graça vem de Deus, e o pão e o cálice são o caminho que Ele mesmo escolheu para alcançar quem O busca.
Por isso, o metodismo consolidou a tradição da mesa aberta: o convite para a Ceia não se restringe aos membros da denominação, mas se estende a quem ama a Jesus, se arrepende dos pecados e deseja viver em paz com o próximo.
O pão que alimenta a alma
Quando colocamos essas duas tradições lado a lado, vemos como elas se enriquecem mutuamente.
Os luteranos nos ensinam a não banalizar o sacramento. Lembram que a Ceia não é uma encenação vazia nem um lanche comunitário informal, mas um encontro com a graça do Deus santo que nos perdoa e nos sustenta.
Os metodistas nos protegem do elitismo religioso. Lembram que a mesa não pertence ao pastor nem à diretoria da igreja, e sim ao Senhor Jesus. Ele sempre se assentou com pecadores, e recebe quem reconhece que não tem mérito nenhum e precisa da misericórdia do Pai.
- Teologia
- Teologia Comparada
- Ceia do Senhor
- Luteranos