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Thomas Cranmer e a liturgia: O preconceito evangélico
O preconceito evangélico contra a liturgia e a lição de Thomas Cranmer
Criou-se no meio evangélico brasileiro uma desconfiança quase automática contra tudo o que envolva liturgia, ritos estruturados ou orações escritas. Repete-se sem pestanejar que ler uma oração é sinônimo de frieza espiritual, enquanto qualquer discurso improvisado ao microfone é saudado como manifestação imediata do Espírito Santo. Essa oposição ingênua entre preparo e espiritualidade tem produzido uma igreja superficial, viciada em chavões emotivos e teologicamente desnutrida.
Basta conhecer a história da Reforma inglesa no século 16 para perceber o quanto esse preconceito é desprovido de base bíblica e histórica.
Quando o arcebispo Thomas Cranmer liderou a publicação da primeira edição do Livro de Oração Comum em 1549, o seu objetivo foi o oposto do formalismo morto. Na época, os cultos na Inglaterra eram celebrados em latim medieval, uma língua que os camponeses, operários e comerciantes não compreendiam. A religião popular estava afogada em superstições mágicas, e a oração era vista como um privilégio reservado a monges e clérigos profissionais, que cobravam para interceder pelos leigos.
Cranmer não elaborou aquele livro para aprisionar a fé em palavras engessadas. Ele realizou um ato revolucionário de democratização das Escrituras, conforme Paulo: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15, Bíblia Livre).
Ele reuniu as passagens centrais da Bíblia, os Salmos e as grandes orações da igreja antiga e as verteu para um inglês límpido e poético. Pela primeira vez na história inglesa, um sapateiro ou uma dona de casa podia abrir um livro na língua materna, participar das orações com a congregação, confessar os próprios pecados em voz alta e levar a liturgia da Palavra para dentro do lar, santificando as manhãs e as noites da família. Cranmer pagou o preço máximo por defender essa fé centrada na Bíblia: foi condenado por heresia e queimado vivo em praça pública em Oxford, em 1556.
A nossa tão celebrada “espontaneidade” de culto muitas vezes não passa de uma desculpa para a preguiça espiritual. O resultado de abandonar a riqueza das orações bíblicas e históricas tem sido uma enxurrada de improvisos egocêntricos nos púlpitos, onde se fala muito, mas se diz quase nada sobre a santidade de Deus e a cruz de Cristo.
Aprender a orar com as Escrituras e com a sabedoria dos santos que nos antecederam não apaga a ação do Espírito Santo. Essa disciplina saudável cura a nossa alma da tirania dos sentimentos passageiros, educa a nossa mente na verdade bíblica e nos ensina a falar com o Senhor com a seriedade e o assombro que a sua glória exige. Não oramos para merecer a graça, e sim porque ela já nos alcançou em Cristo.
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