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HistóriaReforma Protestante35 de 59

Colóquio de Marburg em 1529: Lutero, Zuínglio e a Reforma

Marburg 1529: O giz de Lutero e a fratura da Reforma

Diego Gonçalves5 min de leitura1.068 palavras

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Em outubro de 1529, um dos castelos mais imponentes da Alemanha foi palco de uma reunião que poderia ter mudado o rumo da história ocidental. O príncipe Filipe de Hesse, percebendo que as forças leais ao imperador Carlos V e ao papa se articulavam para esmagar os protestantes pela força das armas, resolveu juntar na mesma sala os dois nomes mais influentes do movimento: Martinho Lutero, vindo de Wittenberg, e Ulrico Zuínglio, vindo de Zurique.

A ideia era simples e urgente: se os reformadores concordassem numa confissão comum de fé, poderiam formar uma aliança religiosa e militar capaz de garantir a sobrevivência da Reforma. O que aconteceu na prática, no entanto, foi uma das demonstrações mais dramáticas de como o orgulho teológico e o apego a detalhes conceituais podem romper a comunhão cristã.

Relevo em bronze com Zuínglio de pé, diante da mesa, e Lutero sentado, sob a inscrição Marburg 1529
Relevo em bronze sobre o Colóquio de Marburg, 1529, no Castelo de Marburg. Foto de M. J., 2009, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Quatorze acertos e uma mesa riscada

Para surpresa de muitos presentes, o debate correu com facilidade na maior parte dos temas centrais. Os dois redigiram quinze artigos de fé e concordaram, sem grande dificuldade, sobre a doutrina da Trindade, sobre a natureza do pecado original, sobre a divindade de Jesus, sobre a justificação unicamente pela fé e sobre a autoridade absoluta das Escrituras. Em quatorze artigos, o acordo foi pleno.

O problema estava no décimo quinto artigo: a Ceia do Senhor.

Antes mesmo de o debate começar, Lutero pegou um pedaço de giz, escreveu com letras firmes sobre a mesa de madeira uma frase em latim, Hoc est corpus meum (“Isto é o meu corpo”), e a cobriu com uma toalha de veludo.

Para Lutero, as palavras de Jesus na última ceia não admitiam nenhuma interpretação metafórica. Embora ele rejeitasse a doutrina católica da transubstanciação (a ideia de que a substância do pão se transforma na carne de Cristo), ele insistia que o corpo e o sangue do Senhor estavam real e fisicamente presentes “em, com e sob” os elementos do pão e do vinho. Se Cristo disse “este é o meu corpo”, o fiel não deve tentar explicar nem contornar a frase, e sim crer no mistério.

A lógica suíça diante da fé alemã

Do outro lado da mesa, Zuínglio argumentava a partir de uma sensibilidade humanista e bíblica bem diferente. Para o reformador de Zurique, o verbo “ser” muitas vezes é usado nas Escrituras no sentido de “significar” ou “representar”. Quando Jesus diz “eu sou a videira” ou “eu sou a porta”, ninguém imagina que Ele tenha galhos ou dobradiças de madeira.

Além disso, Zuínglio apelava para o Credo dos Apóstolos: se Cristo subiu aos céus e está assentado à direita de Deus Pai, o seu corpo humano está no céu, e não espalhado ao mesmo tempo por milhares de altares da Europa. A Ceia, para Zuínglio, era fundamentalmente uma refeição memorial, um testemunho público de gratidão e fé da comunidade reunida para recordar a morte redentora de Jesus na cruz.

O debate durou dias e foi esquentando. Zuínglio acusava Lutero de reintroduzir o catolicismo pela porta dos fundos; Lutero acusava Zuínglio de subordinar as palavras claras de Cristo à razão humana. A certa altura da discussão, Lutero levantou a toalha de veludo, bateu a mão sobre a mesa onde o giz continuava visível e disse que dali não sairia.

A mão que ficou no ar

Quando ficou evidente que nenhum dos dois mudaria de ideia, Filipe de Hesse tentou salvar o que restava do encontro e pediu que, mesmo sem acordo sobre a mecânica da Ceia, os dois se reconhecessem como irmãos.

Zuínglio, com lágrimas nos olhos, estendeu a mão para Lutero.

A resposta do reformador alemão foi dura, e ecoa até hoje. Lutero recusou o aperto de mão e disse: “O vosso espírito é diferente do nosso. Não podemos reconhecer-vos como irmãos e membros de Cristo”. Ele aceitou apenas a paz civil e a caridade comum a todos, mas negou a comunhão da igreja aos suíços.

Aquele gesto selou a divisão do protestantismo histórico entre luteranos e reformados. A aliança fracassou quando os seus dois maiores líderes colocaram a defesa de suas posições sobre a Ceia acima do mandamento do amor fraterno (João 13:34-35).

A mesa da união que virou motivo de ruptura

A ironia do Colóquio de Marburg é difícil de engolir. Jesus instituiu a Ceia na véspera de sua morte para ser o banquete de memória do seu sacrifício, o lugar onde a comunidade se reúne ao redor do mesmo pão partido para proclamar que pertence ao mesmo Senhor. Paulo diz isso com todas as letras:

“Por acaso o copo da bênção, que nós bendizemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque assim como há um só pão, nós muitos somos um só corpo; porque todos participamos de um só pão.”

(1 Coríntios 10:16-17, Bíblia Livre)

Em Marburg, a mesa da comunhão virou uma trincheira de guerra teológica. Dois gigantes da fé, que arriscaram a vida contra Roma, concordaram em quase tudo o que é essencial na doutrina bíblica, mas romperam a comunhão por causa do modo exato como Cristo está presente num pedaço de pão. Na tradição wesleyana, a Ceia é meio de graça, em que Cristo se dá a quem vem com fé.

A história da igreja é cheia desses monumentos à teimosia humana. Vez após vez, grupos cristãos repetem o drama de Marburg: definem com tanta rigidez os detalhes secundários de sua teologia particular que passam a enxergar quem concorda com a essência do evangelho não como irmão, mas como adversário perigoso.

Defender a verdade bíblica é um dever indispensável para qualquer cristão que leve as Escrituras a sério. Mas quando a busca pela precisão teológica nos faz perder a misericórdia, a paciência e a capacidade de estender a mão a quem confessa o mesmo Cristo, o giz sobre a mesa deixa de ser sinal de fidelidade e passa a ser só o registro do nosso partidarismo.