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HistóriaReforma Protestante21 de 121

Por que Lutero trocou o direito pelo mosteiro em 1505

Do tribunal para o claustro: Por que Lutero trocou o direito pelo mosteiro?

Diego Gonçalves4 min de leitura715 palavras

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Em meados de 1505, o jovem Martinho Lutero tinha tudo para ser um dos homens mais bem-sucedidos e influentes da Alemanha. Aos 21 anos, havia concluído o mestrado em artes na Universidade de Erfurt em tempo recorde, brilhando nos debates públicos a ponto de ser chamado pelos colegas de “O Filósofo”. Seu pai, Hans Luder, um mineiro próspero que trabalhou pesado para pagar os estudos do filho, estava radiante. Hans comprou para Martinho uma cópia caríssima do Corpus Juris Civilis, a obra de referência do direito romano na época, e sonhava em vê-lo como um juiz rico, bem casado e capaz de sustentar a família na velhice. Só que, poucas semanas depois de iniciar o curso de direito, Lutero jogou tudo para o alto e bateu no portão de um mosteiro.

A versão popular dessa história costuma colocar toda a culpa num único raio. No dia 2 de julho de 1505, voltando a pé de uma visita aos pais, Lutero foi surpreendido por uma tempestade violenta perto da aldeia de Stotternheim. Um raio caiu tão perto que o impacto do trovão o jogou no chão enlameado. Em pânico absoluto diante da morte iminente, o estudante gritou para a padroeira dos mineiros: “Ajuda-me, Santa Ana! Eu me tornarei um monge!”. Quinze dias depois, cumpria a promessa e entrava no convento dos agostinianos observantes em Erfurt.

Pintura de Lutero, jovem, sendo recebido por monges à porta do mosteiro agostiniano de Erfurt
Ferdinand Pauwels, Lutero entra no mosteiro, entre 1860 e 1903. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Só que ninguém toma uma decisão tão radical por causa de um susto com o tempo se a alma já não estiver inquieta por dentro. O raio em Stotternheim foi o último empurrão de uma angústia que vinha de antes.

A verdade é que Lutero já vinha sendo consumido havia meses por uma angústia espiritual profunda. Ele foi criado na piedade medieval típica do século XVI, onde a morte era uma presença constante: as epidemias de peste dizimavam cidades inteiras e a expectativa de vida era baixíssima. A religião da época ensinava que Deus era um juiz severo, pronto para condenar qualquer pecador que não acumulasse méritos e penitências suficientes para merecer a salvação.

Enquanto decorava códigos de leis e aprendia a argumentar em processos jurídicos terrenos, a pergunta que martelava o peito de Lutero dia e noite era outra: “Como posso encontrar um Deus gracioso?”. As leis humanas podiam garantir prestígio, dinheiro e a aprovação do pai, só que não davam resposta nenhuma à condenação eterna da alma. Lutero olhava para o próprio coração e via apenas pecado, culpa e a incapacidade de satisfazer a justiça divina por forças próprias.

Quando a tempestade desabou sobre sua cabeça, o que o aterrorizou não foi só o trovão, mas a certeza de que, se morresse naquele segundo, compareceria despreparado diante do trono de Deus. O claustro apareceu para ele como o único refúgio seguro. Na teologia medieval, fazer os votos de pobreza, castidade e obediência era visto como uma espécie de segundo batismo, o caminho mais seguro para aplacar a ira de Deus.

Lutero reuniu os amigos mais próximos num jantar de despedida, entregou a eles os livros de direito e o alaúde de que tanto gostava e, no dia seguinte, atravessou os portões do mosteiro. O pai ficou furioso e cortou relações com o filho por anos, acusando-o de ingratidão.

Aquela reviravolta mudou o rumo da Europa. Lutero entrou no convento em busca de paz para a própria alma, só que descobriu que nem as celas frias, nem os jejuns rigorosos, nem as vigílias de oração conseguiam tirar a culpa do coração humano. Foi o fracasso das tentativas de se salvar a si mesmo que o preparou para redescobrir, anos depois, o maior tesouro do Evangelho: a justiça de Deus não é conquistada pelo esforço humano, mas recebida como presente, somente pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo. Foi essa descoberta que o fez ler de outro modo as palavras de Paulo:

“O justo viverá pela fé.”

(Romanos 1:17, Bíblia Livre)

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