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Lutero e a Reforma Protestante: crenças e vida na Europa
Da cela monástica para a mesa da cozinha: como Lutero mudou a Europa
Muita gente pensa na Reforma Protestante como uma discussão teológica abstrata, travada por acadêmicos e bispos em reuniões solenes. Imaginamos teses em latim, concílios imperiais e debates doutrinários distantes do cidadão comum. O terremoto provocado por Martinho Lutero no século XVI, porém, foi muito além das salas de aula universitárias: saiu dos muros dos mosteiros e chegou à mesa da cozinha, ao trabalho diário e à criação dos filhos do povo europeu.
No centro de tudo estava uma redescoberta bíblica: a justificação pela fé somente. Lutero era um monge agostiniano apavorado com a ira de Deus. Passava horas se confessando, jejuava até adoecer e tentava acumular méritos religiosos para acalmar a consciência culpada. Quando entendeu, lendo as cartas de Paulo, que a salvação não se compra por esforço próprio nem por moeda de indulgência, mas é um presente gratuito da graça de Deus, recebido pela fé em Cristo (Efésios 2:8-9), a sua vida virou de ponta-cabeça.
Essa certeza derrubou a dependência da mediação sacerdotal para chegar a Deus. O cristão comum podia se aproximar dele diretamente, em Cristo, único mediador (1 Timóteo 2:5), sem precisar que um bispo vendesse um pedaço de pergaminho para perdoar seus pecados.
Daí o sacerdócio universal de todos os crentes (1 Pedro 2:9) transformou a sociedade. Até então, a cultura medieval dividia o mundo em duas classes: a elite espiritual (padres, freiras e monges, que viviam em celibato e oravam) e o resto do povo (os leigos, que trabalhavam na terra e se casavam). O trabalho manual era visto quase como atividade de segunda categoria.
Lutero derrubou essa barreira. Ensinou que ordenhar uma vaca, varrer a casa, remendar sapatos ou governar uma cidade com justiça é serviço agradável a Deus, tanto quanto celebrar uma missa. Toda profissão honesta se tornou vocação para servir ao próximo.
A mudança alcançou a vida familiar. Ao abandonar o voto de celibato e se casar, em 1525, com Catarina von Bora, uma ex-freira fugitiva, Lutero inaugurou o modelo do lar pastoral protestante. A casa deles em Wittenberg vivia cheia de estudantes, órfãos e viajantes famintos. Em vez da ascese fria do claustro, a vida cristã passou a ser cultivada ao redor de uma mesa barulhenta, com pão, risadas, música e conversa sincera. Lutero escreveu catecismos curtos e didáticos para que os próprios pais ensinassem os fundamentos da fé aos filhos em casa.
No culto, colocou a congregação para cantar. Antes, o povo apenas assistia em silêncio ao coral cantando em latim, lá na frente. Lutero compôs hinos vigorosos na língua do povo e ensaiou as famílias durante a semana, porque acreditava que quem foi alcançado pela graça não pode ficar mudo diante de Deus.
Lutero também não era santo de gesso. Tinha temperamento explosivo, era teimoso nas disputas doutrinárias com outros reformadores e, na velhice, doente e amargurado, escreveu tratados lamentáveis e agressivos contra os judeus, que mancharam profundamente o seu legado.
Ainda assim, a teologia de Lutero devolveu à fé cristã o seu frescor bíblico. Ele tirou as Escrituras dos cofres e as pôs nas mãos do povo (sola Scriptura); tirou a esperança da barganha moralista e a fixou na cruz de Cristo (solus Christus); e lembrou ao mundo que a vida com Deus não acontece fugindo da realidade, mas servindo com alegria no chão comum do dia a dia.
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