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Mártires da Guanabara e o início do protestantismo no Brasil
Os huguenotes de Genebra na Baía de Guanabara e os primeiros passos da fé reformada no Brasil
Muito antes de missionários britânicos ou norte-americanos desembarcarem no Brasil no século 19, a fé reformada já havia chegado ao litoral brasileiro no século 16. Em plena Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, um grupo de huguenotes franceses realizou o primeiro culto protestante de que se tem registro no continente americano e redigiu um dos documentos teológicos mais impressionantes da história da igreja. Como essa expedição pioneira aconteceu e por que terminou em tragédia e martírio?
A história começou em 1555, quando o cavaleiro francês Nicolas Durand de Villegagnon liderou uma frota naval para estabelecer uma colônia francesa no Brasil, batizada de França Antártica. A França vivia sob intensas tensões religiosas entre católicos e protestantes, e o influente almirante Gaspard de Coligny, simpático à causa da Reforma, apoiou o projeto com a intenção de criar um refúgio seguro para os crentes perseguidos.
Ao perceber a necessidade de líderes espirituais preparados e colonos disciplinados para consolidar o povoado, Villegagnon enviou cartas ao reformador João Calvino, em Genebra, pedindo o envio de pastores e homens piedosos. A resposta da igreja genebrina foi imediata: em março de 1557, uma segunda expedição chegou à ilha de Serigipe (hoje Ilha de Villegagnon), trazendo catorze huguenotes, incluindo os pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier.
Poucos dias após o desembarque, em 10 de março de 1557, o pastor Richier pregou o primeiro sermão protestante registrado nas Américas, tendo como base o Salmo 27:4:
“Pedi uma coisa ao SENHOR, e a ela buscarei: que eu possa morar na casa do SENHOR todos os dias de minha vida, para ver a beleza do SENHOR, e consultá-lo em seu Templo.”
(Salmos 27:4, Bíblia Livre)
Onze dias depois, no domingo, 21 de março, eles celebraram a primeira Ceia do Senhor segundo a liturgia reformada no Novo Mundo.
A convivência pacífica durou pouco. Villegagnon logo entrou em confronto teológico com os pastores a respeito da presença de Cristo na Ceia do Senhor e de outras doutrinas da Igreja de Roma. Homem instável e autoritário, o governador francês mudou de lado, expulsou os reformadores da fortaleza e os abandonou entre os indígenas tupinambás na praia de terra firme.
Quando um navio francês retornou para resgatar os colonos, cinco deles não conseguiram prosseguir a viagem devido à superlotação da embarcação e foram obrigados a voltar à ilha. Villegagnon os prendeu imediatamente e exigiu que respondessem por escrito a uma série de artigos teológicos sobre a fé, dando-lhes um ultimato de poucas horas.
O resultado dessa exigência foi a Confissão de Fé da Guanabara, redigida na prisão em janeiro de 1558, principalmente por Jean du Bourdel com o apoio dos colegas. O documento é uma declaração límpida de fé bíblica e ortodoxa, articulando com sobriedade as doutrinas da Trindade, da autoridade suprema das Escrituras, da justificação somente pela fé em Cristo e da natureza espiritual dos sacramentos.
Recusando-se a renegar o que haviam escrito, três dos huguenotes, Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon, foram estrangulados e lançados das muralhas da fortaleza nas águas da Guanabara em 9 de fevereiro de 1558. André de Lafon, que era alfaiate, foi poupado por fraquejar diante da ameaça, e Jacques le Balleur conseguiu fugir, sendo executado anos mais tarde pelos portugueses.
O martírio dos calvinistas franceses na Guanabara revela que a história do cristianismo no Brasil carrega raízes profundas de fidelidade bíblica. Aqueles homens poderiam ter preservado a própria vida com uma simples concessão doutrinária, mas preferiram o sepulcro nas águas do mar a negociar a supremacia da graça de Cristo revelada nas Escrituras.
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