AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaReforma Protestante14 de 121

Jan Hus e Lutero: O cisne que cantou cem anos depois

Como Jan Hus antecipou Martinho Lutero em um século?

Diego Gonçalves6 min de leitura1.128 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Quando os livros de história falam sobre a Reforma Protestante, costumam colocar o holofote inteiro em cima de Martinho Lutero e no dia em que ele pregou as 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, em 1517. Parece que o monge alemão acordou de repente numa manhã de outono, teve uma ideia brilhante e começou uma revolução sozinho, do zero.

Só que a história real nunca funciona em saltos mágicos. Pouco mais de cem anos antes de Lutero, um padre e professor tcheco chamado Jan Hus já dizia muitas das mesmas coisas na cidade de Praga, e pagou por isso com a própria vida na fogueira.

Xilogravura em que Jan Hus e Martinho Lutero distribuem a comunhão aos príncipes da casa da Saxônia
Lucas Cranach, o Velho, Os reformadores Lutero e Hus dando a comunhão aos príncipes da casa da Saxônia, xilogravura. Coleção Rosenwald, National Gallery of Art, Washington. CC0, via Wikimedia Commons.

A ligação entre esses dois homens vai além de uma coincidência de datas. Ela ajuda a entender que a volta à Bíblia foi um movimento que a hierarquia religiosa tentou calar à força durante décadas, até que a represa finalmente se rompeu.

O ganso e o cisne

Na língua tcheca, o sobrenome “Hus” quer dizer literalmente ganso. Quando o Concílio de Constança o condenou à morte, em 1415, a tradição popular registrou uma frase profética que teria sido dita por Hus antes de o fogo consumir a lenha: “Vocês hoje podem assar um ganso, mas daqui a cem anos ouvirão o canto de um cisne que ninguém conseguirá queimar nem calar”.

Seja a frase um fato histórico literal ou uma metáfora criada mais tarde pelos seus seguidores, o cisne passou a ser associado a Lutero e ao movimento que ele liderou. E a razão para isso foi um verdadeiro choque de consciência.

Lutero já era professor de teologia quando leu o tratado De Ecclesia (“Sobre a Igreja”), escrito por Jan Hus cem anos antes. Ao passar as páginas e ver os argumentos bíblicos de Hus, o reformador alemão ficou atônito. Em 1520, escreveu a um amigo, Georg Spalatin: “Sem saber, eu já estava ensinando tudo o que Jan Hus ensinou. Paulo, Agostinho e eu éramos todos hussitas sem nos darmos conta”.

A igreja institucional havia rotulado Hus como o pior dos hereges. E Lutero acabava de descobrir que o chamado “herege” estava apenas ensinando o que a Bíblia dizia de capa a capa.

O que Jan Hus ensinava afinal?

Hus era reitor da Universidade de Praga e pregava na Capela de Belém, onde tomou uma decisão ousada para a época: em vez de falar num latim que o povo comum não entendia, pregava na língua do povo. Ele insistia em quatro pontos fundamentais, que mais tarde se tornaram alicerces do protestantismo:

  1. A autoridade suprema da Bíblia: Nenhuma decisão de papa, bispo ou concílio pode contrariar aquilo que está nas Escrituras. Para Hus, a Palavra de Deus é a régua definitiva que julga as pessoas, e não as pessoas que julgam a Palavra. A Reforma resumiria depois esse princípio como sola Scriptura.
  2. Cristo é o único cabeça da igreja: Hus rejeitava a pretensão de que o bispo de Roma fosse o cabeça infalível da fé cristã na terra. A cabeça de um corpo não pode ser trocada a cada eleição de cardeais, e a cabeça da igreja é Jesus ressurreto.
  3. A distinção entre o prédio e a comunidade real: Fazer parte de uma estrutura institucional com cargos e roupas bonitas não garante a salvação de ninguém. A verdadeira igreja é invisível aos olhos humanos, a comunhão viva de quem foi regenerado pela graça de Deus.
  4. O fim da corrupção eclesiástica: Hus denunciava a simonia, que é a venda de cargos na igreja, e o enriquecimento ilícito do clero, que cobrava por sacramentos e indulgências enquanto o povo vivia na miséria.

Por manter essas convicções, Hus foi atraído ao Concílio de Constança sob a promessa de um salvo-conduto assinado pelo imperador Sigismundo. Poucas semanas depois de chegar, foi preso, e o salvo-conduto não foi respeitado. Ficou trancado numa cela imunda, foi julgado por um tribunal que o calou quando tentou se defender com a Escritura e acabou queimado vivo, com um chapéu de papel na cabeça decorado com demônios.

As diferenças entre os dois reformadores

Apesar da enorme afinidade, seria um anacronismo dizer que Jan Hus era um luterano antes da hora. Ele era um homem medieval, e a sua reflexão teológica ainda estava em transição.

Hus estava preocupado principalmente com a moralidade e com a autoridade da igreja. Ele não chegou a sistematizar a doutrina da justificação somente pela fé da forma como Lutero fez a partir de Romanos e Gálatas. Hus ainda mantinha noções medievais sobre a missa, sobre a mediação da igreja e sobre o mérito das boas obras.

Lutero achou na Escritura a resposta: “Concluímos, portanto, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da Lei” (Romanos 3:28, Bíblia Livre).

Hus limpou o terreno e acendeu o pavio da fidelidade bíblica, mas coube à geração de Lutero e Calvino aprofundar a teologia da graça e desmontar por completo o sistema de justiça própria.

O eco de Constança em Worms

O martírio de Jan Hus pesou na postura de Lutero na famosa Dieta de Worms, em 1521.

Quando os nobres e os bispos colocaram os livros de Lutero sobre uma mesa e exigiram que ele renegasse tudo o que havia escrito, Lutero se lembrou do que aconteceu em Constança. Ele sabia que o sistema eclesiástico da época não hesitava em queimar quem discordasse de suas regras.

Mesmo sob risco de morte, a resposta de Lutero lembrou a coragem de Jan Hus: “A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por uma razão clara, não posso e não vou me retratar de nada. A minha consciência é cativa da Palavra de Deus”.

A diferença prática foi que, em 1521, príncipes alemães protegeram Lutero e a prensa de tipos móveis espalhou as suas palavras pela Europa inteira em pouco tempo. A fogueira já não tinha mais forças para queimar a verdade.

Em 1999, o papa João Paulo II manifestou publicamente pesar pela morte cruel de Jan Hus e reconheceu a sua integridade moral. A história deu a sua volta: o homem que tentaram apagar com fogo continua de pé como testemunho de que a verdade da Palavra de Deus nunca se curva às ameaças do poder humano.

140pal/min