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Estudo bíblico na Idade Média: a Escritura sob o dogma
Quando a Bíblia ficou sob a tutela da tradição: o estudo das Escrituras na Idade Média
Muita gente pensa que, durante a Idade Média, o problema da Bíblia era simplesmente o fato de ela não estar traduzida para as línguas do povo ou de estar guardada nos mosteiros. Isso existiu, mas havia algo mais sutil acontecendo nas universidades e na teologia daquele tempo: a Bíblia havia sido colocada a serviço dos dogmas da igreja.
Em geral, o texto bíblico não era lido para descobrir o que o autor sagrado quis dizer no seu contexto histórico, gramatical e literário. O método funcionava de trás para frente. A igreja já tinha definido suas doutrinas, hierarquias e ritos, e o papel de muitos teólogos nas salas de aula era encontrar versículos que justificassem o que a instituição já praticava.
O estudo das Escrituras ficava preso à Glosa Ordinária, uma compilação de comentários dos Pais da Igreja e de mestres medievais, escritos nas margens e entre as linhas dos manuscritos em latim. O estudante não lia a página da Bíblia limpa, mas cercada por interpretações consagradas, das quais pouco se podia discordar. A tradição funcionava como óculos de lentes escuras: o leitor só enxergava na Escritura aquilo que a tradição permitia ver.
A exegese medieval se apoiava, ainda, na teoria dos quatro sentidos da Escritura: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico (o que aponta para a esperança final). Havia mestres que defendiam o sentido literal como base de todos os outros, como Tomás de Aquino. Mas, quando um texto histórico do Antigo Testamento criava embaraço ou parecia contradizer a teologia vigente, era comum deixar de lado o sentido literal e recorrer a uma alegoria conveniente. Assim, uma passagem podia ser levada a significar quase qualquer coisa que a liderança da igreja quisesse.
Nesse modelo, a autoridade da igreja ficava acima da autoridade da Bíblia. Argumentava-se que, como a igreja havia reconhecido os livros do cânon, tinha também o direito de dizer o que o texto significava no presente. O texto bíblico ficava reduzido a material de apoio. Servia para validar decretos, mas não podia corrigir a conduta da própria igreja. A própria Escritura se apresenta, ao contrário, como a norma que corrige:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça; para que o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra.”
(2 Timóteo 3:16-17, Bíblia Livre)
Essa redoma dogmática começou a trincar no século 15, com o Renascimento e o lema humanista ad fontes (de volta às fontes originais). Em 1516, Erasmo de Roterdã publicou o Novo Testamento em grego. Estudiosos e monges puderam então comparar o texto escrito pelos apóstolos com a Vulgata latina, a tradução em que se apoiavam muitos dos argumentos da época, e perceberam passagens que o original corrigia.
Quando Martinho Lutero e os outros reformadores proclamaram o princípio do sola Scriptura, não estavam defendendo um slogan acadêmico. Estavam devolvendo à Palavra de Deus o lugar de régua e prumo da fé, pondo a tradição sob a Escritura. Nenhuma autoridade eclesiástica, papa ou concílio tem poder para calar a voz viva das Escrituras.
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