AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaReforma Protestante70 de 121

Lutero e as divisões na Reforma: O caso de Zuínglio

Giz na mesa e mãos fechadas: o dia em que os reformadores se dividiram

Diego Gonçalves3 min de leitura674 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

É tentador imaginar o protestantismo do século XVI como um bloco harmonioso de homens santos concordando em tudo. A ilusão dura até lermos a história do Colóquio de Marburgo, em 1529. Naquele castelo alemão, o alemão Martinho Lutero e o suíço Ulrico Zuínglio, dois dos maiores líderes da Reforma, sentaram-se à mesma mesa com um objetivo urgente: formar uma aliança teológica e política para proteger o protestantismo nascente da ameaça militar do imperador e de Roma.

Assinaturas manuscritas dos participantes do Colóquio de Marburgo, entre elas as de Zuínglio, Lutero e Melanchthon
Assinaturas dos participantes do Colóquio de Marburgo, 1529: Zuínglio, Bucer e Hédio, Lutero, Jonas e Melanchthon, Osiander e outros. Reprodução do documento, domínio público, via Wikimedia Commons.

O encontro começou com uma concordância notável. Debatendo ponto por ponto, os dois lados concordaram em catorze dos quinze artigos da fé: a Trindade, a justificação somente pela fé, a autoridade suprema das Escrituras, a depravação humana, o batismo e a rejeição ao papado. Quase tudo estava resolvido.

O décimo quinto artigo, porém, era a Ceia do Senhor, e ali as conversas se romperam.

Para Zuínglio, as palavras de Jesus na última ceia, “isto é o meu corpo” (Mateus 26:26), tinham sentido simbólico: “isto representa o meu corpo”. Argumentava que o corpo de Cristo ressurreto estava no céu, à destra do Pai, e que a Ceia era um memorial de gratidão, no qual a presença de Jesus é espiritual.

Lutero não cedeu. Puxou um pedaço de giz, riscou com força na madeira da mesa a frase em latim Hoc est corpus meum (“Isto é o meu corpo”), cobriu com uma toalha de veludo e declarou que não arredaria o pé dali. Para Lutero, a razão humana não tinha o direito de relativizar a clareza da promessa de Jesus: Cristo estava de fato presente “em, com e sob” o pão e o vinho, ainda que não conseguíssemos entender como.

Quando as negociações travaram, Zuínglio, em lágrimas, estendeu a mão direita a Lutero e pediu que, apesar da discordância naquele único ponto, se reconhecessem como irmãos e aliados na fé. Lutero recusou o aperto de mão e disse uma frase cortante, que marcou a primeira grande divisão do protestantismo: “Vocês são de outro espírito”.

A intransigência de Lutero diante de Zuínglio não foi caso isolado. O monge alemão tratava as divergências internas com a mesma violência verbal que usava contra Roma. Quando Andreas Karlstadt, seu antigo colega de universidade, quis acelerar as reformas quebrando imagens nas igrejas enquanto Lutero estava escondido no castelo de Wartburg, Lutero voltou às pressas e o fez deixar Wittenberg.

Diante dos anabatistas e dos camponeses liderados por Thomas Müntzer, a reação foi ainda mais furiosa: Lutero via neles fanáticos perigosos, que ameaçavam a ordem social, e chegou a escrever tratados incitando os príncipes a esmagar as revoltas armadas sem piedade.

Lutero tinha consciência do próprio estilo belicoso. Costumava dizer: “Eu nasci para lutar contra monstros e demônios; meu trabalho é arrancar tocos, limpar o terreno e abrir caminho na floresta como um lenhador rude. Quem vem depois de mim com calma e suavidade para semear e regar é Melanchthon”.

Houve, é verdade, raras exceções de respeito. Conta-se que, anos mais tarde, Lutero elogiou os escritos do jovem João Calvino e lamentou não ter conversado antes com o reformador francês sobre a Ceia, supondo que talvez chegassem a um acordo.

Marburgo deixa uma lição dolorosa sobre a história da Igreja. A mesma coragem de ferro que permitiu a Lutero desafiar impérios e papas sem vacilar o tornou incapaz de estender a mão a quem concordava com ele em quase tudo. A defesa da verdade bíblica é indispensável, mas, quando a ortodoxia perde a humildade e o amor fraterno, o resultado se repete: divisões profundas que atravessam os séculos e deixam o corpo de Cristo em pedaços.

140pal/min