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Anabatistas: As ilustrações da perseguição em Zurique
As cores da perseguição: As imagens dos primeiros anabatistas
Quando pesquisamos sobre a Reforma Protestante do século XVI, a iconografia é farta: retratos imponentes de Martinho Lutero a óleo, gravuras de João Calvino em sua escrivaninha em Genebra e xilogravuras de debates públicos diante de príncipes alemães. No entanto, quando buscamos o rosto dos anabatistas, os perseguidos daquela mesma era, o silêncio visual quase absoluto salta aos olhos. Como viviam na clandestinidade, em celeiros e trilhas florestais, quase nenhum registro pictórico contemporâneo sobreviveu para contar a história do grupo na Suíça.
Foi essa lacuna monumental que o historiador Heinold Fast procurou preencher ao investigar manuscritos esquecidos nos arquivos da Biblioteca Central de Zurique. Em um códice catalogado como Ms B 316 (uma cópia iluminada da monumental crônica da Reforma escrita pelo reformador Heinrich Bullinger, transcrita pelo ourives Heinrich Thomann por volta de 1605), Fast localizou uma série de ilustrações coloridas retratando com detalhes cruéis as primeiras prisões e execuções dos dissidentes suíços.
É verdade que aquelas ilustrações não foram pintadas na hora por testemunhas oculares com um bloco de notas na mão. Foram produzidas algumas décadas depois dos acontecimentos, baseadas na memória oral coletiva da cidade e nos registros formais dos interrogatórios do tribunal de Zurique. Ainda assim, elas oferecem uma janela histórica de valor incalculável para compreender a geografia e a violência daquela repressão religiosa.
Nas folhas do manuscrito e em coleções vizinhas, como a famosa crônica visual Wickiana, de Johann Jakob Wick, os cenários de Zurique ganham vida com uma precisão inquietante. É possível identificar a Grossmünster, a catedral principal onde Ulrico Zuínglio pregava inflamadamente contra os “rebatizadores”; a sinistra “Torre das Bruxas” (a Wellenberg), uma fortificação úmida no meio da água onde homens e mulheres eram mantidos acorrentados sob frio congelante; e as margens pedregosas do rio Limmat.
O rio Limmat se tornou o palco da punição mais sarcástica e cruel imposta pelo conselho da cidade. As autoridades decretaram que aqueles que teimavam em pregar o batismo de adultos deveriam sofrer a pena do afogamento, batizada com escárnio de “o terceiro batismo”. Em um dos desenhos mais conhecidos do códice, vemos a pequena balsa de madeira no meio das águas rápidas, o condenado amarrado de joelhos pelas mãos sobre uma estaca transversal e os magistrados assistindo à execução da margem, enquanto o corpo é empurrado para o leito do rio. Em janeiro de 1527, Felix Manz, um jovem helenista culto de Zurique que ousou insistir na liberdade de consciência, foi o primeiro anabatista executado em Zurique exatamente daquela maneira, entoando em latim as palavras de Jesus: “Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito”.
Outras ilustrações registram a marcha dos missionários huteritas da Morávia, famílias inteiras com vestimentas simples e alforjes nas costas, expulsas de suas terras por se recusarem a jurar lealdade armada aos senhores feudais.
O valor desses manuscritos preservados vai muito além da curiosidade estética de colecionador. Eles funcionam como um corretivo histórico indispensável. Mostram com tintas indeléveis que a batalha pela fé no século XVI não aconteceu apenas em salas aquecidas de teólogos debatendo o texto grego do Novo Testamento. Ela custou a vida, a liberdade e o sangue de cidadãos comuns cujos nomes e rostos quase desapareceram da memória oficial, mas que deixaram cravados no papel e nas águas dos rios europeus o preço inegociável da fidelidade às Escrituras.
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