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HistóriaReforma Protestante49 de 59

Bíblia King James de 1611: política, tradição e Palavra

A Bíblia King James de 1611: Política, tradição e a força da Palavra

Diego Gonçalves3 min de leitura677 palavras

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Quando o rei Jaime VI da Escócia subiu ao trono inglês em 1603 como Jaime I, sucedendo à rainha Elizabeth I, ele herdou um reino profundamente polarizado do ponto de vista religioso. Por um lado, os bispos anglicanos defendiam a estrutura tradicional da Igreja da Inglaterra, com suas hierarquias e os rituais herdados do passado. Por outro, os puritanos pressionavam por uma reforma que limpasse do culto e da vida comunitária qualquer vestígio do catolicismo romano.

A tensão entre esses dois grupos se refletia de forma muito concreta nas Bíblias que circulavam no país. O povo e os puritanos liam com paixão a Bíblia de Genebra, traduzida por exilados protestantes em 1560. Ela era prática, fácil de manusear e trazia notas de margem teológicas de marca calvinista. O problema para o novo rei era que várias dessas notas ensinavam abertamente que súditos piedosos podiam desobedecer a ordens injustas de reis tiranos. Como Jaime I defendia com firmeza a doutrina do direito divino dos reis, ele via na Bíblia de Genebra uma ameaça política e teológica direta. Enquanto isso, a tradução oficial da Igreja, a Bíblia dos Bispos de 1568, era pesada, cara e rejeitada pelo povo comum, porque soava distante e pomposa.

Folha de rosto da primeira edição da Bíblia King James, de 1611, com gravura de moldura arquitetônica, figuras dos apóstolos e o título em letras góticas
Folha de rosto da primeira edição da Bíblia King James, Londres, 1611. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Em janeiro de 1604, Jaime I convocou a Conferência de Hampton Court para ouvir as reivindicações dos puritanos. Ele rejeitou quase todos os pedidos de reforma da estrutura da Igreja, mas aceitou com entusiasmo uma proposta apresentada pelo líder puritano John Rainolds: uma nova tradução inglesa da Bíblia, que substituísse as versões anteriores e unisse a nação sob uma única voz.

O projeto foi organizado com um rigor acadêmico sem igual para a época. Jaime I reuniu cerca de cinquenta dos maiores especialistas em hebraico, aramaico e grego da Inglaterra, divididos em seis companhias de trabalho, sediadas em Westminster, Oxford e Cambridge. O método era colaborativo: cada membro traduzia um trecho sozinho e, depois, a equipe inteira se reunia para ler o texto em voz alta e discutir cada escolha de vocabulário, versículo por versículo. O critério não era apenas a precisão do texto original, mas também o som, já que a tradução precisava ecoar com clareza nos púlpitos, diante de congregações em que muitos ainda eram analfabetos.

O rei também impôs uma regra aos tradutores: nenhuma nota com comentário polêmico ou político seria permitida. O texto deveria falar por si mesmo, e as notas de margem ficaram restritas a explicações de termos do hebraico e do grego e a referências cruzadas entre passagens bíblicas. Como base, os tradutores se apoiaram no trabalho feito um século antes pelo mártir William Tyndale, cuja tradução forneceu a maior parte do vocabulário do Novo Testamento em inglês.

Publicada em 1611 e conhecida depois como Versão Autorizada, a Bíblia King James não conquistou o público do dia para a noite. Levou algumas décadas para que a Bíblia de Genebra deixasse de ser a favorita nos lares. Com o tempo, porém, a beleza e o ritmo da King James se tornaram a espinha dorsal da língua e da cultura inglesas, moldando a prosa de gerações de pensadores, pregadores e escritores.

A história da Bíblia de 1611 nos lembra como Deus costuma agir na história real. Um projeto motivado pelas preocupações políticas de um monarca, que queria controlar a fé do povo, foi transformado pela fidelidade de eruditos piedosos em um dos maiores veículos da Palavra de Deus que o mundo já conheceu. A Escritura em língua comum, aberta nas mãos do povo, continua sendo a marca da Reforma, e a providência de Deus governa até os planos dos reis para os Seus propósitos.