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Relíquias, santos e peregrinações: o que restou da Reforma
Relíquias, Santos e Peregrinações: O Que Aconteceu com a Memória dos Mártires?
Por volta do ano cento e cinquenta e cinco, um bispo idoso de oitenta e seis anos chamado Policarpo foi levado ao anfiteatro da cidade de Esmirna, na atual Turquia, para ser executado pelas autoridades romanas. Ele era uma das figuras mais respeitadas da cristandade, alguém que, segundo a tradição, na juventude havia convivido com o apóstolo João e ouvido dele os relatos sobre Jesus.
Quando o procônsul romano ofereceu a chance de salvar a própria vida blasfemando contra Cristo, o ancião respondeu com uma calma desconcertante: “Por oitenta e seis anos eu o tenho servido, e ele nunca me fez mal algum; como posso blasfemar contra o meu Rei e Salvador?” Policarpo foi queimado vivo e traspassado por uma espada.
Logo depois da execução, os cristãos daquela cidade recolheram os ossos calcinados do bispo e os sepultaram com carinho num lugar reservado. O documento mais antigo que narra esse martírio registra o motivo do gesto: eles pretendiam se reunir ali todo ano, no aniversário da morte de Policarpo, com dois objetivos: celebrar a memória de quem completou a corrida com fidelidade e preparar os cristãos vivos para seguirem o mesmo exemplo de coragem quando chegasse a vez deles.
Esse foi o impulso inicial de tudo: memória e preparação. Lembrar de quem permaneceu fiel até a morte e se inspirar no testemunho dessas pessoas para honrar a Cristo na própria vida. É um sentimento humano, nobre e ancorado na Escritura. O autor da carta aos Hebreus já usava essa imagem ao falar da “grande nuvem de testemunhas” que nos rodeia, e exortava a igreja a correr com perseverança a carreira proposta, com os olhos fixos em Jesus (Hebreus 12:1-2).
Só que a história tomou outro rumo nos séculos seguintes.
No início do século quarto, o imperador Constantino passou a favorecer o cristianismo e a igreja saiu da clandestinidade para os palácios do império. Ele mandou construir basílicas monumentais sobre os lugares mais venerados: a Basílica de São Pedro sobre o túmulo de Pedro, no Vaticano; a Basílica de São Paulo Fora dos Muros, na Via Óstia; e a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Em pouco tempo, túmulos simples de homens e mulheres martirizados viraram grandes centros de peregrinação.
Com as basílicas vieram as multidões; com as multidões vieram os relatos de milagres atribuídos ao contato com os restos mortais; e com os milagres nasceu a febre pelas relíquias.
Na Idade Média, possuir um pedaço de osso de um apóstolo, um dente de mártir ou um fiapo de roupa de um santo virou sinal de prestígio eclesiástico e de poder econômico. Cidades inteiras competiam entre si para abrigar relíquias famosas, porque o fluxo de peregrinos aquecia o comércio, enchia os cofres das catedrais e garantia proteção espiritual na mentalidade da época. Como a procura era enorme, o comércio e a falsificação de relíquias correram soltos. No Tratado das relíquias (1543), o reformador João Calvino ironizou o exagero: se todos os pedaços de madeira venerados na Europa como fragmentos da verdadeira cruz de Cristo fossem reunidos, encheriam um navio inteiro.
A distinção teológica que a Igreja tentava fazer no papel — dizendo que a adoração (latria) pertencia unicamente a Deus, enquanto aos santos cabia apenas veneração e respeito (dulia) — se perdeu na prática popular. O povo simples passou a orar aos santos pedindo favores, tratando ossos e imagens como amuletos e acreditando que uma viagem a um santuário distante garantia o perdão dos pecados de forma automática, mesmo sem arrependimento interior.
Foi contra esse desvio que os reformadores do século dezesseis se levantaram. Martinho Lutero e Calvino lembraram à igreja o que Paulo escreve em 1 Timóteo 2:5: há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Jesus Cristo homem. Salvos pela graça, mediante a fé, somente em Cristo, não precisamos de intermediários para falar com o Pai. O sangue de Jesus rasgou o véu de alto a baixo e nos deu livre acesso à presença de Deus (Hebreus 10:19-22).
O desafio é não jogar fora a criança junto com a água do banho. Ao rejeitar com razão a idolatria, o comércio de relíquias e a superstição medieval, muitas igrejas evangélicas acabaram no extremo oposto: esqueceram a história dos mártires e dos heróis da fé que derramaram o sangue pelo evangelho.
Não precisamos venerar ossos nem rezar a santos mortos para aprender com o testemunho deles. Resgatar a memória de pessoas como Policarpo de Esmirna, João Huss, William Tyndale e os mártires de hoje nos lembra de que a fé que recebemos custou caro. A nuvem de testemunhas não existe para ser adorada nem colocada em altares. Ela existe para nos mostrar que é possível ser fiel até o fim e que vale a pena entregar a vida ao Rei dos reis.
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