
O Pai Nosso segundo William Tyndale: Mais que um amuleto
Mais que um amuleto de palavras: O Pai Nosso segundo William Tyndale
Durante grande parte da Idade Média, a oração do Pai Nosso foi reduzida a um mantra quase mecânico. Nas cidades e vilas da Europa do século dezesseis, camponeses e nobres recitavam o Pater Noster em latim dezenas de vezes por dia sem entender uma única linha do que diziam. Acreditava-se que a simples pronúncia dos sons funcionava como uma espécie de amuleto capaz de afastar o diabo, curar doenças ou garantir boa sorte nas colheitas.
Foi justamente contra essa religiosidade vazia que o reformador inglês William Tyndale dedicou a pena e a vida. Ele é conhecido por traduzir o Novo Testamento do grego para o inglês do povo (trabalho pelo qual foi perseguido, traído, estrangulado e queimado na fogueira em 1536), e também escreveu sobre a oração que Jesus ensinou, como um diálogo entre a alma e Deus.
O objetivo de Tyndale era arrancar as pessoas da hipocrisia das repetições decoradas e mostrar que orar de verdade é entrar numa conversa honesta, humilde e desarmada com o Criador.
A anatomia do diálogo com Deus
No texto de Tyndale, o pecador se aproxima de Deus tremendo, esmagado pela culpa das suas transgressões e temendo a severidade da justiça divina. Em vez de apresentar uma lista de boas obras para tentar aplacar a ira de Deus, a alma é ensinada a olhar para as palavras de Jesus como um espelho.
Cada petição do Pai Nosso revela algo profundo sobre quem somos e sobre Quem Deus é:
- “Pai nosso que estás nos céus”: Antes de qualquer pedido, a oração começa lembrando o nosso lugar. Deus não é uma força abstrata nem um tirano distante; Ele Se revela como Pai por causa de Cristo, e é pelo Espírito do Filho que clamamos “Aba, Pai” (Gálatas 4:6). Mas é um Pai que está nos céus, o que pede reverência, temor santo e a consciência de que somos filhos adotados pela pura misericórdia d’Ele.
- “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”: Essa é uma das frases mais difíceis de dizer com sinceridade. Muitas das nossas orações são uma tentativa disfarçada de dobrar a vontade de Deus para que Ele atenda aos nossos planos. Quando dizemos que a vontade do Pai deve ser feita, assinamos um termo de rendição: abrimos mão das nossas pretensões para aceitar o que for melhor aos olhos do Senhor.
- “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”: Jesus não nos ensinou a pedir o trigo do ano inteiro para estocar com ansiedade no celeiro; Ele mandou pedir o pão de cada dia. Essa petição corta pela raiz a ganância e nos ensina a viver na dependência diária da providência de Deus, contentes com o sustento necessário.
- “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”: Essa é a frase que mais nos compromete. Quem repete esse pedido enquanto guarda rancor, amargura ou desejo de vingança contra o próximo está, na verdade, pedindo que Deus use com ele a mesma medida. O próprio Jesus acrescentou logo depois:
“Porque se perdoardes às pessoas suas ofensas, vosso Pai celestial também vos perdoará; mas se não perdoardes às pessoas, também vosso Pai não vos perdoará vossas ofensas.”
(Mateus 6:14-15, Bíblia Livre)
A graça que recebemos do céu precisa transbordar em perdão na terra, e perdoar não compra o perdão de Deus: é o sinal de que ele já chegou ao nosso coração. 5. “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”: É a confissão desarmada da nossa fragilidade. Reconhecemos que, deixados por nossa conta, somos fracos demais para resistir aos tropeços da vida e às ciladas do maligno.
A oração que transforma o coração
A grande lição de Tyndale aos seus leitores é que a oração bíblica nunca foi criada para informar a Deus o que Ele já não saiba, muito menos para convencê-Lo a ser compassivo. O Pai conhece as nossas necessidades antes mesmo de abrirmos a boca.
A oração existe para nos mudar. Ela quebra a nossa autossuficiência, limpa as motivações tortas do nosso peito e alinha o nosso coração à vontade de Deus. Quando nos achegamos ao trono da graça com o Pai Nosso nos lábios, não repetimos um ritual para barganhar bênçãos; aprendemos a viver como filhos amados que confiam na fidelidade do Pai.
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