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Protestantes e católicos: pontos em comum e diferenças
Protestantes e Católicos: convergências, divergências e caminhos de diálogo
No Brasil, é quase impossível encontrar uma família que não tenha pelo menos um tio católico devoto e uma prima evangélica fervorosa. Nos almoços de domingo ou nas reuniões de fim de ano, essa convivência costuma oscilar entre dois extremos igualmente ruins: ou o assunto vira uma briga de torcida cheia de acusações rasas, ou todo mundo finge que as diferenças não existem para evitar desconforto na sobremesa.
Cinco séculos depois que Martinho Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, a relação entre protestantes e católicos continua exigindo mais maturidade e menos estereótipos. Entender com precisão o que nos aproxima e o que nos separa serve a todo cristão que deseja dar um testemunho lúcido, desarmar preconceitos históricos e conversar com respeito, e não só aos teólogos de gabinete.
O que compartilhamos no alicerce
Antes de listar as divergências que provocaram a ruptura do século XVI, é justo reconhecer o solo comum em que as duas tradições pisam. Se você colocar um protestante histórico e um católico instruído lado a lado para recitarem o Credo dos Apóstolos ou o Credo Niceno, eles confessarão as mesmas verdades essenciais:
Ambos creem no Deus único e eterno que Se revelou em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Ambos sustentam a ortodoxia sobre Jesus Cristo: Ele é plenamente Deus e plenamente homem, concebido pelo Espírito Santo, nascido da virgem Maria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou corporalmente ao terceiro dia.
Ambos concordam que a raça humana caiu em pecado, que o ser humano é incapaz de se salvar pelas próprias forças sem a iniciativa da graça divina, e que no final da história Jesus voltará visivelmente para julgar os vivos e os mortos, consumando o Seu Reino eterno.
Esse núcleo básico da fé cristã não é pouca coisa. Ele delimita a fronteira entre a fé bíblica e as seitas que negam a Trindade ou a divindade de Jesus. Nesse terreno essencial, católicos e protestantes bebem da mesma herança dos primeiros séculos.
Onde os caminhos se dividem
Só que fingir que as diferenças são apenas perfumaria litúrgica é fechar os olhos para a verdade histórica. A Reforma Protestante nasceu de discordâncias profundas sobre como Deus fala com a humanidade e como o pecador é reconciliado com o Criador, e não de capricho político nem de picuinha pessoal de Lutero.
A primeira grande fratura está na autoridade final de fé. Para o protestantismo histórico, sintetizado no princípio do Sola Scriptura, somente a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, inerrante e suficiente (2 Timóteo 3:16-17). Tradições antigas, escritos patrísticos e decisões eclesiásticas têm valor histórico e pedagógico, mas são criações humanas falíveis que precisam se curvar ao crivo da Escritura. Já a teologia romana sustenta uma autoridade tripartite: a Bíblia e a Sagrada Tradição caminham juntas, interpretadas com infalibilidade pelo Magistério da Igreja, encabeçado pelo bispo de Roma. Quando o papa se pronuncia ex cathedra em matérias de fé e moral, a Igreja Católica entende que aquela decisão é infalível e irrevogável.
A segunda fratura diz respeito à justificação do pecador, o artigo com o qual, segundo a fórmula atribuída a Lutero, a igreja fica de pé ou cai. Para a teologia da Reforma, a salvação é recebida unicamente pela graça mediante a fé (Sola Gratia e Sola Fide), como diz Paulo aos efésios: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8, Bíblia Livre). A justiça de Cristo é creditada na conta do crente no momento em que ele crê, declarando-o plenamente justo diante do tribunal divino. As boas obras não compram a salvação nem cooperam para merecê-la; elas são o fruto inevitável e a prova de um coração regenerado.
No entendimento católico formalizado no Concílio de Trento (1545-1563), a justificação é vista como um processo progressivo. A graça é infundida na alma através dos sacramentos (começando pelo batismo), e o indivíduo precisa cooperar com essa graça por meio de obras meritórias e penitências para se manter no estado de graça e aumentar a sua justiça. Daí decorre a crença no purgatório: a ideia de que quem morre perdoado, mas ainda com resíduos de pecado ou sem a plena pureza, precisa passar por uma purificação dolorosa antes de entrar no céu. Para os protestantes, a cruz de Cristo foi completa e suficiente, não restando qualquer condenação ou purificação pendente após a morte física.
A terceira divergência evidente envolve a mediação e o culto aos santos. A fé evangélica apoia-se na declaração de Paulo a Timóteo de que há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem (1 Timóteo 2:5). Por isso, rejeita qualquer forma de oração dirigida a fiéis que já faleceram e não aceita os dogmas marianos definidos tardiamente pela Igreja de Roma: a imaculada conceição de Maria (1854) e a sua assunção corporal ao céu (1950). Honra Maria como mulher bem-aventurada e modelo de obediência (Lucas 1:48), mas sem lhe atribuir títulos como corredentora ou advogada celeste.
Os pontos cegos de cada tradição
Uma conversa honesta entre as duas tradições precisa ter a humildade de enxergar as próprias fraquezas institucionais.
O mundo protestante e evangélico frequentemente padece de um individualismo desenfreado. Ao rejeitar o peso excessivo da tradição, muitos grupos caíram num desapego doentio pela história da igreja, agindo como se o cristianismo tivesse começado ontem de manhã com a sua denominação favorita. A fragmentação em milhares de ministérios independentes, a falta de disciplina eclesiástica e a vulnerabilidade a pregadores midiáticos sem qualquer prestação de contas são feridas abertas no meio evangélico.
Por outro lado, o catolicismo romano enfrenta a tentação crônica do institucionalismo rígido e do sacramentalismo automático. Em muitas realidades, a participação nos ritos passa a ser vista quase como um dever burocrático que garante o favor divino independentemente de haver uma conversão real do coração. A centralidade da leitura pessoal da Bíblia ainda é tímida entre muitos fiéis leigos, e o clericalismo muitas vezes sufoca o protagonismo da comunidade.
Como sentar à mesma mesa
A frase atribuída a Rupertus Meldenius, teólogo luterano do século XVII, continua sendo a bússola mais sábia para navegar essas águas: nas coisas essenciais, unidade; nas coisas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, a caridade.
Isso significa que não precisamos abrir mão das convicções bíblicas da Reforma nem sair atacando a fé alheia com pedras nas mãos. O diálogo saudável começa quando ouvimos o que o outro realmente crê, a partir de suas fontes oficiais, e não a partir de fofocas religiosas ou caricaturas maldosas. Começa também quando encontramos espaço para colaborar na sociedade em causas que tocam a justiça, a defesa da vida, o socorro aos mais vulneráveis e o combate à miséria.
No final das contas, a pergunta mais importante que define a eternidade não é a placa de bronze que está na fachada do templo onde o indivíduo se reúne aos domingos. A pergunta que confronta a alma é se o nosso coração se rendeu à graça de Jesus Cristo, confiando inteiramente na Sua obra consumada na cruz como a nossa única esperança diante do Deus vivo.
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