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Lutero no Wartburgo: Onde traduziu o Novo Testamento
No alto da fortaleza: O refúgio onde Lutero traduziu o Novo Testamento
Em abril de 1521, Martinho Lutero estava diante do imperador Carlos V e dos príncipes do Sacro Império Romano na Dieta de Worms. Pressionado a renegar seus escritos, pronunciou a frase que entrou para a história: a menos que fosse convencido pelo testemunho das Escrituras ou por razões bíblicas claras, sua consciência permanecia cativa à Palavra de Deus. A resposta imperial foi implacável. Pelo Édito de Worms, Lutero foi formalmente declarado herege, banido do império e marcado como fora da lei: qualquer um podia matá-lo sem sofrer punição alguma.
Foi aí que entrou em cena um plano quase cinematográfico. O príncipe eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio, decidiu proteger seu professor mais ilustre. No caminho de volta para Wittenberg, a carruagem de Lutero foi interceptada numa emboscada armada por cavaleiros mascarados enviados pelo próprio príncipe. A ideia era simular um sequestro inimigo para ninguém saber seu paradeiro. Lutero foi levado às pressas para as montanhas da Turíngia e trancado no alto do impenetrável Castelo de Wartburg, perto da cidade de Eisenach.
Pelos dez meses seguintes, o monge agostiniano mudou de identidade. Deixou a barba crescer, abandonou o hábito religioso, vestiu roupas nobres de montaria e passou a atender pelo nome de “Cavaleiro Jorge” (Junker Jörg). Ele reclamava da solidão das pedras frias, das dores de estômago e do isolamento forçado, só que aquele retiro se transformou no período mais produtivo de toda a sua vida.
A maior obra desse confinamento foi a tradução do Novo Testamento para o alemão. Lutero tinha em mãos a segunda edição do Novo Testamento grego preparada pelo humanista Erasmo de Roterdã. Em vez de se acomodar na depressão do cativeiro, debruçou-se sobre a escrivaninha de madeira à luz de velas e, num ritmo impressionante de cerca de onze semanas, concluiu a primeira versão completa do Novo Testamento grego para o seu próprio idioma.
A grande revolução dessa tradução não foi apenas a velocidade, mas o critério que ele usou. Até então, quem sabia ler lia a Vulgata Latina, uma língua morta para a imensa maioria do povo. As poucas traduções alemãs existentes eram versões engessadas e literais do latim, tão duras que quase ninguém as entendia. Lutero adotou uma postura totalmente oposta: ele queria que o Evangelho fosse compreendido pelo menino da fazenda, pela leiteira e pelo homem simples do mercado.
Naquela época, a Alemanha nem sequer tinha uma língua unificada; cada região falava um dialeto diferente, e vizinhos de províncias próximas mal se entendiam. Lutero pegou o dialeto da chancelaria saxônica e o encharcou com a fala viva das ruas. Ele dizia que o tradutor não deve perguntar às letras latinas como se fala alemão, mas sim observar a mãe em casa, as crianças na rua e os compradores na feira livre, traduzindo exatamente como eles falam (é o que ele conta na Carta aberta sobre a tradução, de 1530). Para traduzir com precisão os sacrifícios de animais do texto bíblico, por exemplo, ele chegou a consultar açougueiros locais para aprender os nomes exatos das entranhas das ovelhas em alemão.
Em setembro de 1522, o livro finalmente saiu da gráfica em Wittenberg, conhecido historicamente como o Testamento de Setembro (Septembertestament). Com ilustrações da oficina de Lucas Cranach, as primeiras três mil cópias esgotaram em poucas semanas. Alfaiates, sapateiros, donas de casa e artesãos compravam e devoravam o livro. Pela primeira vez na vida, o povo comum lia, na língua que falava em casa, a promessa da graça de Deus, dada somente em Cristo e recebida pela fé. Era a Escritura posta nas mãos de todos como autoridade suprema, e não mais guardada por uma elite que lia latim.
Aquela empreitada no Castelo de Wartburg foi muito além de um marco religioso. Ao dar a Bíblia aos alemães, Lutero contribuiu de forma decisiva para formar o alemão moderno e abriu o caminho para que homens como William Tyndale, na Inglaterra, fizessem o mesmo com o inglês. Fechado no alto de uma fortaleza cinzenta sob a ameaça da morte, Lutero provou que nenhuma ordem de prisão consegue aprisionar a Palavra de Deus. Como escreveu Paulo, também ele preso por causa do evangelho, “a palavra de Deus não está presa” (2 Timóteo 2:9, Bíblia Livre).
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