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Humanismo cristão e Reforma: O lema ad fontes
De volta às fontes: Como o humanismo cristão preparou o caminho para a Reforma
Hoje em dia, quando alguém ouve a palavra “humanismo”, quase sempre pensa em ateísmo, secularismo ou em alguma filosofia moderna que tenta colocar o ser humano no lugar de Deus. Só que, no final do século quinze e no início do dezesseis, humanismo queria dizer outra coisa. Era um movimento intelectual apaixonado pelas línguas clássicas, pela história antiga e, acima de tudo, pelo resgate dos textos originais.
Para os cristãos daquela época, o lema que movia os estudos era uma expressão em latim: ad fontes, “de volta às fontes”.
Esse grupo de intelectuais, conhecido como os humanistas cristãos, estava cansado do jargão árido da escolástica medieval tardia. Durante séculos, as universidades europeias gastaram rios de tinta com comentários sobre comentários, criando labirintos filosóficos intermináveis, enquanto o texto bíblico em si ficava esquecido sob camadas de poeira e de tradições secundárias.
Ao decidirem pular os intermediários e beber a água limpa diretamente da nascente, esses pensadores acenderam o fósforo que, poucos anos depois, colocaria a Europa inteira em chamas com a Reforma Protestante.
O poder de ler o texto original
A grande virada veio com a queda de Constantinopla em 1453 e com a popularização da imprensa de tipos móveis criada por Gutenberg. Com a tomada da capital bizantina pelos turcos otomanos, muitos manuscritos antigos em grego chegaram ao Ocidente nas bagagens de intelectuais refugiados. Os acadêmicos da Europa ocidental puderam estudar os textos dos apóstolos na língua exata em que foram escritos.
A figura mais brilhante dessa geração foi o sábio holandês Erasmo de Roterdã. Em 1516, Erasmo publicou sua obra-prima, o Novum Instrumentum, uma edição que trazia o texto grego do Novo Testamento ao lado de uma nova tradução em latim.
O impacto dessa publicação foi enorme. Durante séculos, a Igreja Católica utilizou a Vulgata Latina de Jerônimo como a autoridade definitiva. Só que, ao confrontar o latim com os manuscritos gregos, Erasmo mostrou que alguns trechos da Vulgata davam apoio a práticas que o texto original não pedia.
O exemplo mais conhecido está no chamado inicial de Jesus no evangelho. Onde a Vulgata traduzia o verbo grego metanoeite por poenitentiam agite, “fazei penitência”, expressão que o clero medieval ligava ao sacramento da penitência e, por extensão, às indulgências, o grego dizia “arrependei-vos”, ou seja, uma mudança interna de mente e de coração (Mateus 4:17).
Em 1517, Lutero, que já lia o Novo Testamento grego de Erasmo, abriu as 95 Teses com estas palavras: “Quando nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse ‘Arrependei-vos’, Ele quis que toda a vida dos fiéis fosse de arrependimento”.
Um círculo brilhante e inquieto
Erasmo não estava sozinho. Em toda a Europa, uma rede de intelectuais profundamente devotos começou a sonhar com uma renovação espiritual da cristandade por meio da educação bíblica e do estudo das letras clássicas.
Na Inglaterra, John Colet lecionava as cartas do apóstolo Paulo na Universidade de Oxford de uma maneira inédita: em vez de pinçar frases isoladas para justificar dogmas, Colet explicava o contexto histórico do Império Romano, o pensamento de Paulo e o sentido corrido do texto. Seu amigo Thomas More, estadista e autor da célebre obra Utopia, unia a devoção cristã rigorosa ao apreço pela poesia, pelo bom humor e pela justiça social.
Na França, o veterano acadêmico Jacques Lefèvre d’Étaples já publicava comentários às epístolas paulinas, e defendia a justificação pela fé em Paris, anos antes de Lutero se tornar famoso. Mais tarde, na mesma França, um jovem estudante chamado João Calvino recebeu uma formação humanista de altíssimo nível em Paris e Bourges. Ali aprendeu o método histórico-gramatical de interpretação, que se tornaria a marca de seus comentários bíblicos e das Institutas da Religião Cristã.
Esses homens não queriam destruir a igreja. Queriam limpá-la dos entulhos da superstição, da ganância clerical e da ignorância do clero. Com sátiras ferinas, como o livro Elogio da Loucura, de Erasmo, ridicularizaram os monges corruptos, os bispos mercenários e o formalismo de ritos que não transformavam a conduta de ninguém.
O ovo que chocou
Circulava na Alemanha do século dezesseis um ditado que resumia a relação entre esses dois movimentos: “Erasmo botou o ovo, e Lutero o chocou”.
Havia, no entanto, uma diferença de temperamento e de compromisso entre eles. Os humanistas clássicos, como Erasmo e Thomas More, eram homens de gabinete e de diplomacia. Acreditavam que a igreja poderia ser reformada aos poucos, pela educação, pelo bom senso e pela cultura, sem rupturas nem tumultos sociais. Quando viram a tempestade religiosa provocada pelas 95 Teses de Lutero, recuaram e preferiram permanecer ligados a Roma.
Lutero, Zwinglio, Bucer e Calvino, por sua vez, levaram o lema ad fontes às últimas consequências. Voltar às fontes do evangelho não era um exercício de erudição, mas uma questão de vida ou morte espiritual. Se a Bíblia dizia algo diferente do que o papa ou os concílios ensinavam, a voz de Deus nas Escrituras precisava ter a palavra final. É o que a tradição protestante chama de sola Scriptura: a Escritura como autoridade suprema, e não como uma autoridade entre outras. Paulo a descreve assim:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça; para que o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra.”
(2 Timóteo 3:16-17, Bíblia Livre)
Voltar às fontes, para a Reforma, era voltar à Palavra que aponta para Cristo e que nos leva a ele pela graça, mediante a fé. É a mesma Palavra que, na tradição de Wesley, chama o pecador ao arrependimento e o conduz ao novo nascimento e à santidade.
Sem as ferramentas linguísticas, as edições de manuscritos e a coragem intelectual dos humanistas cristãos, a Reforma Protestante dificilmente teria tomado a forma que conhecemos. Eles nos deixaram uma lição permanente: a renovação espiritual da igreja nunca vem da invenção de novidades, mas da coragem humilde de voltar à fonte pura e cristalina da Palavra de Deus.
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