
HistóriaReforma Protestante98 de 121
A batalha pelo passado: A história da igreja na Reforma
A batalha pelo passado: Como a história da igreja virou uma guerra de papel na Reforma
Quando estudamos a Reforma Protestante no colégio ou ouvimos falar dela na igreja, quase sempre imaginamos um confronto travado apenas em cima de versículos bíblicos. Pensamos em Martinho Lutero afixando as 95 Teses na porta da igreja em Wittenberg, debatendo sobre justificação pela fé, indulgências e a autoridade do papa. Tudo isso aconteceu de verdade, só que há uma outra metade dessa história que quase ninguém conta: a Reforma foi também uma guerra feroz pelo controle do passado.
A pergunta que tirava o sono dos cristãos no século dezesseis não era só “o que a Bíblia ensina?”, mas “onde estava a igreja de vocês durante todos esses séculos antes de Lutero?”
Para os teólogos católicos de Roma, a resposta parecia óbvia e demolidora. Eles diziam: nós temos uma linha contínua de bispos, concílios e tradição que vem desde os apóstolos até hoje; vocês, protestantes, surgiram ontem e romperam com a igreja-mãe. Diante dessa acusação, dizer apenas “a Bíblia está do nosso lado” não bastava. Era preciso provar que a igreja original dos primeiros séculos tinha muito mais a ver com o que os reformadores estavam pregando do que com a estrutura monumental e hierárquica do Vaticano renascentista.
Foi então que os teólogos guardaram um pouco os tratados de doutrina pura e foram para os arquivos. A história da igreja deixou de ser uma disciplina pacífica de mosteiro e virou uma verdadeira trincheira teológica.
A primeira grande artilharia protestante: as Centúrias de Magdeburgo
Para responder à pergunta de Roma, um grupo de estudiosos luteranos liderados pelo teólogo croata Matthias Flacius Illyricus começou um projeto gigantesco na cidade de Magdeburgo. Eles reuniram uma equipe de pesquisadores, vasculharam bibliotecas pela Europa inteira e publicaram, a partir de 1559, uma obra em treze volumes conhecida como as Centúrias de Magdeburgo.
O plano deles era simples e metódico: dedicar um volume inteiro para cada século da história da igreja, do primeiro ao décimo terceiro.
A tese dos “centuriadores” protestantes lembrava um rio que vai ficando sujo conforme se afasta da nascente. Eles queriam mostrar que nos primeiros séculos a igreja vivia uma fé simples, bíblica e descentralizada. Só que, século após século, o poder imperial, as crendices populares e as ambições dos bispos de Roma foram jogando entulho nessa água limpa, até a doutrina ficar quase irreconhecível na Idade Média.
Para Flacius e sua equipe, os reformadores não estavam inventando uma igreja nova; estavam apenas limpando o entulho para o rio da graça voltar a correr. Com um método que até então ninguém tinha aplicado em tamanha escala, eles usaram documentos antigos, decretos conciliares e cartas esquecidas para montar uma cronologia crítica que colocava a versão oficial de Roma contra a parede.
A resposta de Roma: arquivos secretos e as catacumbas
O golpe de Magdeburgo doeu fundo na Igreja Católica. Ignorar o livro era impossível, porque os nobres e intelectuais da Europa estavam lendo aquilo e se convencendo de que Roma havia se desviado ao longo do tempo. Era necessária uma contra-ofensiva à altura.
O encarregado dessa missão foi o historiador e futuro cardeal Cesare Baronio. Incentivado pelo fundador do Oratório, Filipe Néri, Baronio passou mais de trinta anos da vida debruçado sobre as bibliotecas romanas e os arquivos do Vaticano. O resultado foi a monumental obra Annales Ecclesiastici (Anais Eclesiásticos), publicada em doze tomos a partir de 1588.
Baronio não recorreu apenas à autoridade papal para rebater os protestantes. Ele fez pesquisa documental pesada, ano a ano da era cristã. Ele tinha duas armas que os protestantes da Alemanha não tinham: acesso direto aos documentos mais antigos do arquivo pontifício e a redescoberta arqueológica das catacumbas de Roma, que tinha acontecido em 1578.
Quando os trabalhadores romanos redescobriram os túmulos subterrâneos dos primeiros cristãos, cheios de inscrições, pinturas murais, símbolos litúrgicos e ossos de mártires, Baronio encontrou ali a sua vitrine. Ele usou cada pedra, cada inscrição e cada esqueleto das catacumbas para argumentar que os cristãos do século segundo e terceiro já oravam pelos mortos, veneravam mártires e reconheciam a primazia do bispo de Roma. A mensagem de Baronio para os europeus era clara: a fé de Roma não era uma invenção tardia, mas a mesma fé cravada nas paredes de pedra onde os primeiros mártires dormiam.
O sangue que legitimava a fé: a guerra dos martirológios
A disputa não parou nos tratados eruditos em latim lidos por príncipes e bispos. Ela desceu para a língua do povo através dos livros de mártires.
Na Inglaterra, o protestante John Foxe publicou em 1563 o famoso Livro dos Mártires (Atos e Monumentos, no título original). A obra contava a história dos perseguidos desde os apóstolos, passava pela repressão papal aos valdenses e lolardos medievais, e culminava nos mártires queimados na fogueira pela rainha Maria Tudor pouco tempo antes. O livro de Foxe vinha com ilustrações em xilogravura dramáticas e viscerais. O livro foi colocado nas igrejas inglesas ao lado da Bíblia, e qualquer camponês que olhasse aquelas imagens concluía que Roma era a perseguidora e que a fé reformada era a fé dos que sofriam pelo evangelho.
Ao mesmo tempo, entre os grupos mais radicais, os anabatistas, que eram perseguidos tanto por católicos quanto por protestantes luteranos e calvinistas, criaram sua própria memória de resistência. Mais tarde, essa memória foi reunida no monumental Espelho dos Mártires, de Thieleman van Braght. Para os anabatistas, a verdadeira igreja nunca foi a que usou a espada do Estado para queimar divergentes, mas aquela que sempre esteve no lado dos que sangram.
O que essa briga nos ensina hoje
Essa batalha pelo passado teve dois lados bem visíveis. Por um lado, ela gerou polarização, propaganda sectária e ajudou a justificar perseguições sangrentas. Cada lado olhava para o espelho do passado e só conseguia enxergar o reflexo da sua própria teologia.
Por outro lado, foi justamente essa rivalidade que fez nascer a moderna ciência da história da igreja. Sem a disputa entre Flacius e Baronio, uma enorme quantidade de documentos antigos, manuscritos bíblicos e vestígios arqueológicos teria se perdido no mofo das bibliotecas ou no esquecimento da terra. Para tentar vencer o debate, os dois lados foram forçados a se tornar historiadores melhores, mais atentos às fontes e mais rigorosos na leitura dos textos.
Quando olhamos para a história da igreja hoje, é bom lembrar que o passado não pertence a nenhum grupo como propriedade privada. Os reformadores sabiam disso: a autoridade final deles era a Escritura, e a história da igreja servia como testemunha, nunca como juíza da fé (sola Scriptura). O cristianismo não começou no século dezesseis com a Reforma nem ficou congelado no século quarto com os imperadores romanos. Conhecer a história da fé com honestidade exige olhar para os acertos, os desvios, as dores e a graça que sustentou o povo de Deus no meio de tanta confusão humana.
- História da Igreja
- Reforma Protestante
- Historiografia
- Igreja Católica