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HistóriaReforma Protestante115 de 121

Reforma e estudo bíblico: Fim da leitura alegórica

Como a Reforma tirou a Bíblia do labirinto das alegorias

Diego Gonçalvesatualizado 3 min de leitura669 palavras

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Durante a maior parte da Idade Média, abrir a Bíblia era quase como decifrar um livro de enigmas. Prevalecia nas universidades e nos mosteiros o chamado método dos quatro sentidos: além do sentido histórico básico, que quase ninguém valorizava, o leitor precisava extrair do texto um sentido alegórico (o que crer), um sentido moral (como agir) e um sentido anagógico (o que esperar do céu). Na prática, esse malabarismo fazia com que qualquer versículo pudesse significar o que o intérprete quisesse. Um camelo ajoelhado junto ao poço, em Gênesis 24, podia virar uma metáfora sofisticada sobre a graça ou sobre a hierarquia da igreja.

O grande terremoto da Reforma Protestante no século 16 não foi apenas uma revolta contra a corrupção do clero ou o comércio das indulgências; foi, antes de tudo, uma revolução na maneira de ler o texto bíblico.

Retrato gravado de William Tyndale, tradutor do Novo Testamento para o inglês
William Tyndale (c. 1494-1536), gravura de autor desconhecido, 1836, em edição do Novo Testamento de Tyndale. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Ao levantar a bandeira do Sola Scriptura, os reformadores sabiam que não bastava dizer que a Bíblia é a autoridade suprema (2 Timóteo 3:16-17); era preciso resgatar um método de estudo que respeitasse o que os autores inspirados realmente haviam escrito. Essa virada na maneira de interpretar transformou a história ocidental em três pontos decisivos.

O primeiro passo foi o lema humanista do retorno às fontes (Ad Fontes). Durante mais de mil anos, a Igreja Romana estudou a Bíblia quase que exclusivamente através da Vulgata Latina, acumulando erros de tradução que distorciam doutrinas inteiras. Quando Erasmo de Roterdã publicou o Novo Testamento em grego em 1516, homens como Martinho Lutero e João Calvino correram para as línguas originais. Descobriram, por exemplo, que a palavra grega metanoeite não significava “fazei penitência” (o sacramento católico administrado por um padre), mas “arrependei-vos” (Mateus 4:17), uma mudança radical e interior de mente diante de Deus. O hebraico e o grego devolveram o oxigênio e a precisão ao estudo bíblico.

O segundo passo foi o resgate do sentido literal e histórico (sensus literalis). Lutero chamava a alegoria descontrolada de “uma prostituta que engana os homens ignorantes”. Os reformadores estabeleceram o princípio gramático-histórico: o dever sagrado do intérprete é descobrir o que o profeta ou o apóstolo pretendia comunicar à sua audiência original, respeitando as regras normais da gramática, o gênero literário e o cenário cultural da época. Se o texto fala de um rei, de uma batalha ou de uma colheita real, aquilo é história concreta, e não um código secreto para ilustrar dogmas medievais.

O terceiro passo foi a tradução das Escrituras para o vernáculo. Se a Bíblia tem autoridade final e clareza nas coisas essenciais da salvação (a doutrina da perspicuidade bíblica), ela precisa estar nas mãos do povo. Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão comum na fortaleza de Wartburg; William Tyndale deu a vida na fogueira para entregar o Novo Testamento em inglês ao rapaz que guiava o arado; e essa onda alfabetizou e transformou a Europa inteira.

É verdade que os reformadores ainda tinham suas limitações históricas. Estudiosos modernos apontam, com razão, que homens como Calvino muitas vezes interpretavam o Antigo Testamento já com as lentes teológicas do Novo, lendo Cristo em detalhes do pacto mosaico que os israelitas da época dificilmente enxergariam. Mas fincaram os pilares essenciais: a Escritura interpreta a própria Escritura, e o texto deve ser lido com rigor histórico, honestidade gramatical e reverência à voz soberana de Deus.

A Reforma devolveu a Bíblia para o chão da história e para o coração das pessoas comuns. Ela nos ensinou que a Palavra de Deus não precisa de truques alegóricos para ser profunda: a sua glória brilha com mais força quando temos a humildade de ouvir exatamente o que ela diz.

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