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Conversão de Hugh Latimer: a confissão invertida de Bilney

A Conversão de Hugh Latimer

Diego Gonçalvesatualizado 3 min de leitura650 palavras

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Neste texto

Hugh Latimer foi a voz mais popular e mais firme da Reforma Protestante na Inglaterra do século XVI. Filho de um camponês humilde de Leicestershire, entrou cedo na Universidade de Cambridge e subiu rápido na carreira acadêmica e na igreja, por causa da eloquência e da conduta exemplar. Mais tarde foi bispo de Worcester e pregou sem medo diante de reis. Só que, antes disso, Latimer era um dos opositores mais ferrenhos das ideias reformadas na Inglaterra.

Era defensor fanático das tradições medievais e do papado. Na cerimônia de conclusão do bacharelado em teologia, fez um discurso público violento contra o reformador alemão Philip Melanchthon. Pra ele, ler a Bíblia sem passar pelos olhos da igreja era uma heresia perigosa, que precisava ser esmagada.

A Confissão Invertida

Entre os presentes no auditório naquele dia estava Thomas Bilney. Os alunos o chamavam de “o pequeno Bilney”, com carinho, por causa da baixa estatura e da saúde frágil. Bilney tinha achado perdão e paz pra alma lendo escondido o Novo Testamento que Erasmo de Roterdã tinha acabado de publicar.

Quando ouviu a veemência de Latimer no púlpito, Bilney sentiu uma compaixão profunda por aquele padre tão sincero e ao mesmo tempo tão cego. Foi pro quarto dele e orou:

“Ó Deus, eu não passo do pequeno Bilney e nunca farei nada de extraordinário pelo Teu Reino; mas entrega-me a alma de Hugh Latimer, e vê que maravilhas ele fará pelo Teu Nome!”

Bilney bolou um plano improvável. Em vez de discutir de frente com o padre influente, foi até o gabinete de estudos de Latimer. Pediu com humildade que ele, como padre experiente, tivesse a bondade de ouvir a confissão dele. Latimer ficou lisonjeado com o pedido, mesmo vindo de um acadêmico suspeito de simpatizar com a Reforma, e aceitou.

O Encontro com as Escrituras

De joelhos aos pés de Latimer, Bilney não recitou a lista de sempre, com as faltas do dia a dia. Abriu a alma e contou a própria trajetória espiritual: os anos de jejum desesperado, as penitências compradas em vão, as noites sem dormir debaixo do peso da culpa e o momento em que abriu o Novo Testamento pela primeira vez e leu 1 Timóteo 1:15: “Fiel é esta palavra e digna de toda a aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”.

Enquanto Bilney contava a paz que Cristo tinha dado a ele de graça, na cruz, o Espírito de Deus tocou o coração de Latimer. As certezas do padre desabaram. Ele viu que todo o zelo acadêmico dele não passava de farisaísmo e que a alma dele estava tão perdida quanto a de qualquer mendigo.

Ali mesmo, quebrado até as lágrimas, o confessor desceu do assento, se ajoelhou ao lado do penitente e pediu que Bilney o ensinasse a descansar no sangue do Salvador. Mais tarde, Latimer declarou, agradecido: “Aprendi mais sobre Deus ouvindo a confissão do pequeno Bilney do que em muitos anos de estudo na universidade”.

A Tocha em Oxford

A conversão de Latimer sacudiu Cambridge. Os dois viraram companheiros inseparáveis na pregação ao ar livre e no cuidado dos presos e dos doentes. Latimer passou a pregar o Evangelho com paixão, denunciando a hipocrisia do clero e anunciando a justificação somente pela fé.

Décadas depois, na perseguição da rainha católica Maria I, Latimer foi preso e condenado à fogueira por ser fiel à Bíblia. Em 16 de outubro de 1555, amarrado a um poste de ferro diante do Balliol College, em Oxford, ao lado do bispo Nicholas Ridley, o velho pregador disse as palavras que ficaram famosas, enquanto acendiam a lenha:

“Tem bom ânimo, mestre Ridley, e sê homem! Hoje nós acenderemos na Inglaterra, pela graça de Deus, uma vela que eu confio que jamais será apagada.”