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EstudosReforma Protestante25 de 121

Romanos 1:16-17A descoberta de Lutero sobre a justiça

A Descoberta de Lutero e o Fim do Peso da Lei (Romanos 1.16-17)

Diego Gonçalves8 min de leitura1.519 palavras

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Neste estudo

“Porque não me envergonho do Evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiramente do judeu, e também do grego. Pois no Evangelho se revela a justiça de Deus de fé em fé; como está escrito: O justo viverá pela fé.”

(Romanos 1:16-17, Bíblia Livre)

A história da Reforma Protestante costuma ser lembrada pelo barulho: o som do martelo batendo na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517, as disputas teológicas públicas e os confrontos políticos que sacudiram a Europa. Mas a Reforma não começou com um martelo nem com uma bandeira política. Ela nasceu no silêncio angustiante de uma cela monástica e no tormento de uma consciência que não conseguia encontrar paz.

Antes de qualquer revolução cultural ou eclesiástica acontecer do lado de fora, uma revolução silenciosa teve que acontecer dentro de um monge agostiniano chamado Martinho Lutero. Entender o que Deus fez no coração daquele homem nos ajuda a enxergar as nossas próprias tentativas frustradas de barganhar com o Criador.

Gravura de Lutero como monge agostiniano, de perfil, com capuz e livro, segundo Lucas Cranach
Lucas Cranach, o Velho, Martinho Lutero como monge agostiniano, 1520. Museu Metropolitano de Arte, Nova York. CC0, via Wikimedia Commons.

O desespero da consciência diante de Deus

Lutero entrou no mosteiro em 1505 com um único objetivo na mente: salvar a própria alma. Ele levou o voto monástico mais a sério do que a esmagadora maioria dos seus contemporâneos. Jejuava durante dias a fio, dormia no chão frio sem cobertor em pleno inverno alemão, castigava o corpo e passava horas debruçado sobre orações e regras cerimoniais. Pelos critérios da igreja da sua época, ele era um religioso perfeito.

Havia, porém, um detalhe: quanto mais Lutero tentava ser santo, mais sujo ele se sentia. A disciplina religiosa não acalmava a tempestade dentro dele; pelo contrário, aumentava o desespero. O confessionário se tornou um ambiente de angústia. Ele chegava a passar quatro, cinco, seis horas seguidas confessando faltas ao seu superior, Johann von Staupitz. Saía dali, dava dez passos pelo corredor do mosteiro e lembrava-se de um pensamento egoísta ou de uma ponta de irritação que havia esquecido de mencionar. Voltava correndo para confessar de novo.

O problema de Lutero não era exagero infantil de quem se preocupava com bobagens. A questão era que ele havia entendido a gravidade da santidade divina com uma seriedade que pouca gente ao redor dele compreendia. Ele percebeu que um Deus três vezes santo exige perfeição absoluta de coração, motivações e pensamentos, e não um mero verniz exterior de boa conduta.

Em 1510, Lutero foi enviado a Roma em uma missão da sua ordem. Ele viajou com a esperança de encontrar o coração pulsante da piedade cristã. O que encontrou foi vaidade e corrupção eclesiástica. Quando subiu de joelhos os vinte e oito degraus da chamada Scala Sancta, repetindo rezas a cada degrau na tentativa desesperada de aliviar o fardo da sua culpa, chegou ao topo com uma pergunta desoladora cravada no peito: quem garante que isso é verdade?

De volta a Wittenberg, a angústia virou revolta interior. Como ele mesmo admitiu mais tarde com uma franqueza assustadora: ele não amava a Deus; ele odiava o Deus juiz que exige o que o ser humano não pode pagar e depois o pune por não ter conseguido pagar.

A justiça que desce do céu

A virada na vida de Lutero começou quando seu mentor, Staupitz, percebendo que a mente do jovem monge ia implodir pela introspecção, o mandou ensinar a Bíblia na Universidade de Wittenberg. Ao ser forçado a estudar o texto bíblico para preparar aulas sobre os Salmos, Gálatas e, principalmente, a Epístola aos Romanos, o rumo da história mudou.

Ao estudar Romanos 1.16-17, Lutero bateu de frente com uma expressão que o assombrava: “a justiça de Deus”. Até então, a teologia medieval na qual ele havia sido formado ensinava que a justiça de Deus era aquela virtude divina que retribui a cada um segundo o seu merecimento, punindo o transgressor e premiando o justo. Se a justiça de Deus era isso, então o evangelho não era boa notícia nenhuma; era apenas uma lei ainda mais refinada e assustadora.

Até que, meditando dia e noite no texto, os olhos dele se abriram para o versículo 17: “O justo viverá pela fé”. Lutero compreendeu a conexão maravilhosa do apóstolo Paulo. A justiça de Deus revelada no Evangelho não é a régua com a qual Deus mede os nossos méritos para nos condenar, mas a justiça perfeita que Ele mesmo providencia gratuitamente e imputa ao pecador mediante a fé em Jesus Cristo.

Nas palavras do próprio Lutero, foi como se as portas do paraíso tivessem se aberto de par em par e ele tivesse acabado de nascer de novo. Toda a Escritura ganhou vida nova. A justiça que antes despertava ódio no seu coração agora se tornava o consolo mais doce da sua alma.

Existem apenas dois tipos de justiça diante da eternidade. A primeira é a justiça humana, a tentativa desesperada de empilhar boas obras, rituais, cargos, sacrifícios e moralidade para construir uma ponte até Deus. Essa ponte sempre será curta demais. A segunda é a justiça de Deus, realizada perfeitamente por Cristo em sua vida irrepreensível e consumada na cruz do Calvário. Ela não é uma conquista que apresentamos a Deus, mas um dom que recebemos com as mãos vazias da fé. E até essa fé nos vem pela graça de Deus, que vai à frente e nos desperta antes de qualquer decisão nossa (a graça preveniente, na linguagem de Wesley).

O confronto com a religião da troca

Ilustração do frade Johann Tetzel vendendo indulgências a uma multidão diante de uma igreja
Ludwig Burger, Johann Tetzel vendendo indulgências em Berlim, 1517, c. 1881. Ilustração de Preussens Geschichte in Wort und Bild. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Quando essa verdade tomou conta de Lutero, a venda de indulgências promovida pelo frade dominicano Johann Tetzel na Alemanha tornou-se insuportável. Tetzel andava pelas cidades prometendo perdão dos pecados e libertação das almas do purgatório mediante o pagamento de moedas que ajudariam a financiar a construção da Basílica de São Pedro em Roma.

Se o perdão foi comprado com o sangue do Filho de Deus e é dado de graça pela fé, transformar a salvação numa transação financeira era uma profanação do evangelho. As 95 Teses que Lutero afixou na porta da igreja em 1517 não eram um tratado sobre política ou liturgia; eram um grito em defesa da graça de Deus. A tese 62 resumia com exatidão o sentimento do monge: o verdadeiro tesouro da igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus.

O princípio do Sola Fide (somente pela fé) tornou-se a coluna vertebral da fé reformada. A justificação é forense e graciosa: Deus nos declara justos diante do seu tribunal não por causa de qualquer virtude que exista em nós, mas pelos méritos de Cristo creditados na nossa conta.

A lei diz: faça isso, cumpra aquilo, alcance o padrão; e a nossa força humana nunca é suficiente. A graça diz: olhe para Cristo, confie naquilo que Ele realizou; e a obra já está consumada.

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Passados séculos desde que Lutero caminhou pelas ruas de Wittenberg, a tentação humana continua rigorosamente a mesma. Não precisamos viver num mosteiro medieval nem comprar pergaminhos de indulgência para cair no mesmo erro. O coração humano é uma fábrica contínua de autojustiça.

Queremos acreditar que a nossa presença fiel aos domingos, as ofertas, o trabalho voluntário e o bom comportamento moral criam uma obrigação para Deus nos aceitar. Gostamos da ideia do merecimento porque ela alimenta o orgulho humano. Mas o caminho do mérito é uma esteira sem fim: a pessoa corre até a exaustão e nunca tem paz com a própria consciência, porque no fundo sabe que o coração continua cheio de falhas ocultas.

Descansar na justiça de Cristo exige renunciar a todo orgulho religioso. Significa admitir que, se dependesse do nosso melhor dia, da nossa oração mais fervorosa ou da nossa atitude mais nobre, estaríamos irremediavelmente perdidos. A nossa única segurança eterna não repousa naquilo que as nossas mãos conseguem produzir, mas naquilo que Cristo suportou e venceu em nosso lugar.

A mesma porta do paraíso que se abriu para o monge angustiado há cinco séculos continua aberta hoje. Não tente construir uma escada de boas intenções para subir até os céus. Aproxime-se da cruz com as mãos vazias, reconheça que a sua suficiência vem exclusivamente do Senhor e ancore a sua esperança no Salvador ressuscitado. O justo viverá pela fé.

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