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HistóriaReforma Protestante32 de 121

Lutero: O monge angustiado que abalou a Europa

Diego Gonçalves9 min de leitura1.794 palavras

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Neste texto

No século XVI, o clérigo católico Johann Cochlaeus escreveu que qualquer pessoa que voltasse de uma viagem pela Europa sem ter visto duas figuras centrais, o papa e Martinho Lutero, não tinha visto nada de relevante. Cochlaeus se tornaria mais tarde um dos opositores mais ferozes da Reforma. Do outro lado da trincheira, Philipp Melanchthon, jovem humanista brilhante e braço direito de Lutero, ouviu pela primeira vez as ideias daquele frade e exclamou: “A igreja jamais testemunhou um herege maior!”. Dias depois, após estudar o que ele realmente ensinava, corrigiu-se em público: “Somente ele está certo!”.

Como é que um professor universitário do interior da Alemanha conseguiu despertar paixões tão extremas? O próprio Lutero deu a resposta numa de suas frases mais afiadas: “Outros antes de mim contestaram os maus costumes e a corrupção do clero. Mas atacar a doutrina falsa é agarrar o ganso pelo pescoço”.

Gravura de Martinho Lutero como monge agostiniano, de perfil, com hábito e tonsura, sob um arco de pedra
Lucas Cranach, o Velho, Martinho Lutero como monge agostiniano, 1520, gravura. Metropolitan Museum of Art, Nova York. CC0, via Wikimedia Commons.

Lutero não começou querendo fundar uma nova denominação nem pretendia derrubar imperadores. Ele era apenas um monge apavorado com a possibilidade de ir para o inferno, que descobriu na Escritura uma verdade que a burocracia religiosa de seu tempo havia soterrado: o pecador é justificado pela graça, mediante a fé, e não pelas próprias obras.

Do medo do raio ao pavor do confessionário

O pai de Lutero, Hans Luder, era um minerador de cobre próspero e ambicioso de Mansfeld. Ele investiu tudo o que tinha na educação do filho mais velho para que o jovem se tornasse um advogado de prestígio na corte ou na igreja. Lutero terminou o mestrado em tempo recorde na Universidade de Erfurt e ingressou na faculdade de direito, ganhando dos colegas o apelido de “O Filósofo”.

A alma de Lutero, porém, não estava em paz com o direito romano. Em julho de 1505, voltando a pé de uma visita à família, ele foi surpreendido por uma tempestade brutal. Um raio caiu a poucos passos dele, jogando-o no chão. Em pânico de morrer sem confissão e ser lançado na condenação eterna, ele gritou à padroeira tradicional dos mineradores: “Ajuda-me, Santa Ana! Eu me tornarei um monge!”.

Contra a vontade furiosa do pai, Lutero doou seus livros jurídicos caros, seu alaúde e suas roupas finas e bateu à porta do mosteiro dos agostinianos observantes em Erfurt. Ele foi o mais rigoroso dos monges, longe de qualquer relaxamento. Passava noites inteiras em claro rezando sobre o chão de pedra sem cobertor, jejuava a ponto de desmaiar e se açoitava com regularidade. Anos mais tarde, ele resumiu aquele período: “Se algum monge pudesse ter chegado ao céu por suas obras monásticas, com certeza teria sido eu”.

O problema é que o mosteiro não calou a sua angústia interior. Lutero passava horas no confessionário torturando seu superior, Johann von Staupitz, listando até o mais microscópico pensamento egoísta. Ele temia ter esquecido algum pecado e, por isso, perder o perdão divino. Chegou ao ponto em que Staupitz, cansado daquela neurose escrupulosa, desabafou: “Martinho, se você quer ser um pecador, vá e cometa um pecado de verdade — mate alguém, cometa adultério! Pare de vir aqui com essas bobagens artificiais!”.

Mas não adiantava. Lutero sabia que, mesmo quando fazia penitência ou confessava, fazia tudo motivado pelo medo egoísta da punição. O Deus que lhe haviam ensinado era um juiz implacável de olhos frios, pronto para fulminar o pecador que falhasse na média.

A descoberta da justiça que liberta

Percebendo que a mente daquele frade precisava de ocupação séria, Staupitz tomou uma decisão crucial: ordenou que Lutero fizesse o doutorado em teologia e assumisse a cátedra de ensino bíblico na recém-fundada Universidade de Wittenberg.

Foi preparando aulas sobre os Salmos e sobre a carta de Paulo aos Romanos, entre 1513 e 1515, que a grande virada aconteceu. Lutero confessou mais tarde que odiava com todas as forças a expressão “a justiça de Deus” em Romanos 1:17. Ele entendia essa frase como a justiça retributiva: o padrão perfeito com o qual Deus castiga quem é injusto. E, como ele não se sentia justo, aquilo parecia uma crueldade infinita.

Até que os olhos dele se abriram para o contexto completo do versículo: “Pois no Evangelho se revela a justiça de Deus de fé em fé; como está escrito: O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17, Bíblia Livre).

Lutero percebeu o que séculos de teologia medieval haviam obscurecido: a justiça de Deus não é a régua com que Ele mede os nossos erros para nos condenar. A justiça de Deus é o dom imerecido que Ele mesmo nos concede por meio da morte e ressurreição de Cristo. A salvação não é uma conquista humana obtida pelo acúmulo de sacramentos, peregrinações ou flagelos; é um presente aceito de mãos vazias unicamente pela fé (Efésios 2:8-9).

O próprio Lutero descreveu a sensação: “Senti que havia nascido de novo e entrado pelas portas abertas do próprio paraíso”.

As 95 teses e a briga pelas indulgências

Com a teologia transformada, o choque com a máquina eclesiástica da época era inevitável. Em 1517, um frade dominicano carismático chamado Johann Tetzel percorria as fronteiras da Saxônia vendendo indulgências papais com um apelo publicitário grosseiro: “Assim que a moeda no cofre tilinta, uma alma do purgatório salta para o céu”. O dinheiro arrecadado servia para financiar a construção suntuosa da Basílica de São Pedro em Roma e para cobrir as dívidas de nobres alemães com os banqueiros italianos.

Aquilo revoltou Lutero. As pessoas mais humildes estavam gastando o dinheiro do pão de seus filhos na ilusão de que um pedaço de pergaminho carimbado garantia o céu.

Em 31 de outubro de 1517, véspera do Dia de Todos os Santos, Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg um documento com 95 teses convidando a comunidade acadêmica para o debate. Ele não pretendia romper com a igreja; queria corrigir um abuso moral. O texto, porém, foi rapidamente traduzido do latim para o alemão, impresso pela nova tecnologia de tipos móveis de Gutenberg e espalhou-se por toda a Europa em pouquíssimas semanas.

A reação da cúria romana foi endurecer a linha. A discussão deixou de ser sobre a teologia das indulgências e passou a ser sobre a autoridade do papa. No Debate de Leipzig, em 1519, Lutero foi encurralado pelos teólogos do papa e assumiu uma postura sem volta: “Um simples cristão leigo armado com as Escrituras é superior ao papa e a todos os concílios reunidos sem elas”. Em meados de 1520, o papa Leão X emitiu a bula Exsurge Domine, ameaçando-o de excomunhão e ordenando a queima de seus escritos. A resposta de Lutero foi queimar a bula papal em praça pública diante de estudantes e professores de Wittenberg.

Dieta de Worms: a consciência cativa da Palavra

Pintura de Lutero diante do imperador Carlos V e dos príncipes na Dieta de Worms, com a mão no peito
Anton von Werner, Lutero na Dieta de Worms, 1877. Staatsgalerie Stuttgart. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O ápice do drama ocorreu em abril de 1521, na cidade de Worms. O jovem imperador Carlos V, senhor do maior império do mundo na época, convocou uma assembleia geral de príncipes, bispos e nobres para exigir a rendição do monge rebelde.

Lutero entrou no grande salão abarrotado e viu sobre uma mesa uma pilha com todos os livros que havia escrito. O interrogador oficial foi seco: “Você reconhece estes livros como seus? E você se retrata do que escreveu neles?”.

Surpreso com o tom de julgamento sumário, Lutero pediu um dia de prazo para pensar. Ele passou a noite em agonia de oração. No dia seguinte, diante da nobreza imperial iluminada por tochas, ele deu a resposta que selou a história moderna:

“A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por razões claras e evidentes — pois não confio no papa nem em concílios sozinhos, já que é notório que eles erraram e se contradisseram frequentemente —, minha consciência está cativa da Palavra de Deus. Não posso e não vou me retratar de nada, pois não é seguro nem honesto agir contra a própria consciência. Aqui estou. Não posso fazer diferente. Que Deus me ajude. Amém”.

O refúgio no castelo e o legado duradouro

Condenado como herege e fora da lei imperial pelo Édito de Worms, Lutero podia ser assassinado por qualquer cidadão sem punição legal. Na volta para casa, soldados mascarados simularam um sequestro na floresta da Turíngia. Tratava-se de um plano de seu protetor político, o príncipe Frederico, o Sábio, para esconder Lutero na fortaleza do Castelo de Wartburg.

Disfarçado como um nobre de barba e espada sob o nome de “Cavaleiro George”, Lutero viveu dez meses de isolamento produtivo. Ali, entre queixas de dores estomacais e crises de solidão, ele realizou o maior trabalho de sua vida: traduziu todo o Novo Testamento do grego para o alemão em apenas onze semanas. Ele não usou o latim engessado dos clérigos; usou a linguagem viva da mãe na cozinha, do sapateiro na banca e das crianças na praça. Aquela tradução democratizou o acesso à Bíblia e fundou as bases da língua alemã moderna.

Nos anos seguintes, a Reforma ganhou corpo prático. Lutero desmistificou o sacerdócio, afirmando que todo crente tem acesso direto a Deus sem precisar da mediação de uma casta sagrada. Ele compôs hinos congregacionais inesquecíveis, como Castelo Forte é Nosso Deus, devolvendo a música litúrgica à voz de toda a igreja reunida. Ele se casou com Katharina von Bora, uma freira que havia fugido de um convento escondida num barril de peixe, e transformou a casa pastoral num modelo acolhedor de família, com filhos, estudantes à mesa e conversas francas sobre teologia regadas a boa cerveja alemã.

Lutero teve falhas graves, especialmente nos seus últimos anos, quando escreveu textos ásperos e impiedosos contra judeus e contra os camponeses revoltosos. Ele nunca foi um santo imaculado; foi um homem contraditório e apaixonado pelo evangelho. Mas a sua grande vitória histórica foi ter recolocado a graça de Deus no centro da vida cristã, lembrando que a nossa paz diante do céu não depende das nossas obras instáveis, mas da obra perfeita que Cristo já realizou por nós na cruz.

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