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Oração segundo Lutero: O conselho ao seu barbeiro
Como orar quando o coração está frio: O conselho de Lutero ao seu barbeiro
Quem tenta cultivar o hábito diário de falar com Deus conhece bem a sensação desconfortável de sentar para orar e encontrar a mente avoada e o coração gelado. Fechamos os olhos e, em vez de nos fixarmos na presença do Pai, a cabeça é invadida pela lista de compras do supermercado, pelas mensagens pendentes no celular ou pelos boletos que vencem no dia. Vem a culpa, e logo pensamos: “Melhor deixar para mais tarde, quando eu estiver mais inspirado”.
Só que esse “mais tarde” quase nunca chega. Martinho Lutero já alertava sobre essa armadilha no século XVI: adiar a oração da manhã por causa de tarefas que parecem urgentes é o caminho mais rápido para passar o dia inteiro sem falar com Deus.
Por volta de 1535, o barbeiro e amigo de Lutero em Wittenberg, um homem simples chamado Peter Beskendorf, pediu ao reformador que lhe ensinasse a orar. Em resposta, Lutero pegou a pena e escreveu um livreto curto, Um Modo Simples de Orar, que o próprio barbeiro recebeu em mãos.
O conselho de Lutero tem um bom senso desarmante. Quando sentia o coração frio ou preguiçoso, ele não tentava inventar orações pomposas. Agia como uma criança pequena que precisa aprender a falar de novo. Tomava um texto bíblico conhecido, o Pai-Nosso ou os Dez Mandamentos, e usava as palavras como quem bate a pederneira no aço, só para tirar as primeiras faíscas e acender a fogueira da alma. Antes disso, porém, ele se lembrava de que a oração é ordem e promessa de Deus, e por isso orava mesmo sem sentir nada: a certeza de ser ouvido não vem do nosso calor, vem da palavra de Cristo (Mateus 7:7-8).
O método que Lutero ensinou ao barbeiro tem quatro passos simples, que qualquer pessoa pode aplicar a cada versículo ou mandamento:
O primeiro passo é a instrução: o que Deus está me ensinando aqui? Paramos e pensamos no que aquele mandamento ou petição quer dizer para a vida real.
O segundo passo é a gratidão: pelo que posso agradecer a Deus com base nisso? Se o mandamento diz “não furtarás”, por exemplo, agradecemos pelo pão de cada dia, pelo trabalho honesto e pelo sustento que nunca faltou na mesa.
O terceiro passo é a confissão: onde foi que eu errei? Olhamos para a própria conduta com honestidade e confessamos onde fomos gananciosos, onde retivemos o que devíamos repartir ou onde confiamos mais no dinheiro do que no cuidado de Deus. A confissão aponta para a cruz, porque só em Cristo o pecador é perdoado (1 João 1:9).
O quarto passo é a súplica: o que preciso pedir? É o momento de clamar para que o Espírito Santo transforme as atitudes do coração e nos capacite a viver aquela verdade na prática, diante da família e dos vizinhos.
O toque mais bonito do conselho de Lutero está no momento da escuta. Ele advertiu o barbeiro de que oração não é monólogo, em que apenas despejamos uma lista de pedidos para Deus e saímos correndo. Se durante a meditação o Espírito Santo começar a falar à consciência, trazendo bons pensamentos, consolo ou confronto, a melhor coisa a fazer é calar e ficar em silêncio, ouvindo. Uma única frase que o Espírito pronuncia ao coração, em silêncio, vale mais do que muitas palavras nossas.
Por fim, Lutero insistia em dizer “Amém” com firmeza e sem titubear. Dizer amém não é só um protocolo de encerramento; significa “assim seja”, a certeza tranquila de que o Pai celestial ouviu a súplica de um filho frágil e acolheu a oração em nome de Jesus.
Orar não exige erudição acadêmica nem sentimentos arrebatadores fabricados à força. Como ensinou o velho reformador ao seu barbeiro, orar é sentar como filho necessitado, colocar a Bíblia no colo e deixar que as palavras de Deus aqueçam a nossa fragilidade diária.
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