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HistóriaReforma Protestante79 de 121

Oração segundo Lutero: O conselho ao seu barbeiro

Como orar quando o coração está frio: O conselho de Lutero ao seu barbeiro

Diego Gonçalves4 min de leitura729 palavras

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Quem tenta cultivar o hábito diário de falar com Deus conhece bem a sensação desconfortável de sentar para orar e encontrar a mente avoada e o coração gelado. Fechamos os olhos e, em vez de nos fixarmos na presença do Pai, a cabeça é invadida pela lista de compras do supermercado, pelas mensagens pendentes no celular ou pelos boletos que vencem no dia. Vem a culpa, e logo pensamos: “Melhor deixar para mais tarde, quando eu estiver mais inspirado”.

Só que esse “mais tarde” quase nunca chega. Martinho Lutero já alertava sobre essa armadilha no século XVI: adiar a oração da manhã por causa de tarefas que parecem urgentes é o caminho mais rápido para passar o dia inteiro sem falar com Deus.

Lutero ajoelhado de mãos postas, orando no quarto onde Melanchthon, doente, repousa na cama
Lutero salva, pela oração, seu amigo Melanchthon da morte, litografia publicada em Barão von Löwenstern, Luther und dessen Reformation, Stuttgart, 1830. Library of Congress, Washington. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Por volta de 1535, o barbeiro e amigo de Lutero em Wittenberg, um homem simples chamado Peter Beskendorf, pediu ao reformador que lhe ensinasse a orar. Em resposta, Lutero pegou a pena e escreveu um livreto curto, Um Modo Simples de Orar, que o próprio barbeiro recebeu em mãos.

O conselho de Lutero tem um bom senso desarmante. Quando sentia o coração frio ou preguiçoso, ele não tentava inventar orações pomposas. Agia como uma criança pequena que precisa aprender a falar de novo. Tomava um texto bíblico conhecido, o Pai-Nosso ou os Dez Mandamentos, e usava as palavras como quem bate a pederneira no aço, só para tirar as primeiras faíscas e acender a fogueira da alma. Antes disso, porém, ele se lembrava de que a oração é ordem e promessa de Deus, e por isso orava mesmo sem sentir nada: a certeza de ser ouvido não vem do nosso calor, vem da palavra de Cristo (Mateus 7:7-8).

O método que Lutero ensinou ao barbeiro tem quatro passos simples, que qualquer pessoa pode aplicar a cada versículo ou mandamento:

O primeiro passo é a instrução: o que Deus está me ensinando aqui? Paramos e pensamos no que aquele mandamento ou petição quer dizer para a vida real.

O segundo passo é a gratidão: pelo que posso agradecer a Deus com base nisso? Se o mandamento diz “não furtarás”, por exemplo, agradecemos pelo pão de cada dia, pelo trabalho honesto e pelo sustento que nunca faltou na mesa.

O terceiro passo é a confissão: onde foi que eu errei? Olhamos para a própria conduta com honestidade e confessamos onde fomos gananciosos, onde retivemos o que devíamos repartir ou onde confiamos mais no dinheiro do que no cuidado de Deus. A confissão aponta para a cruz, porque só em Cristo o pecador é perdoado (1 João 1:9).

O quarto passo é a súplica: o que preciso pedir? É o momento de clamar para que o Espírito Santo transforme as atitudes do coração e nos capacite a viver aquela verdade na prática, diante da família e dos vizinhos.

O toque mais bonito do conselho de Lutero está no momento da escuta. Ele advertiu o barbeiro de que oração não é monólogo, em que apenas despejamos uma lista de pedidos para Deus e saímos correndo. Se durante a meditação o Espírito Santo começar a falar à consciência, trazendo bons pensamentos, consolo ou confronto, a melhor coisa a fazer é calar e ficar em silêncio, ouvindo. Uma única frase que o Espírito pronuncia ao coração, em silêncio, vale mais do que muitas palavras nossas.

Por fim, Lutero insistia em dizer “Amém” com firmeza e sem titubear. Dizer amém não é só um protocolo de encerramento; significa “assim seja”, a certeza tranquila de que o Pai celestial ouviu a súplica de um filho frágil e acolheu a oração em nome de Jesus.

Orar não exige erudição acadêmica nem sentimentos arrebatadores fabricados à força. Como ensinou o velho reformador ao seu barbeiro, orar é sentar como filho necessitado, colocar a Bíblia no colo e deixar que as palavras de Deus aqueçam a nossa fragilidade diária.

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