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Anabatistas e a doutrina dos dois reinos
A doutrina dos dois reinos e a espada de Cristo
No final do século XVI, enquanto católicos e protestantes disputavam cidades inteiras pelo poder das armas na Europa central, pequenos grupos clandestinos se reuniam às escondidas nos campos e bosques da Alemanha do Sul. Entre eles estava Hans Schnell, um pastor anabatista que conhecia de perto o peso da perseguição. Sua esposa havia sido presa por causa da fé anos antes, ele mesmo chegou a fraquejar e passar mais de uma década afastado do ministério, mas retornou em 1575 para batizar, ensinar e pastorear comunidades dispersas sob o risco constante de prisão e morte.
Foi nesse ambiente de medo e clandestinidade que Schnell redigiu um manuscrito fundamental que circulou de mão em mão entre os irmãos da fé: o tratado conhecido como Os Dois Reinos. O objetivo dele não era produzir uma tese acadêmica para debater com teólogos de universidades famosas, mas oferecer aos crentes perseguidos uma bússola bíblica para responder a uma pergunta prática e urgente: até que ponto o seguidor de Jesus pode se envolver com as estruturas de poder e com a força da espada estatal?
Para estruturar seu argumento, Schnell estabeleceu uma separação nítida e radical entre dois domínios que jamais deveriam ser misturados: o reino terreno deste mundo e o reino celestial de Jesus Cristo.
O reino terreno, governado por príncipes, juízes e magistrados, existe pela providência divina para conter a maldade humana e evitar que a sociedade colapse em anarquia. Para cumprir esse papel, como ensina Paulo em Romanos 13, o magistrado carrega a espada civil para punir os criminosos e manter uma ordem mínima entre os ímpios (v. 4). Schnell reconhecia que o governo civil é necessário para o funcionamento do mundo decaído. O erro fatal começava, segundo ele, quando os cristãos tentavam sentar na cadeira do magistrado e empunhar essa mesma espada física em nome de Deus.
O reino de Cristo opera por uma lógica totalmente oposta. O próprio Senhor a declarou diante de Pilatos:
“Respondeu Jesus: Meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, meus trabalhadores lutariam, para que eu não fosse entregue aos Judeus; mas agora meu Reino não é daqui.”
(João 18:36, Bíblia Livre)
Por isso a igreja não é governada pelo medo do cárcere nem pela coerção militar, mas pela paz, pelo amor sacrificial e pela submissão voluntária ao Evangelho. A espada permitida ao povo de Deus é unicamente a Palavra do Senhor, e as batalhas dos crentes são espirituais, travadas contra o pecado por meio da oração, da fé e da proclamação da verdade. No entendimento anabatista, Jesus aboliu a lógica da retaliação e da violência civil para os Seus discípulos ao ordenar no Sermão do Monte que amassem os inimigos, abençoassem os perseguidores e oferecessem a outra face.
Schnell enfrentava a objeção clássica levantada tanto por teólogos luteranos quanto por reformados (a Confissão de Augsburgo, no artigo 16, admite que cristãos exerçam cargos civis e façam guerra justa), que apontavam para reis piedosos do Antigo Testamento, como Davi e Josias, para justificar que cristãos governassem nações e guerreassem com armas físicas. A resposta do pastor anabatista mostrava a descontinuidade trazida pela encarnação: a lei de Moisés regulava uma nação geopolítica terrena por meio de castigos temporais, mas em Cristo a plenitude da revelação foi manifestada. O modelo final para a igreja não é a monarquia de Israel armada até os dentes, mas o Cordeiro que subiu à cruz perdoando Seus carrascos.
Outro ponto central do tratado era a leitura que os anabatistas faziam da história da igreja. Para Schnell, o momento exato em que a igreja cristã se desviou de sua pureza original foi o pacto firmado com o imperador Constantino no século IV. Quando o cristianismo deixou de ser uma comunidade sofredora de discípulos voluntários e virou a religião oficial do Império Romano, a cruz foi substituída pelo estandarte de guerra dos exércitos. Ao acolher a proteção imperial e aceitar usar a força das leis civis para combater heresias, a igreja teria vendido a sua alma ao mundo, inaugurando uma apostasia secular que os reformadores do século XVI falharam em desmantelar completamente.
A teologia dos dois reinos de Hans Schnell exigia um custo altíssimo dos seus ouvintes. Significava abrir mão de carreiras públicas, recusar o serviço militar e enfrentar a fúria dos tribunais da época sem levantar uma única mão para revidar. Ao redigir e repassar seus escritos na escuridão dos campos alemães, Schnell ajudou a manter viva uma chama que desafia a igreja em qualquer época: a certeza de que o Reino de Deus não avança pela força da espada e dos palácios, mas pelo testemunho fiel, desarmado e perseverante dos que escolheram seguir os passos do Mestre até o fim.
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