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Juventude de Lutero: o raio, o pai e o mosteiro
O raio, o pai furioso e a cela: os primeiros passos de Lutero
Nenhum líder surge pronto. As grandes convicções quase sempre são forjadas muito tempo antes, nas conversas em volta da mesa da infância, nas cobranças dos pais, nos medos não resolvidos e nas primeiras crises da juventude. Com Martinho Lutero não foi diferente. Antes de ser o monge que desafiou o papa e o imperador, Lutero era apenas o filho primogênito de um minerador de cobre obstinado que sonhava em ver a família subir na vida.
O pai de Lutero, Hans Luder, era um camponês que trabalhou duro até conseguir abrir suas próprias fundições e conquistar um assento no conselho da cidade de Mansfeld. Ele sabia exatamente o que o dinheiro e a influência podiam comprar na Alemanha do século XVI. Por isso, traçou um plano de carreira ambicioso para o filho: Martinho não trabalharia com picareta na poeira da mina: seria advogado, um jurista respeitado a serviço de nobres e príncipes, que traria prestígio e segurança à família.
Hans investiu tudo o que tinha na educação do rapaz. Mandou Martinho para as melhores escolas de latim e o matriculou na prestigiada Universidade de Erfurt. E o jovem correspondeu com brilhantismo: concluiu o bacharelado e o mestrado no tempo mínimo permitido pelos estatutos acadêmicos. Pela habilidade na argumentação e na lógica, ganhou dos colegas o apelido de “o Filósofo”. O pai, radiante de orgulho, chegou a presenteá-lo com a edição encadernada do código de direito civil romano. O futuro parecia traçado e brilhante.
Só que havia uma rachadura crescendo por dentro.
Ele havia crescido num ambiente religioso típico do interior alemão, onde a fé era dominada pelo medo da condenação eterna, por superstições populares e pela imagem de um Deus implacável, com os olhos fixos nas falhas humanas, pronto para descarregar raios sobre os desobedientes. Para a mentalidade da época, a salvação era uma corrida desesperada para acumular méritos, rezas e rituais antes que a morte batesse à porta. Era o contrário do que a Escritura ensina: somos justificados pela graça, mediante a fé, e não por méritos nossos (Efésios 2:8-9).
Em julho de 1505, aos 21 anos, voltando para a faculdade de direito depois de visitar a família, Lutero foi apanhado por uma tempestade violenta na estrada aberta perto do vilarejo de Stotternheim. Um raio atingiu o chão a poucos metros de onde ele estava. Aterrorizado diante da ideia de morrer ali e comparecer de mãos vazias perante o tribunal de Deus, ele gritou pela santa protetora dos mineiros de sua terra: “Salva-me, Santa Ana, e eu me tornarei monge!”.
A tempestade passou, mas o juramento não. Poucos dias depois, Lutero chamou os amigos para uma ceia de despedida, vendeu a maior parte dos livros de direito, abandonou o alaúde que costumava tocar e bateu no portão do Mosteiro dos Agostinianos de Erfurt.
Quando o pai soube da notícia, ficou furioso. Hans considerou a atitude do filho uma ingratidão e se afastou dele por um bom tempo. Para ele, o investimento de uma vida inteira tinha sido jogado fora para o filho se trancar numa cela escura, vestido com um hábito de lã grossa.
Dentro do mosteiro, Lutero se entregou às orações, às vigílias gélidas e aos jejuns, com a mesma disciplina obstinada que herdou do pai. Tentou a todo custo ser o monge perfeito, mas a paz não veio. Pelo contrário: as noites de angústia espiritual só aumentaram.
Essa angústia profunda, combinada com a mente analítica treinada pelo estudo do direito e da filosofia, foi o que preparou Lutero para ler a Bíblia com outros olhos. Ele não entrou no mosteiro por interesse acadêmico, mas para tentar salvar a própria alma. E foi justamente no desespero de descobrir que suas forças não podiam comprar a paz com Deus que nasceu o coração da Reforma: a justificação pela fé somente, só pela graça, em Cristo somente (Romanos 1:17; 3:28).
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